Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Transfóbica não, lésbica

Você não precisa saber que uma mulher é lésbica para ser lesbofóbica com ela. Porque a lesbofobia não é um ódio em relação a uma determinada pessoa (embora a lesbofobia possa ser personoficada e geralmente é), mas a uma forma de se viver. A forma lésbica de se viver, ué, que não se resume apenas a gostar só de pepecas (mas é uma regra gostar só de pepecas porque é isso o que torna uma mulher lésbica, por definição). A cultura lésbica importa, não é só a genitália, é toda uma forma de pensar e de estar no mundo. Por exemplo, faz parte da cultura lésbica não se relacionar com portadores de pênis e não produzir pensamento em conjunto com eles. É instrínseco à lesbianidade a exclusão dos porta-rola. Mulheres que se relacionam com ambas genitálias são bissexuais. Muitas mulheres com quem tentei conversar dizendo que elas estavam sendo lesbofóbicas me disseram “que nem sabiam que eu era lésbica, como poderiam estar sendo lesbofóbicas comigo” ? Ou seja. Elas foram 3x lesbofóbicas e eu vou ser legal e explicar o motivo.

1) Elas estavam sendo lesbofóbicas porque elas colaboram com a demonização da literatura lésbica feminista que exclui quem tem pênis da nossa produção de pensamento chamando a essa exclusão de transfobia. Demonizar a cultura lésbica, espalhar que somos perigosas ou preconceituosas por não aceitarmos pênis em nossos corpos e o que eles representam para o patriarcado nas nossas mentes é uma boa metáfora para o estupro corretivo que só as lésbicas correm o risco de sofrer para terem suas sexualidades corrigidas.

2) Foram lesbofóbicas comigo quando disseram que nem sabiam que eu era lésbica, logo, elas não podiam estar sendo lesbofóbicas comigo porque só se é lesbofóbica com alguém quando se sabe que esse alguém é lésbica. Oras, elas foram lesbofóbicas por acharem que eu deveria satisfação a cada uma delas a respeito da minha sexualidade. Bizarro. Quer dizer… você não era lésbica, só tô sabendo agora, você deveria ter me contado antes e assim eu não seria lesbofóbica com você! Gente? Não é mais justo parar de ser lesbofóbica em vez que parar de ser lesbofóbica comigo? Eu, hein.

3) Foram lesbofóbicas por se negarem a aceitar que uma lésbica as estava acusando de lesbofobia. É básico. Se tem lésbica apontando lesbofobia, caso você não queira ser lesbofóbica, então escute, engula o orgulho e se desculpe. Aliás, nem precisa se desculpar. Apenas assuma o compromisso de não reproduzir mais lesbofobia que fica tudo certo.

 

Isso, obviamente, sem contar que por causa do item 1 eu fui taxada de preconceituosa (transfóbica) por todo um grupo feminista que eu mesma juntei com o meu próprio esforço depois de toda a trajetória sobre apagamento de discurso materno dentro do feminismo. Antes de elas estarem todas juntas falando sobre feminismo, eu estava nos grupos de feminismo mainstream tentando falar sobre maternidade e sendo escrachada. Eu colhi cada uma das mulheres que compuseram o grupo que criei. A dedo. Eu as colhi de grupos sobre maternidade, de grupos sobre educação, de grupos sobre disciplina positiva, de grupos sobre gestação e parto, de grupos sobre desescolarização. Eu possibilitei o encontro entre todas. E eu fiz isso por entender que as mulheres mães precisavam se encontrar para enfrentarem juntas o feminismo que as excluía. Para, logo depois, quando comecei a entender a minha lesbianidade – para além da minha genitália e no quanto ser lésbica para mim era e é um ato político de exclusão total de homens (exceto o meu filho que nem homem é ainda), coincidentemente, passar a ser isolada e percebida como louca, doente, alguém que deveria se tratar. Eu juntei as mães feministas e fui excluída por elas por causa de lesbofobia. Veja bem, não é uma questão de “o grupo era meu”, mas sim uma questão de que todos os meus esforços e objetivos foram anulados quando aniquilaram quem eu realmente sou e colocaram uma mulher preconceituosa no lugar. Eu fiz um esforço para reunir todas ali. Eu chorei muito antes de criar o grupo por entender que maternidade e mães não importavam para o feminismo. Eu suei. Me dediquei. Expus a minha vida, abri as minhas feridas para criar uma onda em que as mulheres começassem a quebrar o silêncio sobre maternidade. E deu certo.

Deu certo até eu começar a me entender como lésbica. Deu certo até eu querer não mais me relacionar com homens. Até eu querer não mais educar os opressores barbados. Deu certo até eu não querer mais ser inclusiva com machos. Deu certo até eu dizer publicamente que eu me alinhava ao feminismo radical, um feminismo cuja base teórica é construída a partir de pensamentos produzidos por lésbicas. Depois disso, só ataques. “Como você pode não querer educar homens se o seu filho é um?”, seu pensamento é discurso de ódio, ataque gratuito aos homens! Depois disso um outro grupo foi criado e, mesmo eu pedindo pra entrar, não me aceitaram lá, porque lá não se aceita discurso de ódio. E o grupo que eu criei, que eu suei pra criar, com mulheres que eu admirava de diversos espaços maternos, foi esvaziado. Todas as discussões agora aconteciam no outro grupo do qual eu não participava. E não é porque eu reproduzo discursos de ódio, não, porque eu estou bem longe de fazer isso – a não ser pra me defender, e oras, reação da oprimida não pode, por acaso? Vão ficar regulando? Foi por quem eu sou e tudo o que eu penso a partir da minha existência.

