Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Como um bebê aprende a falar – 5

– Caíxe baxu sufá.
Traduzindo: a Clarice está embaixo do sofá.

– Mamãe ipando cocô.

1 ano e 9 meses. Experimentando a sintaxe da língua portuguesa.

De repente me deu uma vontade louca de voltar a estudar análise sintática! Quase tudo o que ele diz tem que ter advérbio de lugar e o mais usado – sem limite e sem regras porque pelo jeito é o que ele tá internalizando agora – é o termo “aqui”. Aqui virou praticamente um ponto de exclamação.

– Mamu bincá (aqui).
– Caiu (aqui).
– Papá (aqui).
– Água (aqui).

Ele também tá assimilando o significado da palavra “fazendo”. “Cocô fazendo”, diz ele enquanto se agacha para fazer o serviço. É não é interessante o fato de ele – ainda – não se colocar ainda como sujeito? Mas de uns tempos pra cá ele começou a apontar pra si mesmo e dizer “Théo”, apontar pra mim e dizer “mamãe”. Agora estou introduzindo o conceito de nomes e pronomes. Como é seu nome? Seu nome é Théo. Como é o nome do neném? O nome do neném é Théo. Como é o nome da mamãe? O nome da mamãe é Natacha. Como é o nome da gata? O nome da gata é Clarice. Eu sou a mamãe. A mamãe chama Natacha. Você é neném. O neném chama Théo.

Senti necessidade de começar essas apresentações porque dois dias atrás ele apontou pra si e disse “Théo neném”. Isso deve vir das horas de mamar em que eu pergunto “quem é o neném da mamãe” pra responder logo em seguida “o Théo é o neném da mamãe“.

Fora que tem um mês que ele começou a introduzir o pronome “meu” em sua linguagem. Mas ainda usa pouco. A impressão que eu tenho é a de que ele se esquece da existência dessa palavra. Aquela coisa que venho dizendo desde sempre: o processo de aquisição de linguagem não é linear.

Théo tateia o sujeito que é por meio da língua que ensino a ele. Duas paixões em simbiose: a língua portuguesa e o desenvolvimento da minha cria. Eu sou sua língua-mãe. Ele ainda usa e vai usar muito o “não” por não saber expressar sua subjetividade, mas já não fica mais apenas no não: ele se supera, gagueja, perde o que ia dizer, procura dentro de si, inventa sua própria língua e fala frases inteiras nessa língua inventada, terminando com uma palavra-chave. Para o meu alívio, pois pelo menos eu posso continuar conversando com ele a partir de sua deixa.

A proatividade do pequeno em aprender uma língua me incentiva a ser proativa também. Quero voltar a estudar por mim mesma. Vou.

E o aprendizado dele será meu guia.

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