Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Por que a função de educadora/educador é desvalorizada no Brasil?

Porque ocupar-se criança é tarefa da menor importância. A escola não existe pela criança, mas pelo fato de as mães e pais não terem com quem deixá-las enquanto estão ocupados com seus sustentos. Criança significa: cuidado. E cuidado é tarefa desvalorizada porque cuidado é enxergado como coisa de mulher. Eu não saberia disso se não fosse mulher, mãe, irmã, filha e educadora, ex-namorada e ex-nora. O cuidado é superexigido de mim. Dou-o. E ele não é visto, reconhecido, valorizado. É obrigatório que eu cuide e que eu me cale quanto as minhas dificuldades. Mais absurdamente: é praticamente um crime eu exigir de quem teve cinquenta por certo de participação na reprodução de meu filho um esforço emocional – cuidado emocional –  e prático – higiene, alimentação e educação – não iguais ao que eu exerço (eu amamento), mas equivalente no esforço de superação de meus próprios interesses individuais como mulher, como pessoa. O que continuo sendo mesmo tendo me tornado mãe, mas que estão limitados por eu ser a única responsável por todas as tarefas com o meu filho.

Como pude observar dentro de minha própria realidade, da realidade de minha mãe, da mãe do meu pai, das mães de minhas primas e primos, das minhas amigas que são mães e até mesmo da mãe do pai do meu filho, o cuidado é trabalho de mulher. E trabalho de mulher não tem importância. A educação infantil no Brasil começou por meio das professoras, mulheres que começavam a receber educação de qualidade e tinham o desejo de compartilhá-la com as crianças. Esse é o berço do feminismo no Brasil, a primeira onda aqui no nosso país não foi a das sufragistas, foi a das mulheres que tinham condições e queriam compartilhar um pouco com o progresso educacional daqui. Com o fututo não de uma nação. O futuro do mundo, representado pelas crianças. Esse também é a raiz da misoginia que enxerga a educação de crianças como algo feminino: porque são as mulheres que, socializadas para o cuidado, começaram a cuidar do que deveria ser interesse de todos. Na minha adolescência (colegial para os mais velhos, Ensino Médio para mim) eu já me interessava por educação. Quase cursei o Magistério, um curso de extensão oferecido pela escola pública onde estudei. Só para meninas, diziam, necessário à “mulher que quer ser professora de criancinhas”. Não sei se de fato era só para meninas. Sei que só meninas se formavam ali. Sei do que me falavam na época: que era coisa de mulher.

Hoje sei. Professoras e professores ganham pouco, não são reconhecidos e são pressionados a serem os salvadores da pátria porque é assim, dessa mesma maneira, que tratam as mães. A educação não será revolucionada enquanto a expectativa de que o mundo seja um lugar mais justo recaia somente sobre os ombros das mães e de educadores/professores. Coletivização de cuidados e de educação é pauta urgente a ser discutida dentro do feminismo e por toda a sociedade. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, é dever de todos, indivíduos, Estado e Instituições garantir o desenvolvimento e o bem-estar infanto-juvenil. Isso significa que além das mães, que já se desdobram para garantir os direitos de seus filhos e filhas, abdicando, anulando, sacrificando suas próprias individualidades pela resonsabilidade solitária, pais devem participar igualmente, o Estado deve garantir políticas trabalhistas às mães nutrizes e/ou cuidadoras, e as instituições, no geral, devem atentar-se ao que lhes cabem nesse assunto. A educação não progredirá enquanto for considerada como responsabilidade exclusiva de mães e professores. Coisa do segundo sexo, que merece ficar em portanto, em segundo plano. Despatriarcalizar a educação é a única maneira de garantir mudanças profundas na educação do país. Dentro ou fora do sistema escolar.

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