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Música & Misoginia #1 – CAZUZA

Música e Misoginia é uma série de posts que serão escritos com o objetivo de dar visibilidade e analisar a misoginia no universo da música, que vive sendo protegido pela maioria das pessoas por “ser arte”, afinal “na arte vale tudo” e aprofundar a discussão é “pagar de chata”.

A análise não será feita a partir de um ponto de vista meramente feminista, visto que o heterocentrismo das abordagens feministas limitaria o alcance das interpretações por motivos de Síndrome de Estocolmo. Não à toa muitas mulheres, mesmo declaradamente feministas, cantam emocionadas tais músicas, ignorando o sentido do discurso quando a letra foi escrita, sem problematizar o gosto musical – que não foi criado num vácuo -, perpetuando, assim, a falta de reflexão feminina acerca da produção de arte nacional ou internacional, ignorando tanto o sujeito produtor do discurso – e suas intenções – quanto o contexto social em que este sujeito estava inserido no momento da criação: um contexto em que as produções artísticas eram (como ainda são) dominadas pelo sexo masculino. Sujeito este que se utiliza das mulheres em suas criações, promovendo a continuidade da mulher como o outro, mais precisamente, a outra, um mero objeto sobre o qual ele (o sujeito, o sexo masculino) tem total controle.

Tal situação colabora para a manutenção da exploração da imagem e do corpo das mulheres, principalmente por estar inserida no cotidiano de pessoas de todas as idades e classes sociais, onde a “arte” entra sem pedir licença – e sem que o meio tenha oferecido ferramentas para criticar tais “artes” – por meio de diversas mídias (rádio, TV, internet), auxiliando a normalizar violências muitas vezes inadmissíveis como pedofilia, estupro, racismo, entre outras.

Está mais do que na hora de refletirmos sobre as emoções que as músicas nos causam, traçando um paralelo entre elas e as intenções de seus autores, afinal é por essas mesmas emoções que os nossos relacionamentos são tecidos, e os autores sabem disso e se utilizam do recurso da emoção para manter interessada a audiência, o público. Tais emoções precisam ser racionalizadas a fim de entendermos suas raizes para que, a partir desse novo entendimento, possamos lançar um olhar para dentro a fim de nos conhecermos mais profundamente. E, quiçá, para pararmos de nos deixar levar pela memória afetiva dessas músicas, refletindo sobre como essa permissão acaba perpetuando uma falta de demanda por representatividade feminina na produção artística, especificamente lírica e musical.

CAZUZA – FAZ PARTE DO MEU SHOW

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Te pego na escola
E encho a tua bola
Com todo o meu amor
Te levo pra festa
E testo o teu sexo
Com ar de professor

Percebe-se que a música foi escrita para uma menina – existente ou imaginária – que ainda frequentava a escola. Ou seja, ela deveria ter, no máximo, 17 anos, que é a idade com a qual qualquer adolescente (não-repetente) termina o ensino-médio, antigo colegial. Mas a menina também podia ter 14, 15 ou 16 anos. Não sabemos. Só sabemos que era uma menina. Uma menina ingênua, com baixa autoestima, e que ele, o autor, Cazuza, sabia disso, pois ele “enchia sua bola com todo seu amor”. Ele sabia que ela era uma menina com baixa autoestima e que ela se sentiria bem caso um cara mais velho reconhecesse nela aquilo que os garotos e até mesmo as garotas ao seu redor pareciam ignorar. E que, para manter essa admiração, ela teria dificuldades em negar sexo. Afinal, no imaginário da sociedade patrarcal, tornar-se mulher é algo relacionado à “perda da virgindade”, ao poder mágico de um pênis sobre o corpo feminino, essa é a base por trás da expressão misógina “vou te fazer mulher”. Sabendo que ela era uma menina frágil, sedenta por ser reconhecida como uma pessoa mais madura, ele teria acesso ao seu corpo de menina adolescente sem muitas dificuldades. Ele sabia que ela era uma menina frágil. E ele não teve o menor pudor de escrever uma música sobre o tema. Até mesmo porque a pedofilia é um assunto banalizado, é tão normal que homens sintam desejo por meninas que a fantasia sexual de mulheres vestidas com chiquinhas, saia e meias é corriqueira, mas não deveria ser, pois fetichiza meninas em idade escolar.

