Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Gênero na infância

Parte I – Introdução à feminilidade

Muito se fala em grupos feministas de maternidade sobre como oferecer uma educação infantil livre de estereótipos de gênero às crianças. “Meninas podem usar azul e meninos podem usar rosa” e “não existe brinquedo de menino e de menina” são frases que expressam praticamente tudo o que é dito dentro desses grupos. Não que esteja errado, está certo sim. Óbvio. Mas já está mais do que na hora de pararmos de repetir o que estamos cansadas de saber para aprofundarmos um pouco mais essa discussão, o que é necessário tanto para a conscientização das adultas e adultos a respeito do que é gênero e sua finalidade social quanto para que, a partir dessa consciência profunda, as escolhas em relação à educação das crianças sejam, digamos, mais razoáveis.

Para iniciar a conversa, eu gostaria de perguntar a todas vocês se as cores das roupas importam tanto assim para a construção da personalidade de uma criança. Não, não importam. O que importa é o formato das roupas e se as crianças estão se sentindo a vontade com elas. Para este caso, tenho uma conversa com uma garotinha de cinco anos como exemplo. Veja a seguir:

– Bel*, você vai à pracinha, por que não coloca uma bermuda em vez dessa saia apertada?

– Essa saia apertada não me deixa correr direito, mas eu já aprendi a sentar com ela, é assim! (toda delicada, ajoelhou no chão e depois colocou as pernas de lado, um joelho em cima do outro, toda essa manobra para… esconder a calcinha!)

– Então, menina! Deixa de ser boba, vai colocar uma roupa que te deixe brincar!

– Mas se eu colocar uma roupa normal eu vou parecer uma menina normal e eu não sou uma menina normal!

Esta conversa está impressa no fundo do meu cérebro. Muito mais importante do que discutir se meninas podem usar azul e meninos podem usar rosa é discutir como as roupas femininas limitam as meninas e o que pode ser feito em relação a isso. Porque é sobre a limitação do corpo feminino que nós precisamos falar. É sobre o fato de meninas de cinco anos já se preocuparem em não mostrar a calcinha que precisamos falar. Precisamos falar, sobretudo, sobre o que a feminilidade representa, para que ela serve, e o quanto ela distorce e lapida a humanidade das meninas para que estas se tornem aquilo que o patriarcado espera delas. A saia da Bel também era curta além de apertada. Ela era uma saia jeans. Ela foi convencida – por quem ? – de que ela tinha de ser diferente das outras meninas, provavelmente ela, aos cinco anos de idade, já sente a necessidade de ser melhor do que as coleguinhas. É preciso deixar de lado essa ideia de que “impedir meninas de vestirem saias apetadas e curtas” é moralista. Porque essa conversa não tem a intenção de limitar as meninas e sim de libertá-las de terem seus movimentos prejudicados em nome de serem as mais bonitas dos ambientes em que vão circular. Este é outro aspecto da feminilidade: a competição, a concorrência feminina, que nada tem de natural e sim de socialmente aprendida. É muito cruel a pressão para que as meninas sejam belas, as mais belas, parecidas com as princesas dos desenhos infantis. Primeiro porque o padrão de beleza é eurocentrado, o que já exclui a maioria das meninas do país da possibilidade de atingirem esse padrão. Segundo porque a beleza serve para quê? Sinceramente, para que serve a beleza? Não consigo pensar em nada útil. Só consigo pensar em: lucros. Consumo. Só consigo pensar na insegurança provocada em cada menina por causa desse padrão irreal a ser atingido e no quanto elas crescem se sentindo imperfeitas, sentindo que precisam ser corrigidas, terreno fértil para a necessidade de maquiagens, de produtos de beleza em geral, químicas alisantes, porque elas são as princesas do papai que um dia serão as princesas de seus príncipes encantados. Mas se não forem suficientemente bonitas, sem chance para o beijo de amor do príncipe.

Afinal, o que é “ser feminina” ?

É um problema estrutural: a maioria das meninas já sofrem perfurações nas orelhas na maternidade mesmo. Não há nenhum outro motivo para que suas orelhas sejam furadas além do fato de terem nascido com o sistema reprodutor feminino. A demarcação é bastante nítida: brincos nas orelhas para que ninguém confunda o sexo. As roupas rosas e azul também servem para isso. Elas são baseadas no sexo dos bebês. É a partir do sexo que o gênero é construído, e as obrigatoriedades limitantes estão reservadas aos bebês e crianças do sexo feminino. Os brincos, as roupas que prendem os movimentos impedindo a liberdade necessária para o pleno desenvolvimento motor, o ”bom comportamento” para não mostrar a calcinha, a delicadeza, a beleza de princesa, a fragilização emocional a partir da não correspondência às altas exigências sociais, a necessidade do consumo de artigos de beleza para suprir a insegurança, tudo isso faz parte do processo de feminilização do corpo que nasceu com o sistema reprodutor feminino. Portanto, a feminilidade não é inerente às meninas. Ela é um conjunto de comportamentos que empurram as que nasceram com vagina para uma posição inferior, fisicamente menos capaz, quando o potencial físico de meninos e meninas é comprovadamente idêntico sem o aparato social da feminilização. A feminilidade existe para se submeter à masculinidade. Ela é a base material da exploração sexual e laboral das mulheres. Sem a socialização para a feminilidade, o patriarcado não se sustentaria. Porque é a feminilidade que torna as mulheres competidoras. O que foi aprendido quando elas ainda eram pequenas, que elas precisavam ser mais bonitas que suas amigas, acaba se estendendo para outras esferas: elas precisam ser mais inteligentes, elas precisam ser mais bem-sucedidas, elas precisam ter a letra mais redondinha, elas precisam ser as melhores, sempre, em tudo, elas precisam ser invejadas, elas desejam ser invejadas, elas querem que as demais entendam que ela é um perigo, uma ameaça. Uma ameaça à beleza das demais, à inteligência das demais, à vida das demais. Tudo isso para quê? Simples: para que meninas se tornem mulheres que não confiam em outras mulheres. Dividir para dominar é uma antiga tática de guerra e de conquista. Não, esse processo não aconteceu naturalmente. Ele foi maquinado. Ele foi pensado. E ele é eficaz. Assim como foi maquinado, pensado e são eficazes as mentiras que nos contam sobre a incapacidade de nossos corpos parirem. Quem inventou as mentiras? Parirás com dor! Religião, a legislação do patriarcado. E quem se beneficia com a legislação do patriarcado?

A resposta é com vocês.

* Nome alterado para preservar a identidade dela e dos pais.

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