Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Vórtice

A maternidade é um encontro diário com o medo. Nada no mundo me colocou tanto em contato com os meus medos mais profundos do que ter me tornado mãe. Nestes quase três anos de novidade – 10 meses de gravidez e 1 ano e 9 meses de cria -, eu tomei consciência de onde é que o medo vinha. Pouca coisa do que li em todo esse tempo foi mais arrebatadora pra mim do que a poeta Audre Lorde que com sua consciência aguçada afirmou: o seu silêncio não vai te proteger. Era nela que eu pensava quando fui tremendo pra delegacia tentar denunciar um estupro ocorrido nove anos antes quando, ao postar uma foto para a campanha “eu não mereço ser estuprada”, um dos caras que me estuprou respondeu “achei que merecesse”. Foi pensando nela que não me calei e o expus pra quem estivesse lendo, diante do palco de todos os amigos em comum que nos assistiam, do tempo do colégio (onde estudamos juntos) enquanto eu tentava me defender de pessoas que diziam que eu deveria estar cuidando do meu filho, coitado, que mãe descompensada. Sempre vão tentar usar meu filho pra me colocar no meu lugar: lugar de mulher calada. Audre Lorde também era mãe. Eu posso não conhecer todos os seus medos, mas tenho certeza de que ela conhece os meus, mesmo que não me conheça. Foi pensando nela que eu comecei a expressar publicamente as raivas que sentia a cada presepada que o pai do meu filho fazia. Meu silêncio não ia me proteger. A ordem era gritar tão alto quanto eu pudesse.

A cada grito, mais medo.
Medo de ficar sem ter o que comer.
Meu silêncio não vai me proteger.
Medo de cair em depressão.
Meu silêncio não vai me proteger.
Medo de me tirarem a guarda do Théo.
Meu silêncio não vai me proteger.
Medo de ser impedida de oferecer a ele toda a educação que eu planejei.
Meu silêncio não vai me proteger.
Medo de nunca mais voltar a produzir economicamente como eu produzia.
Meu silêncio não vai me proteger.
Medo de não ter onde morar.
Meu silêncio não vai me proteger.
Medo de ficar doente.
Meu silêncio não vai me proteger.
Medo de ser presa pelo processo que o estuprador abriu contra mim alegando calúnia e difamação.
Meu silêncio não vai me proteger.
Medo de ficar sozinha, sem amigas, sem família, sem outra adulta com quem eu pudesse conversar.
Meu silêncio não vai me proteger.

Senti intensamente esses medos, confesso que senti todos eles muito mais do que pensei sobre eles. Todas as noites depois do Théo dormir eu sentava na escada fora do prédio e ficava tentando resolver mentalmente todos os meus problemas, rendida à angústia e à ansiedade de não ter a mínima ideia do que o dia seguinte me traria. Como viver nesse inferno de mundo que queria me aniquilar e usava de todas as formas possíveis pra atingir sua meta? Um mundo de homens. Feito por eles, para eles. Então percebi que eu estava no meio de um vórtice e a força que o fazia girar era resultado do choque do medo que eu sentia com a coragem que eu era obrigada a ter para sobreviver. Medo e coragem são forças que nos movem. Algo que diz que a consciência é algo que gira. Eu tive um encontro com a minha consciência por meio de todos os medos que a maternidade me proporcionou. Um encontro com as minhas raizes, as raizes fincadas no chão estavam sendo aspiradas para cima, para o vórtice, e eu agora podia olhar para mim a partir de outra perspectiva: não mais de dentro do vórtice mas sobre ele, observando o olho do meu furacão e as pressões que a faziam girar, bem como tudo o que estava a minha volta: especialmente outras mulheres, cada uma com seus vórtices tão particulares e no entanto tão semelhantes aos meus.

É assim que eu enxergo a nós, mulheres: como furacões furiosos que não sabem ainda muito bem o que fazer da própria fúria. Por negarmos a fúria – e a força – dentro de nós, ao nos depararmos com a fúria consciente e direcionada de outros furacões, o nosso primeiro movimento é o desejo de que eles parem de girar com tanta violência. Mas os furacões que giram com violência são os que estão cansados do silêncio. Eu estou cansada do silêncio e me nego a parar. Não paro. Eu senti medo demais dentro desse vórtice e me acostumei a ele. Nos tornamos cúmplices. Tanto que nada mais pode me amedrontar. É como se eu pudesse ser morta agora mesmo que não me faria a menor diferença. É como se eu tivesse superado o medo da morte. Quem não teme mais a morte, como poderá temer outro furacão?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

HTML básico é permitido. Seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine este feed de comentários via RSS

%d blogueiros gostam disto: