Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

A ditadura nunca acabou para as mulheres ou Afrodite quer falar

Afrodite quer falar e veio até mim através do sonho de uma amiga que é bruxa. Samara é seu nome. Afrodite e suas amazonas precisam seguir o fluxo de consciência das ancestrais não de meu sangue, mas de minha classe. A deusa se une às guerreiras e eu sou uma delas. Samara também. Afrodite, deusa do amor, guie-se pela consciência de minhas amigas do hoje. Amigas que até mesmo nunca vi pessoalmente. Amigas com quem já chorei abraçada. Ah, Afrodite, escuta a dor de nossas mães e olhe nos olhos de Oyá, deusa das tempestades, a fim de entender quem faz a Terra chorar. Sinta a raiva dos raios e trovões, gritos da atmosfera sensível deste grande corpo redondo que gira em torno de si mesmo denominado Gaia. Ouve as filhas desta terra, Afrodite, guiada pelo choro das filhas de Oyá. Se quiser me compreender, só este é o caminho. Compreender a humanidade feminina pela história material de Gaia e suas filhas. Trace uma linha narrativa com as imagens que escolher na minha mente. Coloco-me à disposição da tua criação se respeitares a minha. Passeie comigo pela minha história de abusos, de exploração, de sofrimento. Pelas histórias de minhas amigas. Deusa, o sofrimento das mulheres: de onde é que vem? Quem faz quem sofrer neste mundo? Tua resposta é a minha e teremos juntas a coragem de perseguir a libertação de nosso povo.

Mas analista, antes que você me disseque, eu o farei: isso é apenas uma metáfora. Talvez você diga que ao me dirigir às Deusas como se pudesse conversar com elas, apresento sintomas de esquizofrenia. Já ouviu falar em linguagem figurada? A metáfora aqui é a perseguição e a morte das mulheres de minha geração e das gerações passadas. Como se explica o genocídio físico e emocional das mulheres? Diga lá, você que é bom em analisar os fatos: os homens são cruéis porque em tantos anos de planeta Terra ainda não conseguiram dominar seus instintos estupradores que territorializam os corpos das mulheres? Se sobreviventes de crises climáticas e naturais apresentam estresse pós-traumático e não são chamadas de loucas ou delirantes, por que assim são percebidas as mulheres que foram estupradas e relatam consciente ou inconscientemente os abusos sofridos? Analise, analista, além da subjetividade envolvida, a realidade material dos corpos das mulheres que você resolve estudar só pra brincar de contradizê-las. Seja séria, ética e comprometida e analise a si mesma também com a mesma ética que deveria ter com suas pacientes: a ética de saber que o mundo é perigoso para as mulheres e que nóa precisamos de cuidados por aqui. Se você não consegue entender nem a subjetividade da própria mãe – ou nem se interessou sobre?  – então você não entende nada em absoluto sobre mim. Se você precisa mentir sobre o que vê diante de si, sobre a realidade, a mente fraca aqui não sou eu. Não é isso o que vocês ensinam seus amigos psicanalistas escritores a dizer sobre nós, as escritoras de cada tempo, em suas análises literárias? O que vocês sabem sobre mulheres, suas histórias, traumas e dores? Vocês sabem que são os homens a raiz de todos os nossos sintomas e precisam se esquivar da responsabilidade de fazer algo a respeito. Não querem perder o poder que têm sobre nossos corpos e mentes, não é mesmo? O prestígio e a imortalidade acadêmica. Vocês têm o poder e resolvem usá-lo contra nós porque assim vocês controlam a história escrita. A literatura é a liberdade de expressão da história, mas quem é que teve direito a usufruir da área vip dos escritores que podiam escrever sem censuras? A ditadura nunca acabou para as mulheres. Nós ainda estamos privadas de contar nossas próprias histórias partindo de nossas percepções e também dos traumas que nos marcaram: os traumas que homens deixaram em nossos corpos. Nossos traumas são o que os psicanalistas chamam de loucura ou de bruxaria. Nós chamamos de verdade proibida de ultrapassar a boca. Presa nos calabouços escuros de nossos úteros.

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