Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

O fim de uma utopia

Talvez a auto-suficiência poética não seja mesmo possível para uma mulher. Não sei se ao chegar ao fim de minha vida, ao ver o amadurecimento criativo e político das próximas gerações, terei motivos para mudar de ideia. A verdade é que neste momento em que escrevo estas linhas, entendo a poesia como gênero mais marginalizado da literatura. Creio que assim o seja pela potência rítmica, lírica e estética de se contar a história da humanidade. A poesia traz a tona o que os best-sellers calam. Mas mesmo na poesia há o limite imposto ao gênero feminino. Quero dizer, há muitas poetas do sexo feminino espalhadas por todos os cantos do país, produzindo de forma autônoma, construindo o próprio estilo – a própria voz – por meio de um feroz autodidatismo forjado na sobrevivência. Pois é este mesmo o ponto nevrálgico. As mulheres que mais têm a contar precisam sobreviver antes de escrever. Se nem mesmo aos homens é permitido que se viva de poesia – digo, que se coma, vista e more com dinheiro conseguido com o fazer poético -, o que uma poeta do sexo feminino poderia esperar da sociedade?

Ostracismo.

E o que uma poeta lésbica poderia esperar da sociedade? Pois as mulheres apadrinhadas assim o são sim, por talento, mas principalmente por não ferirem a masculinidade de quem as apadrinhou. O que me resta, como poeta lésbica? Aceitar, oras. Acabo de compreender que a situação não mudará e provavelmente essa nova compreensão não vai alterar em nada meu fazer poético posto que nunca escrevi poesia para plateias e sim para sobreviver, para não esquecer da minha própria história, para não sucumbir aos vampiros da minha percepção. Continuarei escrevendo para não morrer. Com a diferença de que até ontem a utopia estava viva. Hoje agoniza.  Amanhã provavelmente estará morta.

Mas eu? Eu vou sobreviver.

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4 Respostas para “O fim de uma utopia”

    • milfwtf

      Estava estudando sobre o movimento modernista (antropofagia) no Brasil e entendi que ele só aconteceu com broderagem de quem tinha a seu favor apoio de grandes potências jornalísticas tal qual O Estado de S. Paulo, e físicas como o Teatro Municipal. Eu achava que fosse possível ver mulheres copiando essa broderagem mas não é, e mesmo se conseguíssemos um movimento literário feminino ainda que pouco expressivo, nos faltaria estrutura para mantê-lo e apoio não teríamos de lado algum porque não traríamos nenhum benefício aos apoiadores, apenas aniquilação das mentiras que os mantém no topo da literatura.

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      • Keli-Alexandre

        Sim. Esse detalhe esquecido que você resgatou é mais que um detalhe, é a chave pra entender o qt pouco avançamos. Poucas lutas foram de fato oriundas da força das massas. Interesses políticos de poderosos geralmente estavam em jogo e o ativismo das massas foi manobra em tabuleiro.

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  1. milfwtf

    Sim, Keli, é o que me deixa mais brava, porque o movimento modernista nada tem de moderno, de novo, ele é uma repetição social com uma reforma estética que se vende como o supra-sumo da revolução e da ruptura com as estruturas antigas. O modernismo foi construído com essa imagem, apropriação cultural, colonizadores escrevendo sobre o protagonismo do macho enquanto as mulheres eram retratadas apenas como coadjuvantes românticas a serviço deles. Modernismo. E depois vem o pós-modernismo dizendo que tudo pode ser qualquer coisa… tudo interligado, maquinado.

    Olha os protagonistas da semana de arte moderna de 1922: http://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2014/06/140622-Semana.jpg

    E este é um texto escrito pelo Oswald de Andrade, escritor do Manifesto Antropofágico, o manifesto-mór do modernismo no Brasil. Só fala de omi, de broderagi; http://outraspalavras.net/brasil/o-modernismo-visto-por-oswald-em-1945/

    Broderagi da elite… esquerda caviar.

    Ontem eu tive um surto lendo os textos escritos pelo Oswald de Andrade, pelo Mario de Andrade, foi um choque de realidade… tipo…

    “Alo-ou… desce dai, sonha de pés no chão, querida. Não vai rolar um movimento…mas vai rolar a vida então mova-se. fia, mova-se.”

    Enfim.

    É o que temos pra hoje. O fim da utopia. O que não é ruim. É um bom início, até! Repleto de possibilidades de se aprender coisas novas.

    Obrigada pela conversa.

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