Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Como um bebê aprende a falar – 7

– É facu, é facu, é facu!

Era ~gaifu~, mas ele confundiu com faca e saiu isso.

Duas palavras que representam objetos de um mesma conjunto: utensílios de cozinha. Fundiram-se, trocaram letras. Tudo por meio da sonoridade.Pelos sons vocálicos nas sílabas certas e pela quantidade de sílabas exata que tinha as duas palavras: outra semelhança além de ambas pertencerem ao mesmo conjunto conceitual.

FACA
+ GAIFU =
FACU

Juntou os três primeiros fonemas da palavra FACA (fonemas são as imagens acústicas das letras) ao último da palavra GAIFU para criar a sua língua, sua expressividade, a partir dos recursos disponíveis em seu próprio desenvolvimento cognitivo e linguístico.

Todo ser humano contem em si o potencial para a criatividade linguística. Todo bebê já nasce meio poeta, brincador da própria língua. Erros, para crianças, são brincadeiras. Ferramentas de aprendizado e não motivo para punição. É uma pena que bebês sejam privados de experimentar a própria voz por meio de tantos castigos. Diretos e indiretos. As meninas, então… precisam falar pouco, baixo, desde muito cedo pede-se silêncio a elas. Eu, por exemplo, por muito tempo obedeci. Quietinha. Até encontrar no fazer poético uma maneira de me afirmar, de provar a mim mesma que eu existia, que não era aquela caricatura que faziam de mim. Meu silêncio pingou pelas brechas, as lágrimas não choradas se materializaram no mundo pelas tintas azuis e vermelhas de canetas bic. E eu amei a minha língua por ter encontrado a mim mesma nela.

Hoje vejo a língua do meu filho sendo tecida por meio da minha. Língua-mãe. Que com suas patinhas peludas de viúva-negra forma uma rede para alimentar a consciência. Uma rede de palavras chamada sistema linguístico. Vejo a consciência de um ser humano se formando. Vejo a poesia como um lapso da memória que procura se reestruturar para organizar as informações trazidas de corpo e de fora dele. A mesma natureza do ato-falho, quando a linguagem transpassa o desejo e ganha força própria. Só que Freud não explica tudo. Ele só confunde. Confundiu o motor poético com erro linguístico. Potência com falha. Indignação com inveja.

E está aí, sendo base pra análises literárias até hoje.

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