Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Eu não sou meu nome

Dentro se mim mora uma ser humana que foi impedida de ser humana. A cachorra, a cadela, a vaca, a gata, a menina interrompida pelo sexo abusado quando ainda tinha sete anos de idade. Isso falando da primeira lembrança. Do que não lembro, não sei, e não tenho certeza de nada, mas não duvido que eu possa ter sido abusada antes, muito antes. Mora a bebê que foi impedida de ser amamentada porque a mãe foi impedida de amamentar. Mora a menina que foi castigada por não saber rezar a Ave Maria pra mamãe e papai ouvirem na sala, ainda que não tivesse sido obrigada à catequese. “Ufa”. A menina pra quem sempre perguntavam sobre os namoradinhos. “Sete e sete são catorze, com mais sete vinte e um, tenho sete namorados mas não gosto de nenhum”, cantava a minha avó. Dentro de mim mora a menina que cada caso vez que ia abrir a boca, era mandada silenciar. E se gritasse, tapa na boca. A menina que a obstetra disse à mãe: está aqui a sua diarreia depois de cortar uma episiotomia que lhe causou a infecção que nos separou por três fucking dias até secar seu leite e eu ser desmamada. Essa menina que foi rejeitada pelo pai porque ele preferia que antes tivesse nascido um macho, pra que o macho me “protegesse”. Protegesse de quem? Do irmão que até sendo mais novo me ameaça, me furta, me odeia? Sou a neta de uma mulher que morreu por causa de um mioma no útero que seria super tratável se tivesse sido visto, se ela tivesse sido vista e tratada como humana por sua ginecologista. E elas eram amigas. Amigas. Amigas. Minha avó morreu pela negligência de uma amiga.

Não, não acredito mais na utopia da classe. Minha história matrilinear me impede de continuar nessa utopia colonizatória. A minha classe são as mulheres periféricas. A das mães solteiras. A das lésbicas. A de todas as demais classes exploradoras.

Homem tem classe. Homem é humano. Mulher não tem nem o próprio nome em que se apoiar. O nome da mulher é o nome emprestado do homem. O sobrenome. O que importa.

Rosa. Maria. Graça. Nomes colonizadores. Quem é que nasce com vagina e tem direito a um nome? A mulher que pertence aos homens de sua família. Se a família tem nome. Se os homens da família têm nome. Os nomes são dos homens.

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