Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Lesbianismo político não é cura hétera

Lesbianismo político não é uma corrente lésbica que defende que todas as mulheres estão sob o regime do heteropatriarcado e que a única saída é que elas se tornem lésbicas. Se você acreditava nisso, foi convencida por argumentos lesbofóbicos. Simples assim. Ainda que você seja lésbica, se você repete a afirmação de que o lesbianismo político é política identitária, se você acredita que as lésbicas por trás do lesbianismo político acreditam em “cura hétera”, está muito óbvio para mim que argumentos lesbofóbicos estão por trás do que você formulou até agora como a “sua” opinião. Então… o que é lesbianismo político senão propaganda da sexualidade lésbica para converter héteras? Você deve estar pensando. Vamos lá. Vamos descontruir urgentemente este preconceito. Lesbianismo político é quando lésbicas compreendem a própria sexualidade a partir de uma perspectiva política. Assim como feminismo é quando mulheres entendem o gênero a partir de uma perspectiva política. É um conceito bastante simples de se entender. Bastante mesmo. Sendo assim, sendo o lesbianismo político uma maneira das lésbicas refletirem sobre suas existências, não há uma só maneira de pensar, mas sim tantas maneiras de pensar quanto existem lésbicas que refletem a própria condição no mundo. Ponto.

Algumas lésbicas – e isso está longe de representar a maioria no movimento – a partir das próprias vivências, acreditam que para que as mulheres se libertem, seria bom que todas se tornassem sapatas. É um argumento bastante lógico: visto que a sexualidade não é (somente) inata e sim socialmente construída por meio da heterossexualidade compulsória (imposta às mulheres por meio do padrão de intercurso sexual reprodutivo [PIV – pênis + vagina], monogamia, casamento e maternidade), então um despertar político interno à classe* seguido de uma guinada de foco da servidão feminina aos homens para que essa energia seja usada em favor da libertação das mulheres me parece uma boa viagem reflexão. Essas mulheres experimentaram por si mesmas a transformação de seus afetos e desejos sexuais e partem de suas vivências e de vivências de mulheres próximas para formular seus pensamentos. Elas não estão completamente erradas. Suas reflexões podem não representar a realidade, mas ainda assim, foram lésbicas produzindo conhecimento e registrando suas existências, o que, por si só, dado que as mulheres são impedidas desde sempre a publicar livros e registrar suas contribuições para o pensamento humano, já vale a leitura. Ninguém precisa concordar com o pensamento que elas formularam. Mas daí a descartá-lo completamente, como quem queima um livro afirmando que sua leitura é imprópria, há um abismo.

O que pode ser extraído de bom dessa linha de pensamento do lesbianismo político? Pensemos no heteropatriarcado como um regime político imposto às mulheres. Pensemos em quantas mulheres potencialmente lésbicas não tiveram seu eu aniquilados desde a infância para que não se tornassem o oposto daquilo que elas deveriam ser. Pensemos em quantas mulheres se dizem bissexuais quando, na verdade, todo mundo acha que elas são héteras – especialmente a família – mas “pegam mulheres em baladas ou longe dos olhos da sociedade”. Veja bem, não estou dizendo que a bissexualidade não existe, estou dizendo que há por aí muitas mulheres potencialmente lésbicas a quem restou a bissexualidade como única forma de resistência. Isso por causa da heterossexualidade compulsória, por causa da cobrança social da performance hétera (namoro, noivado, casamento, maternidade). Pensemos no quanto essas mulheres odeiam fazer sexo com homens e ainda nem se deram conta dessa realidade. Pensemos no quanto essas mulheres foram obrigadas a transar com homens. Estupradas a vida inteira. Pensemos em quantas engravidaram por causa do padrão de intercurso sexual reprodutivo, penetrativo, quando todas nós sabemos que é muito raro a penetração por si só satisfazer uma mulher. E depois de tantos pensamentos, quem de nós ainda achará justo dizer que o lesbianismo político que apresenta a lesbianidade como alternativa está incorreto? Se muitas mulheres são lésbicas interrompidas, então a propaganda do processo de se tornar lésbica é urgente, sim. É urgente que mulheres que se tornaram lésbicas, tenham elas tido um passado de atração sexual por mulheres ou jamais, sejam ouvidas e legitimadas. Marginalizar mulheres que se tornaram lésbicas depois de refletirem politicamente suas condições é benéfico a quem?

Pessoalmente, eu fui uma menina sexualmente abusada e negligenciada após ter contado sobre os abusos aos meus pais. Por outro lado, as minhas descobertas pessoais acerca da minha própria sexualidade me renderam humilhações, gritos, repreensões. Ter sido abusada não era importante, o perigo de ser lésbica sim. Meu primeiro beijo e minha primeira relação sexual foram com uma amiga. Meu diário foi lido e eu fui descoberta. O que desencadeou uma avalanche de torturas. Tive de desfazer amizades femininas. Era constantemente vigiada. E sempre avisada de que outra amiga minha era sapatão e que era pra eu tomar cuidado. Levei porrada por estar conversando no telefone com ela, inclusive. Uma surra que deixou meu olho roxo. A surra que desencadeou a separação dos meus pais. Sendo que ela apenas não era feminina o suficiente para interpretar o papel de mulher que nos é imposto o tempo todo. Deusa, nós sequer nunca conversamos sobre sexualidade, pelo contrário, ela tinha um namorado, eu também, e vivíamos falando sobre eles. Eu me adequei. Eu me adequei para sobreviver, pois eu não tinha forças e nem subsídio psíquico e político para entender a minha sexualidade. Eu era abertamente heterossexual e intimamente bissexual quando na verdade eu era mesmo lésbica, uma lésbica vivendo sob o regime da heterossexualidade compulsória. E foi o lesbianismo político que estourou a minha mente e me ajudou a problematizar toda a minha história sexual e afetiva. Foi o lesbianismo político que me ajudou a sair da matrix do heteropatriarcado. E eu conheço outras mulheres que poderiam contar histórias muito parecidas com a minha. Mulheres que não tiveram o privilégio de serem elas mesmas desde quando se entenderam por gente. Mulheres que mudaram completamente de vida depois de terem conhecido o lesbianismo político.