Elas me acusaram de ter saído do grupo – que já não funcionava mais havia já um ano pelo esvaziamento provocado pela lesbofobia que virou acusação de transfobia para inverter o quadro – e ter deixado todos os relatos íntimos das mulheres lá, me acusaram de eu não me importar com elas, me acusaram de eu não ter nenhuma consideração por elas. Bem, eu até hoje não consigo me lembrar de ter saído do grupo, mas isso pode ter acontecido sim. E se aconteceu, não foi num vácuo. Não foi à toa que eu saí do grupo, se eu saí. Foi porque eu não pertencia mais a ele, mesmo ele tendo sido criado por mim. E se eu saí, foi num momento de raiva, de tanta raiva que saí e nem me lembro mais disso. E o grupo estava parado. E eu não quis prejudicar ninguém com a minha saída, se é que eu saí mesmo, repito. Porque eu não me lembro. Mas vamos partir da hipótese de que eu saí porque eu não tenho a intenção de colocar a “culpa” da minha não-lembrança, dos meus esquecimentos, no meu déficit de atenção, já que ele nunca foi levado a sério por ninguém mesmo. Então vamos partir do pressuposto que eu saí. Provavelmente foi num impulso, depois de toda essa carga de lesbofobia que foi manifestada com o meu isolamento político e social de um grupo que eu mesma havia criado. Provavelmente eu saí sim. Mas todas as mulheres que disseram que eu não me importava com elas estava onde quando eu estava sendo perseguida e isolada por ser lésbica? Onde elas estavam quando a mulher que criou o outro grupo e me isolou começou a implantar nas demais a ideia de que eu era preconceituosa? Quem se importou comigo? Quem me defendeu?

Ninguém.

Então estamos quites.

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3 Respostas para “Transfóbica não, lésbica”

  1. Ana

    Notei uma contradição no texto. Uma pessoa que é acusada de lesbofóbica por uma lésbica precisa sempre admitir a lesbofobia, mas por que o mesmo não vale quando uma pessoa cis faz o mesmo com uma trans??

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    • milfwtf

      Não existe contradição, já que eu não me reconheço como “cis”. O que é “ser cis”? “Me identificar” com o gênero do meu sexo? Mas eu nunca me identifiquei com esse gênero. Pelo contrário, fui obrigada a ele, fui obrigada a feminilidade. Todas as vezes em que eu saio com as minhas pernas peludas na rua, olhares de nojo são lançados a minha pessoa, comentários são feitos. Eu não “me identifico” com o gênero que me impuseram, não “me identifico” com o “ser mulher”, não me sinto mulher. Vamos partir daí. Eu não “sou cis”. Se você se percebe dessa maneira, “cis”, “privilegiada pelo seu sistema reprodutor”, eu me percebo o contrário disso, até mesmo porque sou mãe e isso dependeu do meu sistema reprodutor, se não fosse o meu sistema reprodutor eu não estaria nesse momento sendo a única responsável pelos cuidados com um bebê e tendo que enfrentar argumentos como “deu o golpe na barriga” por parte do genitor NA JUSTIÇA. Baita privilégio, né?

      Isso dito, todas as vezes em que eu fui chamada de transfóbica, não foi por ter feito discurso de ódio contra trans, e nem por ter desrespeitado identidade de gênero de ninguém. Aliás, nunca fiz isso. Sempre que chamei transativista de piroco foi sabendo que a pessoa não era trans coisa nenhuma, era só um homem se passando por trans na internet pra ter voz no movimento. E aí eu não tenho respeito mesmo, e atualmente até as pessoas trans estão se posicionando contra esse tipo de oportunista. Pelo menos isso… porque até pouco tempo era negado que existia homem se apropriando da luta trans pra ganhar ganhar empatia de feminista por aí.

      Transfóbica tem sido um coringa para silenciar mulheres materiais na Internet. Eu sei disso e muitas outras mulheres sabem, eu militava ao lado de trans e deixei de militar por esses tipos de problema. Bem, se você passear pelo blog poderá ver nos meus textos antigos, de quando eu era interseccional, que eu fazia questão de incluir pessoas trans na minha luta. Houve um rompimento da minha parte porque eu comecei a tomar conhecimento de que a disposição em militar junto não era uma via de mão dupla, já que pras pessoas trans, a maternidade é um privilégio, e isso apagava toda a minha trajetória com a maternidade, e não só a minha, afinal existem mulheres que morrem por causa da maternidade em abortos clandestinos, e existem meninas que são engravidadas por pedófilos, e mães vítimas de violência doméstica (eu fui). Uau, baita privilégio! Como é que se explica tantas pessoas trans dizendo que ser mãe é privilégio e nem querendo ouvir, debater, respeitar lugar de fala de mulheres mães? Porque foi o que aconteceu comigo. Eu tentei diálogo quando comecei a ver esse discurso, mas fui ridicularizada. E aí rompi. Mas o que as pessoas que pegam o bonde andando e querem sentar na janelinha acham que, sei lá, de repente eu liguei uma chavinha de ódio dentro de mim, do nada, e passei a odiar trans, sendo que até pouco tempo atrás eu lutava por essas pessoas também. Muito sem noção. Se a sua intenção é defender trans a torto e direito sem nem querer se informar direito sobre, sinto lhe informar, mas não é às minhas custas que você fará isso. Porque eu tô vacinada. Muito bem vacinada. E sinto muito pela sua ingenuidade, porque muitas mulheres se ferraram dessa forma, defendendo ativista queer com unhas e dentes pra depois ser rachada por falar de buceta, menstruação, siririca, parto, maternidade, ou seja… coisas especificas de quem nasceu com vagina. Sinto muito por você não perceber a colonização que tá rolando. Mas eu percebo e por isso mesmo não vai ficar, porque eu tenho boca, não tenho medo e denuncio mesmo.

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