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Faço promessas malucas
Tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby
É pra te proteger da solidão

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

Aqui Cazuza revela como os abusadores de meninas agem com elas, aproveitando-se do que já foi incorporado do que é comum que elas desejem para si: o sonho heterossexista do príncipe que as salvariam de sua inferioridade, de sua incapacidade de serem felizes por si mesmas. A partir desse desejo socialmente pré-fabricado, ele se insere na vida da menina, dando continuidade às ilusões a ela oferecidas, enganando-a com promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom, escondendo-lhe a verdade de que para ele esta menina não passa de um objeto e “protegendo-a” da solidão de entender que todos os homens são como ele. Há um princípio da sadismo nessa falsa proteção. Na verdade ele não está protegendo a menina e sim a si mesmo e a outros homens ao mentir sobre suas intenções com ela. Eis a proteção masculina que a sociedade ensina que as meninas precisam. É bom para os homens que elas acreditem que precisam ser protegidas. Isso as mantêm cativas, sentindo necessidade dessa proteção, quando na verdade elas precisam ser protegidas exatamente de quem oferece esse aparente benefício. Faz parte do show sádico e narcisista dos homens esse tipo de comportamento. O sadismo e o narcisismo são aspectos inerentes à masculinidade, faz parte do show de qualquer homem este tipo de atitude.

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Confundo as tuas coxas
Com as de outras moças
Te mostro toda a dor
Te faço um filho
Te dou outra vida
Pra te mostrar quem sou

Aqui o sadismo toma proporções maiores. O disfarce do início relacionamento – como em qualquer relacionamento abusivo – já não é necessário, pois a garota já está cativa pela emoção. Ele faz questão de dizer-lhe a verdade nesse momento: ela é apenas um par de coxas que ele sequer reconhece, confundindo-as com as de outras moças. Assim, ele mostra a ela toda a dor de ter sido enganada. Este é o poder que ele tem, o de causar dor a mulher de quem ele conquistou o amor. E vai até as últimas consequências, engravidando-a, para mostrar a ela que o seu lugar social é o de mãe da filha ou filho dele, a outra vida que ele foi capaz de lhe dar só para mostrar quem ele é: um homem, com o poder de engravidar uma mulher e destruir sua vida enquanto ela mesma chama a isso de amor.

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Vago na lua deserta
Das pedras do Arpoador
Digo “alô” ao inimigo
Encontro um abrigo
No peito do meu traidor

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

E enquanto a menina está grávida e presa ao seu papel – um papel que ele a forçou a representar desde o início do relacionamento, o de mulher frágil, enganada, cativa – ele passeia livremente à sob a lua, sobre as pedras do arpoador, encontrando desafetos e terminando a noite nos braços de outro homem, provando que a masculinidade não é afetada pela homossexualidade, muito pelo contrário: a homossexualidade pode tornar a masculinidade ainda mais cruel. Faz parte do show dos homens engravidar mulheres para abandoná-las presas ao lar enquanto eles se divertem à noite, levando a mesma vida de sempre.

Invento desculpas
Provoco uma briga
Digo que não estou

Vivo num clip sem nexo
Um pierrô-retrocesso
Meio bossa nova e rock ‘n’ roll
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

Provavelmente procurado pela menina que vai ter um filho seu, ele inventa desculpas, provoca brigas e diz que não está. Porque a vida dessa menina não importa, a vida de uma criança que chegará ao mundo não importa. Ele teve o que quis. Usou uma garota que nada sabia do mundo, abusou de sua ingenuidade e de sua sede de amor para sentir o prazer de ter o controle sobre sua vida, para usá-la e descartá-la quando ela não fosse mais interessante – mulheres grávidas não são interessantes para os homens -, para gozar o quanto pudesse e depois abandonar a ela e ao filho à própria sorte. E depois se faz de vítima, dizendo que a sua vida não tem sentido – clipe sem nexo – e que é repleta de conflitos, como se isso fosse um tipo de redenção, como se esse sofrimento vindo de não ver sentido na vida, como se seus conflitos internos – meio bossa nova e rock’n’roll – justificassem o fato se ele ter colocado seu prazer acima da dignidade de uma menina em idade escolar que foi por ele engravidada. Faz parte do meu show, me aceite assim, eu não vou mudar. Meu amooor. Meu amoooooor. Meu amor.

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8 Respostas para “Música & Misoginia #1 – CAZUZA”

  1. fireignition

    Natacha, eu adoro seus textos. Por favor, mais música & misoginia!
    Sabe, de vez em quando eu fico pensando… talvez não sejam todos assim, talvez eu só tenha tido má sorte, não é possível que metade da população mundial (!!) seja mesmo tão mesquinha e desprovida de empatia pela outra metade só por causa dos genitais. Sabe?
    Mas aí eu me lembro… das outras meninas… que têm histórias tão parecidas… e eu juro que não entendo. Pq isso acontece?

