Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Sobre criação e colaboratividade entre mulheres

Até quando a síndrome da concorrência feminina vai impedir mulheres de se reunir para criar ou simplesmente para apoiarem umas às outras?

Dois anos atrás eu tava apostando cegamente numa “economia colaborativa”, associando a colaboratividade a um aspecto feminino. Mas eu acreditei em uma ilusão de ótica, eu percebia tudo de forma distorcida, eu via as coisas como eu queria ver e não como elas eram de fato. A colaboratividade estava em mim, não era um aspecto feminino, era uma característica minha que atrubuí a um gênero. Atribuí de forma equivocada. Porque agora, depois de já ter tido inúmeras iniciativas de realizar projetos colaborativos de forma horizontal entre mulheres, e tendo todos eles sido ignorados ou aplaudidos num primeiro momento para serem abandonados logo depois, eu entendo que o problema não está em mim, sinceramente. E não é só comigo. Tenho amigas que estão na mesma situação. Que têm muitas ideias incríveis. Amigas que são marginalizadas e isoladas em vez de apoiadas. Mulheres criativamente empoderadas estão sendo empurradas para o silenciamento de suas ideias. E isso é grave, porque é o contrário do que se espera, já que estou falando sobre um ambiente prioritariamente feminista. É sintomático que só mulheres que já têm recursos financeiros ou reputação social sejam apoiadas em seus projetos.

Antes que interpretem este post como uma lamentação pessoal, quero que entendam que isso não é sobre mim. É sobre algo sistemático, que diz respeito a qualquer mulher com muitas ideias e poucos recursos que queira entender a própria situação. Eu sou apenas um dos exemplos, já que o pessoal é político. Isso é sobre como não confiamos na capacidade de outras mulheres por desconfiarmos nas nossas próprias capacidades. É sobre como capitalizamos as mulheres, fazendo parcerias com quem está economicamente protegida. Mas a maioria de nós NÃO ESTÁ ECONOMICAMENTE PROTEGIDA. Não seria estratégico que nós, economicamente desprotegidas, nos uníssemos para nos fortalecermos? O que cada uma pensa individualmente? Que se a outra tá sozinha é porque o trabalho dela é ruim? Mas por que você mesma está sozinha? Você se acha ruim? Ou que a outra é tão boa que se vocês duas se unirem ela vai ter mais destaque do que você e vai se fortalecer às suas custas? A sua autoestima é tão baixa que você não enxerga o quanto você cresceria também, e se fortaleceria com a parceria? Eu não sei, estou chutando. Estou chutando que o problema seja mesmo a concorrência. Tateando as respostas para as lacunas que tenho encontrado nesse caminho que eu quero trilhar, um caminho de construção feminina. Em diversas esferas da vida. Eu estou sempre esbarrando no mesmo limite: a insegurança das mulheres em si mesmas que as faz enxergar as outras como uma ameaça.

Uns dias atrás eu escrevi: não confiem. Ouçam seus corpos, o que eles dizem para vocês. E é verdade, a maioria das pessoas não são confiáveis, inclusive mulheres. Não é mesmo pra confiar com base no desespero de ser ouvida. Mas a gente não pode parar aí na desconfiança e pronto, porque essa é a estaca zero e a estaca zero não é revolucionária, a estaca zero é o status quo. É preciso quebrar os muros da desconfiança entre mulheres e trazer para a representatividade as relações femininas que fogem às regras do patriarcado. Não, não é de mais amor que a gente precisa. Na verdade precisamos romantizar menos, porque o romance é o pai da decepção. Precisamos superar o romantismo porque ele cega a gente, como me cegou quando eu achava que a colaboratividade era intrinsecamente feminina, ou que a sororidade existe. Nem mesmo a nossa própria luta está sendo pensada de forma colaborativa entre nós. Qualquer mulher invista na produção de conhecimento independente – fora da academia – experimenta o castigo por ousar exercer sua autonomia criativa para pensar sua condição social. Isso não limita só as mulheres individualmente. Não é desempoderador apenas no campo individual. É limitante do ponto de vista coletivo, porque se aquelas que estão dispostas a quebrar paradigmas estão sendo barradas, na mão de quem está a possibilidade de revolução?

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2 Respostas para “Sobre criação e colaboratividade entre mulheres”

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