Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Por que eu não amo minha mãe

Dedicado a Keli, que com sua visão sobre maternidade, transformou por completo a minha. E eu não sabia que a partir disso, dessa chavinha virada, dessa mudança de mindset (configuração mental), todo o meu ser se reorganizaria, afetando a forma com a qual eu enxergo a mim mesma e ao mundo. Isso me ensinou que a cura para os males que assolam a humanidade está dentro de nós, mas só vem a tona na nossa relação com os outros, com o social. E quem é “o outro” original? A mãe.

A melhor coisa de ter dito adeus à obrigação de amar a minha mãe é que agora eu a entendo como um fenômeno social e não como alguém obrigada a me dar amor. Esse fenômeno social tem a função de me vigiar insistentemente para que eu me encaixe nos estereótipos de gênero aos quais ela mesma luta para se encaixar. Para ela, é difícil. Não me encaixo então ela sente ter fracassado em sua “missão”. “Você é rebelde sem causa”, ela diz. Preciso ser organizada, caprichosa, limpinha: fiscal de limpeza. Preciso ser submissa, boazinha, perdoante, sempre dar a outra face: fiscal de moral. Bonita, depilada, bem-vestida: fiscal de beleza. E tudo isso é o que a sociedade cobra dela mesma antes que ela cobre isso de mim. E ela só cobra isso de mim tão insistentemente porque o medo de ter fracassado como mãe e ser cobrada por isso é devastador. A maternidade é amedrontadora e devastadora. Mas a relação entre mãe e filha pode ser muito proveitosa se vista como um laboratório vivo de onde colheremos dados para revolucionarmos e reescrevermos nossas próprias histórias. A relação entre mãe e filha é uma metáfora pra qualquer relação entre mulheres e esse conhecimento é poderoso. A separação patriarcal entre mães e filhas é uma das maiores ferramentas do patriarcado, é a divisão original, a divisão matrística, a divisão desmatrilinearizante, cujo protagonista é o sujeito do patriarcado: o pai. Não só o pai da filha mas também o pai da mãe que foi senhor dela. Destruir o amor obrigatório é destruir a imposição do pai. O que colocar no lugar desse vazio eu mesma não sei. Mas o amor que nos ensinaram a esperar e que nunca chega é uma doença. O que precisamos é de cuidado, de contato respeitoso, não dessa construção social que é uma invenção moderna para nos mantermos cativas, coadjuvantes da história romântica dos homens.

Como eu não me emociono mais com as fiscalizações da minha mãe (continuo usando a expressão por pura estratégia de comunicação mas não me identifico mais nem com o pronome possessivo e nem com o substantivo), minha autoestima não se abala (às vezes abala mas a minha volta ao centro demora apenas alguns minutos), e eu consigo responder racionalmente às suas provocações. Respostas pelas quais ela não esperava. Como por exemplo: para com essa lesbofobia ridícula, o que você pensa diz sobre você e sobre a sociedade e não sobre mim, é um problema seu, não tenho nada com isso, se vira aí. E ela perde as palavras. É bom, gente. Libertar as mães de vocês da obrigação de amá-las acaba trazendo o benefício surpresa de, de repente, vocês se verem livres do olhar delas sobre vocês. Aí está a cura. Não está nas mãos dos psicólogos, psiquiatras, e nem das feministas. Está na boca das mães que entenderam suas próprias condições e que, por isso, entenderam todas as mães do mundo. Inclusive a de vocês. É isso o que o feminismo perde ridicularizando nossas vozes e nos mandando ao lugar de “mãezinhas”, as burras por terem engravidado, as cativas, as submissas, os exemplos a não serem seguidos. Vocês, feministas que odeiam as mães não admitem a si mesmas que odeiam as próprias mães porque são obrigadas, pelo papel de filha, a amá-las. Por isso vocês nos calam, nos apagam, nos silenciam. E eu até compreendo isso como o fenômeno social que é, assim como compreendo minha mãe como o fenômeno social que é: uma programação mental repetitiva, padronizada, que silencia as respostas mais poderosas para uma libertação coletiva das mulheres. Os homens nos ensinaram a vigiarmos umas as outras, a silenciarmos umas as outras, a punirmos umas as outras com exposições públicas. E a chave da mudança é individual. Só abre pelo lado de dentro. E a fechadura são os nossos ouvidos.

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4 Respostas para “Por que eu não amo minha mãe”

  1. A.

    Eu sempre tive um relacionamento muito dificil com minha mae, mas hoje eu consigo adimira-la e ama-la sem a obrigacao, eu adimiro ela pela sua forca imensa, e por sua determinacao. Minha mae tambem com o tempo aprendeu a me respeitar, mas a duras penas minhas que sofri todo tipo de opressao na minha adolescencia por que eu queria ser livre eu nao queria ser “mulher” como a sociedade queria que eu fosse (submissa, obediente, calma, que nao xinga).
    Minha mae aprendeu comigo tambem, e hoje ela eh uma mulher mais livre. Mas eu tento tratar ela com carinho por que ela tambem foi oprimida, ela tambem foi violada, ela foi espancada ela sofreu tambem.
    Minha mae ja foi uma pessoa homofobica anos atras, hoje ela nao eh mais, ela ja foi mais preconceituosa, mas aprendeu que que ser bom ou ruim nao depende de cor, orientacao sexual, dinheiro, eu tenho orgulho da minha mae porque ela sempre foi feminista, so nao sabia ainda.

    Adoro seu blog, nao te conheco, mas adoro voce, me sinto menos sozinha!

    Espero que um dia sua maeseja mais mente aberta, tente educa-la cm amor as vezes, talvez de certo.
    Isso nao significa ser mole com suas posicoes, seja firme, mas seja bondosa, que se sua mae eh assim a cupa nem eh dela.

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    • Renata

      Me sinto assim em relação a minha mãe também. Sei que muito do que ela fez pra mim foi por causa do patriarcado, da reprodução do machismo e da socialização que recebeu.
      Hoje eu admiro e respeito muito minha mãe. Temos o maior carinho um pela outra.
      Mas a relação não é facil.

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