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    • IGN

      Enquanto não houver punição para o homem machista,enquanto tantas mulheres ficarem protegendo macho babaca e sensurando as que se revoltam,vamos estar na merda.

      Não é difícil a solução,basta parara com essa babbaquice de “educar e entender os pobres machinhos” ( e jogar a feminilidade no lixo,muito importante também) pregado pela merda do feminismo sex-poser que a gente progride.

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    • milfwtf

      Ai, quero fazer mais posts pra isso finalmente virar série sim! Mas a questão sobre os genitais… não são exatamente eles o problema, tá mais pra sistema reprodutivo. Eles nos inferiorizam para que possam ser imortais às nossas custas, às custas da escravização doméstica das mulheres. Nos condenar à maternidade cujas funções carregaremos sozinhas é escravização. “Te faço um filho, te dou outra vida pra te provar quem sou”.

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      • IGN

        sei lá,enfim…ele teve o que mereceu,pelo menos.E até onde sei estupradores e pedófios são mortos nas prisões…e eu estou por fora desse mundo artístico,como assim,musico é muito misógino? o_o?? Tirando os casos mais explícitos (aquela merda de funk),onde tem mais misoginia? não pergunto de zoação,é que não presto atenção em músicas,só tenho aqui coisas celtas,instrumentais,etc ._.

        Fugindo do assunto,eu estive dando uma olhada geral no seu blog,e apesar de eu estar ainda sem condiçôes de qualquer ativismo devido eu estar ainda muito puta com sex-posers e afins,eu estava imaginando auqi um lance…eu vi que as fulaninhas pro-sistema tem cartazes,panfletos,etc esão muito divulgados,e eu tenho visto que o feminismo radical não faz isso( e me apedrejam quando sugiro…ai,ai…é trashing por todos os lados..)

        tem muita gente por aí que odia Facebook e tem piotencial para ajudar e tal,precisando de alguma inspiração…começar a colocar nas cabeças das mulheres que agente tem poder sim,que a gente pode sim,isso é muito tirado de nós até na fase adulta.

        Você em São Paulo tem mais chances do que eu aqui nesse Estado maldito machista do RJ,intupido de mulheres omissas que adoram ser bundas para servir macho.

        🙂

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      • milfwtf

        Estupradores e pedófilos são mortos na prisão. Bom, mas a gente sabe quem é que vai preso, né? Homem branco que não. Não desejo estupro e morte pra quem vai pra cadeia, sabe? Eu desejo apenas que os estupradores e pedófilos sejam presos, não que sejam estuprados ou mortos na cadeia. Só quero presos. O que já seria suficiente. Mas não teria cadeia pra tanto estuprador. Sério…

        As fulaninhas pró-sistema têm capital, por isso que elas são pró-sistema. E a partir desse capital elas têm uma força maior de divulgação. Feministas radicais têm feito um trabalho nesse sentido sim, especialmente as lésbicas. Mas eu não posso falar pelo feminismo radical ou por nenhum outro porque não sou feminista. No RJ tem grandes frentes de mulheres. Tem a Dani que fala de feminismo numa rádio, tem a Eloisa que é advogada e ativista de direitos humanos, tem lésbicas unidas. Achei ofensivo essa coisa de mulher servir de bunda pra macho…

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  2. IGN

    é ofensivo mas é verdade,Como já falei,de mulher machista já estou farta e não temos um ativcismo aqui no RJ que seja visível.Para vc ter idéia,funk e suas aberrações teve origem aqui no Rio.Além do mais,nem preciso falar do nosso carvaval,conhecido internacionalmente e que alimenta o turismo sexual na cidade.Então,se nós nos posicionamos desse forma,fica difícil reclamarmos…

    e não entendi esse lance de desejar estupro…eu só falei o que meu professor de pedagogia dise,quando foi psicólogo de cadeia…o.o

    mas enfim,de qualquer sorte,já como nunca tive empatia de feminista e detesto a hipocrisia vulgar do feminismo e das mulheres de uma forma geral ( tenho o direito de ser bunda mas se macho me tratar como tal é ofensivo e machista),fora o analfabetismo funcinal de muitas,.

    Valeu por me lembrar que minha grana não vale isso…:) boa sorte.

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