Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Desabafo

Vou te contar o que vivo hoje e a relação do meu presente com o meu passado. Moro com a minha mãe. Na verdade, ela mora comigo. Há sete anos, deixei a casa dos meus pais para me libertar deles, porque minha relação com eles é horrível, repleta de abusos emocionais, negligências e violências físicas. Há 4 anos, minha mãe se separou de um ex e, sem casa, ficou pulando de favor em favor e eu via que isso estava acabando com ela. Eu tinha uma vida aqui, morava com duas amigas que tenho como irmãs. Elas consentiram a vinda da minha mãe. O primeiro ano que ela morou aqui foi maravilhoso. Mas aí eu engravidei e, fragilizada, minha mãe se apoderou de tudo o que construí aqui, expulsou minhas amigas da nossa casa e passou a me tratar muito mal. Isso me fez ir morar com o pai do meu filho em busca de paz, no rj. Acreditei que poderíamos ser uma família feliz. Eu o amava. Mas ele também mostrou as garras que até então eu desconhecia. Por que eu estava tão frágil? Eu entrei em depressão. Queria entender o que se passava comigo, e, com muita leitura, descobri: a gravidez, por ser um evento sexual, traz a tona traumas sexuais. Tava tudo explicado. Fui vítima de pedofilia e abandono emocional, ninguém me ajudou a entender que o que eu passei não era culpa minha, e o momento era de enfrentamento. Eu tinha que enfrentar o que vivi, lidar com a depressão, sem amparo, sem dinheiro pra me tratar. Li que um parto sem violências poderia der decisivo pra minha cura e decidi que pariria em casa. Isso gerou muitas brigas entre mim e meu ex. Ele queria controlar meu parto, e tudo o que eu lia e dividia com ele era contestado. Decidi que voltaria pra casa da minha mãe. Minha casa, que ela tomou. Pari aqui. E aí logo no primeiro dia ela queria mandar no meu jeito de maternar. Sozinha pra cuidar de um bebê, eu não conseguia dar conta de tudo e até hoje não consigo. Faço o que tem de ser feito no ritmo que posso, frequentemente a casa está uma baderna. Porque não deixo meu filho na frente da TV, num chiqueirinho, ou chorando, pra fazer as tarefas domésticas. Daí eu sou a porca, a preguiçosa, e se reclamo de cansaço, sou a vitimista. Quando meus pais se separaram, eu era adolescente. Dos 15 aos 19 anos, fui babá do meu irmão e a faxineira da casa. Perdi minha adolescência. Aprendi muito cedo a ter de ser adulta, a me sentir mãe do mundo, inclusive da minha própria mãe. Ela chegava em casa e ia conferir se tinha pó nos móveis, e se o chão não estivesse tão limpo quanto ela queria ela me batia, sujava pra eu limpar de novo, me chamando de porca e de preguiçosa, como faz comigo hoje. Nesses últimos tempos, descobri por que minha mãe me trata assim. É porque o meu nascimento estragou a vida dela. Ela não entende que a culpa disso não é minha e sim do meu pai, que batia nela, que a desprezava, que forçava sexo com ela depois de chegar bêbado e muito louco de pó em casa. Eu desgracei a vida da minha mãe. Pra ela, é isso. Só que num nível inconsciente. O fato de ela ter aprendido a proteger homens faz com que ela transfira toda sua raiva pra mim, a mulher mais próxima, uma mulher que a ama legitimamente. Isso dói, eu não a culpo, a culpa não é dela, mas preciso me afastar. É duro me afastar, mas preciso, porque ela me faz mal. Ela ficou sem casa porque quando a minha avó morreu, o irmão dela, meu tio, ficou com a casa só pra ele. E construiu a vida boa que ele tem até hoje usando a casa que deveria ter sido vendida e o dinheiro distribuído entre as outras 3 irmãs. Ele sabia que minha mãe estava passando por dificuldades junto com seus dois filhos, eu e meu irmão. Mas cagou pra ela. Minha mãe tá na merda, basicamente, por causa de dois homens. Meu pai e seu irmão. Mas me culpar é mais fácil, já que ela não tem forças para nomear seus opressores. Que são homens. A gente aprende a proteger. Homens. Homens são protegidos, sempre. E ai de quem vai contra isso. É louca, maluca, tem que se tratar. Agora a pensão do Théo começou a cair da minha conta. Eu tinha dó de colocar o pai dele na justiça. Parei de ter dó. Parei de proteger homens. Porque assim eu me coloco em situação de vulnerabilidade. E eu grito minha indignação.  Por gritar, recebo mensagens inbox pra tomar cuidado, afinal, por vingança, o pai dele pode tirá-lo de mim. Quem me diz isso quer meu bem, mas me faz mal. Reforça o clima de medo do qual quero me livrar. Curiosamente, agora que posso me libertar da situação de abuso em que me encontro com a minha mãe, ela joga sujo e, simultaneamente a outras pessoas, diz que se ela quiser eu é só mover alguns palitos para que eu perca a guarda do meu filho. Não há nada que ela possa dizer que vá fazer isso. Estou rodeada de vizinhas, de amigas, de pessoas que veem o quanto sou uma mãe dedicada, presente, amorosa e consciente. É puro controle. É o sistema do medo rondando uma mulher que ousa ser livre. O medo quer entrar, eu luto. Como poderia eu perder a guarda do meu filho? Eu, uma mãe extremamente nerd, que amamenta, que só o alimenta com os melhores alimentos, que é contra violência infantil e que inclusive milita pela lei antipalmada, uma mãe que abdica de si e faz as escolhas mais difíceis para uma mulher sozinha educar seu filho? O medo quer entrar. E o medo tem raiz, a raiz do medo é a opressão direta de homens que não me querem livres, é indireta, vinda de mulheres que aprenderam a amedrontar outras mulheres com raiva do medo não problematizado que habita as próprias entranhas. Estou encurralada. Mas não arredo o pé. Sinto o medo, mas não posso agir a partir dele. É a partir do amor que devo agir. Amor a minha liberdade, amor a minha gana de ver o meu filho crescendo livre de preconceitos, de violência, da ideia de que ele, por ser homem, pode querer dominar uma mulher. Eu amo a minha liberdade e esse é o maior exemplo que eu posso dar ao meu filho. Ser uma mulher livre, politicamente consciente de que me querem presa mas ainda assim livre, essa é a minha revolução, é o que desejo para mim e para todas as mulheres do mundo inteiro, quer sejam elas mães, quer sejam apenas filhas, meninas, adultas, idosas, pobres, ricas, negras, brasileiras, muçulmanas, católicas, ateias, indígenas, japonesas. Todas as mulheres me são e eu sou todas elas. Sou até a minha mãe, para quem desejo o melhor, a liberdade, a consciência da raiz da culpa, do medo e das raivas todas que sentimos por sermos milenarmente impedidas de sermos reconhecidas como humanas. Essa é a minha história. Minha luta. Meu amor construído com revoltas, lágrima, dores. Mas, principalmente, construído com lucidez, resiliência e esperança. Esperança de que assim como eu, outras mulheres estourem a bolha de proteção em que colocam aqueles que as dominam. Esperança de que se reconheçam como irmãs de luta, apesar de todas as diferenças.

