Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Como um bebê aprende a falar – 6

Este vídeo materializa o meu trabalho. Mas ainda assim, creio que poucas pessoas prestarão atenção a ele. A todo o cuidado que dedico a este bebê. Porque sou mãe e até hoje nunca mais voltei a ser vista como a educadora que eu já era antes mesmo de ter engravidado. Por formação, gosto de frisar, ainda que eu ache que a formação tem menos ligação com a qualidade da educação do que o desejo de conexão e troca mútua de aprendizados.

Hoje foi um dia repleto de novidades. Pela primeira vez, Théo disse que gostava de mamar. “Góta mamá! Góta mamá! Góta! Mamá! hahaha! Góta!” (fazendo que sim com a cabeça). E também foi a primeira vez que ele abriu os braços e pediu “dá baço”, ou seja, me dá um abraço, se jogando de cima da mesa pros meus braços confiando que eu o pegaria como sempre pego. Brincamos juntos no teclado por mais tempo do que nas primeiras vezes. Ele se interessou em explorar mais os botões e dançou. Mas esse vídeo do teclado eu posto um outro dia pra vocês verem e ouvirem. Vamos falar do vídeo que eu postei aqui.

Nos dez primeiros minutos, vocês podem observar como acontecem as brincadeiras entre nós: são dinâmicas, eu vou sugerindo brinquedos, ele decide se quer ou não brincar do que eu sugeri, e se ele não quer, geralmente é porque ele já está com outra ideia, então eu tento entender. Às vezes é difícil, confesso. Ele fica criando palavras com as sílabas que inventa na hora e vai formulando as frases nas entonações daquilo que ele quer passar, narrando suas histórias sonoras sem palavras, sem semântica, com o som representando uma espécie de sintaxe sonora. O som sempre vem antes, é incrível observar esse padrão. Depois de ele entender as estruturas sonoras, ele começa os encaixes. Théo está em intenso desenvolvimento, o que as mães geralmente conhecem como “salto de desenvolvimento” e eu vou chamar de “salto de consciência”, pois a cada dia que passa ele vai se entendendo como sujeito de sua própria vontade e tendo de lidar com o fato de que a mãe é um sujeito também. Não um objeto de desejo, como disse Freud, aquele misógino sexualizador de crianças. Théo começa a entender, sim, que tem certos limites, que a mãe diz não, o que não significa castramento. Significa, isso sim, ensinar limites, que não são assimilados de um dia para o outro, mas durante o dia a dia, ao longo do tempo. Estrutura social. Língua. Sintaxe. Regras intuitivas. Os limites entre o eu e a outra. Assim é o processo de desmame. Não quero que seja bruto, de repente ele sem essa interação. Quero que seja suave, sem muitas crises. E natural, dentro dos meus limites e das necessidades emocionais dele. Essa segunda fase do desmame (a primeira foi a introdução alimentar sólida) está sendo um meio que eu encontrei para ensinar a ele que a mãe é um ser humano. Eu digo que o mamá é meu, como vocês podem ver no vídeo, e não me canso de repetir que ele não pode abaixar a minha blusa, que o corpo é meu, que ele tem que aprender a pedir. Isso será, no futuro, uma metáfora para o consentimento. Eu preciso estruturar agora a base daquilo que vou ensinando aos poucos até chegar na adolescência. Quero que ele tenha uma noção real do que é o consentimento. Porque a noção do mundo não é suficiente para evitar que meninos se tornem homens que abusam sexualmente de pessoas do sexo feminino.

Como vocês podem perceber, eu e Théo estamos passando pelo mesmo salto, conceitualmente. O salto estrutural da consciência. Eu estou agora estruturando como serão os meus próximos passos como educadora. Ele aprendendo a estruturar a sonoridade da sintaxe pra depois inserir as palavras. Muito louco ficar encontrando essas conexões. Muito louco acompanhar o desenvolvimento da consciência humana tão de perto e entender que ela não é algo individual e separado do mundo. Ela é interligada pela língua , que sustenta a tradução da realidade mental e material de todos os seres humanos do planeta, revelando que ninguém pode viver isoladamente sem interferências do meio e o meio não existe sem os indivíduos que aprendem a falar uns com os outros. Talvez a maioria com suas mães, e deve ser por isso que se aprende que a língua nativa é a língua materna.

Desculpem a prolixidade. Mas é que eu estou pirando nesse momento. Daqui a pouco meu filho estará falando muito. E vai ser bom. Vai ser bom demais conversar com ele, compreendê-lo cada vez mais, e aprender, e ensinar. E compartilhar com quem estiver a fim de estar perto de nós.

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