Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Como um bebê aprende a falar – 2

No dia 20 de dezembro, quando o Théo tinha 7 meses, eu comemorei a primeira vez em que ele pronunciou a palavra mamá. Como esperado, o processo não foi linear. Ele só falou nesse dia, e depois se esqueceu que a tinha aprendido. Do caos surgiu a palavra dita, a articulação toda correta para que os fonemas saíssem de maneira organizada. O fonema “eme” seguido do fonema “a”, percebam, são muito semelhantes aos movimentos labiais de um bebê mamando. Como foi que ele teve a ideia, de repente, de soltar a voz enquanto fazia o mesmo movimento de mamar com a boca? Desculpem. Eu acho isso fascinante. Mas enfim, o nascimento da primeira palavra não-intencional veio do caos, ficou por um dia e voltou para o caos novamente. Na mesma época, mais uma palavra aprendida: seu próprio nome. De repente ele disse “Théo”. Organizou três fonemas diferentes, me deixando entre derretida e impressionada. Como assim, de repente, ele me dá uma dessa? Como assim, de repente, ele diz seu nome? Do mesmo jeito que a palavra mamá veio do caos e pra ele voltou, a palavra Théo ficou só durante um dia e depois foi embora. Sabendo que o processo não é linear, eu não tinha nenhuma expectativa. Apenas comemorei e aguardei. Aos 11 meses, ele disse, pela primeira vez, uma palavra para expressar vontade: té! É metalinguagem demais pra minha cabeça… Sério. Sei que parece (e é, assumo) corujice de mãe-professora-de-português-fascinada-por-palavras, mas não é mesmo fantástico que ele tenha aprendido a expressar um desejo, pela primeira vez, com a palavra correta? Té! Ou seja, quero! Desejo! E começou, té pra lá, té pra cá, para pedir alimentos que eu estivesse comendo, ou água. Mas tudo ainda sem consciência. Théo não sabia que “té” era “quero”. Ele estava apenas tentando repetir o som que eu fazia quando oferecia algo a ele. Para mamar, ele não dizia “té”: virava um bichinho e esfregava a cara no meu peito, numa mistura de choros e grunhidos. Era fome, era sede, de alimento e de amor. Muitos sentimentos e sensações juntas e seria esforço demais concentrar, puxar na memória os fonemas e articulá-los enquanto tinha um ataque de necessidade de peito. Junto com a consciência – ou preparação para a consciência – da própria vontade, veio a percepção – ou esboço da percepção – da vontade do Outro. Outro que era eu ou a avó-namorada-do-avô. E aí instruções simples e bem-demonstradas começavam a ser compreendidas por ele, como pega aquilo do chão (apontando bem perto para o objeto) e me dá (apontando para a minha mão). Ao completar um ano, de repente, o “mamá” estava de volta, trazendo consigo um salto linguístico bastante significativo. Assim que ele começou a falar mamá, parece ter compreendido, afinal, que as coisas tinham um nome. Tudo tinha. Mais do que compreender que tudo tinha um nome, ele sacou que os nomes eram úteis. Que o som que saía da boca dele não era só um brinquedo experimental: tinha uma função, e a função era comunicacional, facilitadora. Um atalho: no lugar de chorar, posso falar, já que as coisas têm nome. Então quero aprender o nome de todas as coisas! E foi bem assim. Tem sido. E se eu já nomeava para ele todos os objetos com os quais ele interagia, passei a repeti-los com mais frequência e pausadamente, articulando claramente a boca para que ele pudesse observar meus movimentos. Além disso, tive uma ideia: investir em onomatopeias. Repetir o som de coisas batendo, arrastando, som de animais, enfim, tudo com a boca… e ele amou, tanto que para me imitar foi um pulo. De repente, bater ou cair ganhou a palavra “pá”, e sempre quando ele bate a cabeça ou cai, primeiro ele chora e depois me conta o que aconteceu, com vozinha de choro “pááá”. Miau. “Ah-ah” ou “Ah-au”  (au-au). Vrrr (carro), pau (rojões, estrondos). Interessadíssimo por formatos circulares de tamanhos variados, ficou obcecado por botões. Recorrentemente os aponta e olha para mim. Botão! Titão, repete. Booo…tão. completa. De repente, solta um neneiim, apontando para um boneco. Ou para a imagem de um bebê. Puxou na memória que eu havia dito essa palavra uns dias atrás. Para chamar alguém, grita Théo. Metonímia? Ele desloca uma palavra – seu nome – de seu uso original para funcionar como substituta a uma que não sabe falar, mas ele sabe que ambas têm a mesma função (o chamado) uma vez que se lembra que, quando eu quero que ele venha, quando eu o chamo, falo o nome dele. Então para chamar outra pessoa, ele chama a si mesmo. Ele ainda não se separa do mundo completamente. Assim como a mamãe, eu, ainda é um mamá, embora já comece a ser também um ser humano inteiro, ele é todo mundo. Té/qué, Mamá, Neneiim, Titãm (botão),
Nanã (coringa pra qualquer palavra que ele queira falar e não consegue),Hummm (comi, tô comendo),
Miaaau, Pé, A-ah/ A-A-uh (au-au),
Pá – bateu/caiu, Pau – onomatopeia para rojões, Bvvrrrrrm – onomatopeia para carro, Bam – vamo (quando eu pergunto, vamo tomar banho, vamo almoçar? bam!), Papá – comida, Tau – tchau, Théo – para chamar qualquer pessoa. 1 ano e 1 mês. 16 palavras.

Linguagem é consciência, é memória, é criação de realidade uma vez que é compreensão de realidade. É criação de sentido. Nada disso é linear. Tudo isso é caótico, e mesmo em pessoas adultas, está em desenvolvimento contínuo. Contínuo e exponencial. O aprendizado é infinito e dialógico.

Eu não sei por que… mas tenho a impressão de que o que tenho aprendido nessa díade com um ser que aprende a falar comigo, que desse aprendizado, algo grandioso vai me ocorrer. Além do que já está ocorrendo, que é muita coisa. Muita transformação. Dolorida, mas benéfica, tais quais as dores de um parto. Escrevo adivinhações há tempos, sei disso lendo meus blogs antigos, em um deles eu dizia que Théo era meu amigo e meu lado masculino. Ano: 2006. 7 anos antes do nascimento deste pequeno bebê Théo. Meu amigo. Meu filho. E eu nem sonhava em dar esse nome a ele. Quem deu esse nome a ele foi o pai dele. E eu era ressentida com isso: eu queria dar o nome do meu filho! Mas o pai dele queria sem acento e eu bati o pé para que fosse sem. Então, procurando pela parte de mim que senti perdida nessa minha solidão materna, encontro esse post e fico assombrada. Théo com acento. O acento pelo qual briguei. Eu já havia escrito o nome dele, já havia dito que ele faz parte de mim.

Mistérios linguísticos. Caos. Consciência. Caos. Consciência. Ad infinitum!

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