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3 Respostas para “Desabafo”

  1. alerib

    Seu texto é lindo e muito tocante. Acho que dá muito trabalho chegar a esse ponto de reflexão e não é todo mundo que paga o preço de pensar de verdade na própria história. No mais, acho uma outa coisa: a gente tem uma idéia incrustrada na gente de que família é porto seguro, amor e que devemos tudo a eles. Isso mesmo quando a nossa realidade desmente a fantasia. Achamos que é culpa nossa se nossa família nos destrói. E levamos muito tempo para entender que família não é uma evidência, que amor familial não é óbvio e que tem gente, que mesmo sendo família, é importante poder se autorizar a se afastar e a deixar de lado. Porque tem gente que quer apenas destruir e que nunca terá condições de fazer diferente. Um abraço, Alessandra.

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  2. Elô Rodrigues

    Me identifico muito com vc… Também passei por coisas parecidas e parte do abuso tá sendo a mais difícil no momento. Eu lembro que tava numa depressão, numa fase tão escura que pensei que se não engravidasse, eu morreria. Sabia que o processo da gravidez me ajudaria a ter forças e retornar a mim mesma. Mas não consegui, um ano de tentativas e nada. Até que o relacionamento acabou, minha vida mudou, mudei de ares, de casa, de estado. Conheci mulheres feministas como você e percebi o quanto estava limitada e presa dentro de coisas que não me pertecem… Dogmas, regras e preconceitos que não são meus…. A liberdade também me fez crescer… Não digo que é fácil… tem sido bem duro… Inclusive minha mãe morou comigo por 6 meses e foram bem tensos! Sei exatamente do que vc fala. Hoje estou só, mas prestes a voltar pra casa da família, morrendo de medo de recair mas com a certeza de que estarei voltando uma pessoa melhor… Saí uma menina e estou voltando uma mulher. Você sou eu, eu sou você… Estamos juntas! ❤

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