O que eu vejo como um problema, e isso não é um problema sustentado por lésbicas e sim por héteras e bissexuais, é o discurso do lesbianismo como cura para o que quer que seja. Por que héteras e bissexuais não respeitam o lugar de fala das lésbicas, por que elas se sentem no direito de dizer que vão virar lésbicas sem a menor intenção de sê-las? Que “status” é esse que a lesbianidade parece dar a elas que nós mesmas, enquanto lésbicas, não vivenciamos de modo algum? Tudo o que vivenciamos é lesbofobia! E por que héteras e bissexuais, sem nunca terem lido a sério nenhuma autora lésbica, se acham no direito de opinar sobre lesbianismo político, tomando nosso protagonismo, colocando lésbicas umas contra as outras, reproduzindo o que aprenderam com a lesbofobia de outras mulheres, uma lesbofobia que visa, nada mais, nada menos, marginalizar o pensamento lésbico do alcance das mulheres feministas como um todo? Elas dizem que lésbicas políticas querem sair por aí transformando todas as mulheres em lésbicas, com que embasamento elas dizem um disparate desses? E por que elas estão sendo tão ouvidas? Por que ninguém dá bola para mulheres apontando lesbofobia? Essa apropriação discursiva por parte das héteras e bissexuais é, sim, lesbofóbica, objetificadora, fetichizante. E nada mais é do que gaslighting afirmar que as lésbicas é que são culpadas por fazer todo mundo achar que lesbianismo político é cura hétera. Ser contra o lesbianismo político é lesbofobia.

Não reproduza. Repdoruziu? Desculpe-se.

 

Enfrente.

Resista.

Não faça coro com as colaboracionistas.

 

*As teorias feministas radicais percebem as mulheres como uma classe, a classe de trabalhadora sexual. Atualmente, tenho me desvinculado da ideia de classe por, sendo mãe solteira, lésbica e periférica, perceber que as teorias radicias feministas eurocentradas e o ativismo a partir dessas teorias não me representam. A teoria feminista radical ainda é a minha preferida – afinal sua base é lésbica e me representa parcialmente por isso – mas atualmente tenho investido em desconstruir como mãe, lésbica, periférica e especialmente latina o eurocentrismo feminista. O ativismo feminista eurocentrado não me percebe como pertencente à classe todas as vezes que anula a minha percepão de mundo. Logo, excluída da classe pelas “companheiras de luta”, parto da exclusão para reivindicar o meu lugar, da mesma maneira que me afirmo mulher para reivindicar a minha existência.

Anúncios

8 Respostas para “Lesbianismo político não é cura hétera”

  1. Luiza

    Ai, quanto pós modernismo x_x
    isso é igualzinho ao mimimi queer. ceis são tudo chato.

    feminismo tru: revolução comunista e cortar pica de macho.

    Curtir

    Responder
    • milfwtf

      Sou chata, feia, boba e tenho cara de mamão. E você que não sabe o que significa pós-modernismo e usa esse “””argumento””” solto achando que vai desqualificar todo um post, tem vergonha não? Mas eu entendo: deve ser foda querer morder o cotovelo de raiva de um texto e não saber o que responder, né? Dica: você ficou com raivinha desse texto porque é lesbofóbica. As simple as it sounds. Muah!

      Curtir

      Responder
    • milfwtf

      E eu quero que o feminismo se foda. Não sou feminista, feminismo é coisa de hétera ou bi rica que vive às custas do papai e da mamãe ou da bolsa do mestrado/doutorado e que tem a loucinha e a privada lavada pela empregada doméstica. 😉

      Curtir

      Responder
      • giliane brun

        (para milwtf)
        Cara, realmente concordei com sua primeira resposta, mas essa segunda não. Eu sou feminista, lesbica e não tenho louça nem privada limpa por empregada doméstica. Sobrevivo sim de bolsa de graduação (400 pila) e da ajuda do meus pais, mas ainda assim, dou uma de empregada doméstica para poder me custiar. O feminismo não é “O feminismo”, o que há por ai são feminismoS e eu não tenho problema nenhum em me colocar em um deles defendendo a minha posição e construindo-o.

        Curtir

      • milfwtf

        Giliane, mas isso não é sobre você e sim sobre um movimento que, sim, é maioritariamente formado por mulheres que acham lindo falar de sororidade mas acham super ok a conivência com um sistema de exploração que escraviza mulheres aos serviços domésticos para sobreviver.

        Curtir

      • milfwtf

        E não, não existem “feminismos”, o feminismo é uma coisa só: luta pela emancipação das mulheres. Essa pluralidade aí dissolve o foco e atrasa o nosso lado inserindo pautas que não só nada tem a ver com a emancipação das mulheres (fim de pedofilia, estupro e violência doméstica) bem como são totalmente contrárias a ela, tal como as propostas do Jean Wyllys de transformar cafetão em empresário.

        Curtir

    • milfwtf

      Porque é uma corrente bem problemática em alguns sentidos como por exemplo para mães: de acordo com o lesbianismo político uma mãe deve abandonar seu filho homem para ser entendida como lésbica…rs. Tem várias coisas podres, mas não dá pra jogar tudo fora e reproduzir uma Inquisição a essa literatura deixada.

      Curtir

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

HTML básico é permitido. Seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine este feed de comentários via RSS

%d blogueiros gostam disto: