Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Eu não sou cis (nem você)

Vivemos num mundo em que as mulheres possuidoras de útero não podem se reunir para falar das opressões que sofrem em suas carnes. Como pode, se vivemos em um mundo em que o Estado sequestrou os direitos relativos a esse órgão, que é nosso por direito? Vou além: como pode isso, esse boicote, ser aceito dentro do próprio feminismo?

Eu sei como pode. O lugar da boa mulher é o da mãe santa. A mãe cujo coração sempre cabe mais um, numa casa onde, se comem quatro, comem 10. Aaah, o papel da maternidade. Dos cuidados com a sensibilidade que existe no mundo. A sensibilidade ferida de todos os oprimidos. Da doçura, do abraço, da disposição infinita. Da incansabilidade. Como pode? Pode assim. Com pessoas se intrometendo em nossos espaços e nos colocando de volta aos nossos lugares. De mãe-cuidadoras-de-todos. De interseccionais. Elas precisam cuidar de TODOS os oprimidos! Uzomi também são oprimidos! Pinto não é opressor! Bem, eu acho que pra quem foi estuprada, pinto pode ser opressor sim. Não que seja para todas, sabemos que nem todas se sentem assim. Ou nem todas nomearam esses sentimentos. Muitas sequer sabem que foram estupradas. Muitas fogem dessa realidade, apagaram, duvidam de si.. aconteceu? Foi um pesadelo? Estou louca? Estamos tão cegas a ponto de dizermos a uma mulher que foi estuprada como ela deve enfrentar tal trauma? Estamos tão cegas a ponto de querermos calar quem quer conscientizar mulheres de suas opressões materiais cotidianas?

Estamos, porque se as mulheres decidem contrariar o papel de mães, de cuidadoras, se elas decidem se reunir para falarem do que sofrem por terem vagina, útero, mamas, progesterona, ocitocina, estrogênio, ovários, menstruação, tpm, filhos, maternidade, maternidade solo, “assuntos cisgêneros”, elas se tornam “bucetistas”, se tornam tão imorais que merecem o isolamento, o escárnio, o xingamento, o sarcasmo, a ironia cortante. Merecemos ser colocadas no nosso lugarzinho. Fique “deste lado”. Não é isso o que significa “ser cis”? Estar “deste lado”? Do “outro lado” estão os políticos, os cafetões, os donos de empresas, os banqueiros, os acadêmicos donos da razão que aprisionam nossos corpos – nossos úteros -, os donos da verdade que aprisionam nossas almas. Estar do outro lado é estar do lado do poder, da dominação, da violência, da manipulação através da culpa, do medo do ódio que eles são capazes de sentir e de colocar em prática. Eles sim. São eles que estão no comando e nós somos as subordinadas. Materialmente: eles controlam as instituições. Eles controlam o Estado. Eles controlam o nosso útero. A nós, as “cis”, cabem submissão, a cordialidade, os cuidados. A nós, cabem o casamento, a monogamia, a maternidade compulsória, o papel altruísta de cuidadora solitária da alimentação, higiene e educação dos bebês e crianças, os padrões doentios de beleza, a hierarquia entre o público e o privado que nos afasta de nossas filhas e filhos ou de nossas amadas funções profissionais. A nós, cabe uma vida pela metade. Que privilégio político temos por estarmos “deste lado”? O “privilégio” de sermos dominadas e termos nossos destinos pré-fabricados desde o ultrassom dos ventres de nossas mães, cujos destinos eram nada mais, nada menos do que… NÓS? Suas filhas e filhos!

Mas a nossa luta é a rejeição a essa dominação. Não aceitaremos que nos coloquem “deste lado”. Não, não ficaremos quietinhas ali num canto enquanto vocês, irresponsavelmente, nos acusam do que não somos (transfóbicas, terfs) e pedem pra que nossas irmãs de luta tapem seus ouvidos para “essas radicais”. Essas radicais que ousam rejeitar o papel obrigatório de cuidadoras. As radicais merecem castigo. Fogueira pública digital. Isolamento. Merecem se acusadas de ódio por se negarem a cuidar de todos os oprimidos da sociedade. Mulheres-sem-coração. Não são mães? Então são putas! Depósitos de porra! Vocês nem sofrem tanto assim pra escolherem lutar só por vocês! Vocês nem fazem nada da vida. Va-ga-bun-das. Vocês são tão imprestáveis, para que vão perder tempo lutando pelo direito a um órgão que têm dentro de seus corpos mas não lhes pertencem? Lutem por nós, que chamamos vocês de privilegiadas, que chamamos maternidade de privilégio. Lutem por nós, cuidem de nós, nos proteja de suas iguais, nos proteja das que, dentre vocês estão se libertando. Nos proteja de sua liberdade total!

Mas não. Não mais. Chega de ser capacho de discurso de macho. Macho que me quer assim, dominada, no meu lugar, “deste lado”, do lado das caladas e isoladas. E não importa se quem quer me colocar no meu lugar tem pinto ou tem buceta, dominação eu não vou tolerar, o discurso da dominação quem criou foi o macho, embora seja disseminado por “todes”, eu sei quem é que me destrói ou quem é que deseja a minha destruição, quem é que deseja e ameaça de morte e de estupro as minas que ousam abrir suas bocas. Só que escolho não responder com violência quem tem buceta e quero que quem tem pinto e me quer dominada fique bem longe de mim. Porque tenho consciência de que a primeira divisão de trabalho foi a de gênero, mães são subordinadas dos chefes de família, portanto, faço parte da classe das mulheres que são socialmente vistas e tratadas como mulhes. A minha luta de classes é referente à primeira divisão de classes da história. O útero de minhas antepassadas foi a engrenagem da colonização do meu país. Do nosso. Não apaguem nossas histórias, as histórias de nossas mães, avós, bisavós, trisavós. Nós já não estamos nos livros didáticos. Temos o silêncio como referência histórica. Pare de nos calar, de nos dividir. Respeitem nossos lugares de fala, nosso protagonismo. Pare de incitar a culpa em quem não pode ou não quer lutar por vocês por estar ocupada com a própria sobrevivência. Eu uso meu tempo como eu quero. Sou mãe solteira e tenho um filho pra criar. Faço isso muitíssimo bem, obrigada. Ele é um bebê amamentado, bem alimentado, bem cuidado, bem tratado, com muito colo e com muito carinho. Tive de escolher entre ele e a minha vida profissional para não precisar viver a maternidade pela metade, pois a maternidade não é devidamente protegida no mercado de trabalho. Faço quase tudo sozinha. O pai do meu filho acha que ser pai é pagar 2/3 da pensão e ficar me enchendo o saco, achando que sou eu quem tem que cuidar do vínculo entre meu filho e ele. O cuidado é uma ferramenta de dominação e de exploração. Ninguém me falou, não li em livros, eu VIVO isso. Quase dois anos que a minha individualidade foi para as cucuias. Porque eu prefiro dar um tempo e cuidar do que é essencial e do que eu sinto que eu devo cuidar agora, que é o desenvolvimento emocional e cognitivo do meu filho, a colocá-lo numa creche sem saber como ele está sendo tratado e colocando grana no bolso dos senhores do engenho do século XXI em um emprego que não me representa mais. Eu sempre quis ser mãe. Não é o desejo de todas as mulheres… mas é o meu. Não é o desejo de muitas mulheres, mas grande parte acabou sendo mãe mesmo assim. Muitas mães cuidam de filhos nascidos de estupro. De pedofilia. A situação de quem tem útero não é privilegiada. Maternidade não é privilégio. Como mãe, não permitirei que me devolvam a “esse lado”. O lado da mãezinha caladinha que abriga todo mundo em seu coração puro e sempre perdoante. A privilegiada por sua santidade acolhedora, gentil e bondosa. Eu poderia até continuar sendo aliada dessa luta que agora critico. Fui aliada por dois anos, aliás. Comprando briga com outras mulheres, usando meus espaços “cisgêneros” para falar de “privilégios cis”. Não é o mínimo que esperamos de homens pró-feministas? Que eles levem a discussão aos seus espaços, sem roubar protagonismo? Bem, eu fiz isso com o transativismo. Fui socializada para ser boazinha e carrego o peso do mundo nas costas. A cruz de cristo. Do Pai. Do patriarcado. Mas a partir do momento em que a minha luta começa a ser distorcida, que eu reclamo e não sou ouvida, que eu chamo pro diálogo e sou acusada de transfóbica só por lutar a MINHA LUTA, que é intensa e é todo dia, em vez de ter considerado o meu ponto de vista, ponto de vista de uma voz que deveria der interseccional – o ponto de vista de uma mãe -, ser aliada seria assinar o meu atestado de portadora da Síndrome de Estocolmo. É com o patriarcado que quero acabar, não com vocês que me acusam de transfobia. E eu vou fazer isso materialmente na minha vida a cada vez que eu não abaixar a cabeça pra quem quiser me colocar no meu lugar. O meu lugar ME pertence. O meu lugar é meu corpo, minha alma, minha razão. Meu lugar não é “deste lado”. Eu não escolhi ter minhas orelhas furadas logo que nasci por ter um útero. Não escolhi ser mulher. Quem me designou mulher não fui eu.  Quando eu nasci, já haviam traçado muito de minha vida: submissão a
leis que não me contemplam, dogmas, cultura, mentiras, apagamento de minhas experiências materiais. Minha luta é contra esse lugar para o qual vocês querem me mandar de volta quando dizem que sou privilegiada por ser cis, por ser mãe! Nasci sob o estigma da misoginia. Privilégio cis! A violência obstétrica que minha mãe sofreu acabou sou secando seu leite. Privilégio cis! A violência contra a mulher me separou da minha mãe. Privilégio cis! Vivi e vi isso na pele, sempre que presenciei meu pai batendo nela. Privilégio cis! Eu sou a menina que pulava na frente da mãe mandando meu pai parar com aquilo. Privilégio cis! Que apanhava junto. Eu sei o que é ter uma mãe tão machucada e fragilizada a ponto de sentir que a minha existência a feria. Privilégio cis! Sou a filha de um “sim” que não sabia ser “não”. Privilégio cis! De um casamento que arruinou a vida emocional da minha mãe, que, antes de ser mãe, é mulher. Eu sou a que enxerga muito e que não pode virar a cara e fingir que não vê porque só enxergando posso quebrar as minhas correntes. Ninguém me impedirá de tentar quebrá-las. Ninguém me colocará no papel da princesa que aguarda a salvação chegar num cavalo branco. Ninguém me sujeitará sem que seja enfrentado. Essa sou eu, essa é a identidade que construí como mulher.  Não permitirei que qualquer pessoa a roube de mim. Eu não sou cis. Eu não vou ficar “deste lado”. Nem do outro lado. O meu lado sou eu. O meu lado é a história material, corporal e simbólica de quem sofre as mesmas opressões que eu. De luta contra o silêncio. Do grito que atravessa a garganta para chegar no ouvido das minhas irmãs de luta que, infelizmente, é provável que nem mais me considerem mais como uma irmã.

EDIT: Escrevi este texto um ano atrás. Quando me referi a interseccionalidade, eu ainda achava que o feminismo interseccional era o problema, pois era esse feminismo onde o queer mais se expressava, era onde ele mais tinha voz. Friso que eu mesma era interseccional, fui interseccional durante dois anos e saí porque a maternidade não era acolhida nele, e o discurso de que maternidade é privilégio (discurso queer) imperava. Hoje, porém, penso diferente. O problema não é o interseccional. É só o queer mesmo.

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28 Respostas para “Eu não sou cis (nem você)”

    • milfwtf

      Autoidentificação é o que há, né abiga? Você é o que você acha ser, eu sou o que eu acho ser, e que ninguém meta o bedelho nisso. Nem as ditas “cis” na autoidentificação das trans e nem as trans (ou aliadas 😉 ), na autoidentificação de mulheres que, como eu, não se consideram cis!

      Mas, depois de tudo o que você leu sobre a minha luta particular (pessoal é político), mesmo eu tendo escrito tudo o que eu escrevi com o maior respeito a identificação alheia (eu estava falando da minha e de mulheres que sentem, pensam e se identificam como eu e isso não é sobre VOCÊ), se mesmo após tudo o que eu escrevi a única coisa que você é capaz de dizer é que você é cis, lamento. Lamento, pois é exatamente a sua atitude – a negação das lutas “””cisgêneras””” (maternidade especialmente) – que vem acontecendo recorrentemente dentro do feminismo. A maternidade JÁ ERA APAGADA dentro do feminismo, agora arrumaram mais um motivo para pisar, apagar, silenciar e deslegitimar mães, suas doras e lutas. Se você está feliz com o seu feminismo (e ele é válido, é seu), eu não estou, porque a surdez em relação a toda realidade que expus aqui é sintomática e me afeta diretamente. Esse feminismo que vem até o meu blog para defender quem eu nem ao menos estou atacando NÃO ME REPRESENTA.

      Beijos pra você também, desejo que você seja livre e feliz.

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      • Thais

        Sou CIS. É uma designação simples que só diz que meu sexo é o mesmo do meu gênero não me define como pessoa assim como ser Trans* não define ninguém. É só uma categorização assim como as sexualidades(hétero, homo etc) . Dizer que você não é cis, não importa o quão chatas as trans estejam sendo com você, é tão idiota quanto não se assumir hétero.

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      • milfwtf

        É uma designação simples criada fora da corrente feminista que me representa. É uma designação que não me representa. Querida, vamos fazer o seguinte? Pegue um busão lotado com o sovaco e as pernas peludas, sem sobrancelha feita e com buço também por fazer. Observe a cara de nojo com que vão te olhar, e depois a gente troca uma ideia sobre o privilégio de ser lida como mulher pela sociedade, beleza? Você se importaria em fazer essa experiência? Você se importaria em não se adequar aos padrões de feminilidade impostos socialmente para experimentar um pouquinho do outro lado da moeda?

        Ou seria demais pra você?

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      • milfwtf

        Mais uma que cagou pra todas as problematizações que fiz no post na ânsia de defender quem eu nem sequer ataquei. Vai entender.

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  1. cuidardaterra

    Levei um tempo para entender o que era “CIS”. É um caminho longo que temos a trilhar. Muitas vezes, e diversas questões são difíceis de enxergar. Mas estamos indo, e essa partilha vai ajudando a clarear para cada uma de nós, aos poucos, o que é que acontece, e quase sempre aconteceu. Que seja uma construção amorosa. Agradeço seu texto.

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  2. Julia

    A menina que se diz cis muito provavelmente nem leu o texto todo. Eu não lia ateus quando era cristã, achava que era pecado, coisa hedionda.

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  3. RadSim

    Hoje eu li o seu texto e chorei. Chorei porque a forma como você escreveu foi um tapa na cara, foi um choque de consciência profundo que tocou meu âmago. Chorei porque me senti traída por esse feminismo que prometeu me proteger e me acolher, tapou minha boca e me fez temer.

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    • maria

      sei como é isso…comigo aconteceu o mesmo,andei beirando o ódio insano por feministas e mulheres por causa disso…mas sabe? perdi o medo dos homens e aprendir aa falar grosso…no fundo ,foi um bem.Ficar só no ” mimimi somos a ralé do mundo” é que me fazia mal e quase me mandou para o hospital.

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  4. Thiam

    História pessoal triste e emocionante. Mas o texto, além de criar um espantalho de interseccionais, é infeliz ao negar uma coisa básica: quem é oprimido, inclusive bastante oprimido, também pode estar em situação de privilégio, a depender do contexto. Reconhecer um privilégio não anula uma opressão.
    De história pessoal trágica, infelizmente, o mundo está cheio. E é justamente por reconhecer a gravidade de todas essas histórias pessoais trágicas que é importante reconhecer os diversos tipos de opressão.
    E embora seja bastante natural e humano se comover e se engajar mais com um determinado tipo de opressão (talvez por experiência própria, ou por ter presenciado de perto) isso não justifica desmerecer outras formas de opressão.
    Não é a sua praia? Ótimo, que bom, ignora e passa pra frente. Sem desmerecer.

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    • milfwtf

      Espantalho de interseccionais: não. Porque se a interseccionalidade fosse uma realidade dentro da militância transativista, o meu lugar de fala, como mãe, teria sido respeitado, ao menos levado em conta, e não foi. E essa foi a minha revolta. Eu estava disposta a lutar do lado dessas pessoas, mas elas estavam pouco se lixando para mim. Eu era interseccional. Eu rompi com ele porque um feminismo que não escuta as mães é um feminismo que não está nem aí pro que nós temos a falar. Um feminismo que chama maternidase de privilégio CAGA NA CABEÇA das minas mortas por aborto clandestino, das minas estupradas e obrigadas a serem mães com 12 anos. Chamar maternidade de privilégio é VIL.

      Dois: eu estou falando aqui de opressão de gênero. Sim, uma mina branca pode oprimir e oprime, não raro, uma mina negra. Mas eu não sou negra e não tenho o direito de falar por mulheres negras e isso eu tô aprendendo. Ninguém desmereceu outras lutas aqui. Isso é um grito de revolta contra quem me chama de privilegiada pela minha posição na sociedade. Eu reconheço que a minha condição como branca é mais confortável do que a condição de mulheres que precisam se prostituir para alimentar seus filhos, pra citar um exemplo. E é por elas e por mim que eu luto, não incluo quem foi socializado pra me destruir na minha luta porque eu já lido com isso suficientemente no meu dia a dia. Me parece que o espantalho aqui não é de autoria minha.

      Não é que não é a minha praia. Porque feminismo não é lazer pra ser comparado com praia. Quando se trata de opressão vinda de quem foi socializado pra explorar minha classe, não me importa se é um cara gay ou uma trans (afinal homem trans não foi socializado pra me explorar), eu vou tretar. Não vou ignorar coisa alguma. E eu não vou desmerecer. Eu vou apontar as merdas e seguir em frente.

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      • Thiam

        Percebo que, nesse momento, partimos de pressupostos diferentes: eu acredito que mulheres transexuais sofrem opressão. Como também podem ser agentes de opressão. Como disse anteriormente, a depender do contexto.

        Por conta disso não vou me alongar nessa discussão. Cada pessoa sabe onde o calo aperta e aqui é o seu espaço pessoal e de segurança.

        Apenas um detalhe com relação a sua resposta: não comparei o feminismo com praia, o “não é a sua praia” que usei é uma expressão idiomática cujo sentido não é literal. Não estou falando de lazer (como também não quis dizer calos literais no parágrafo anterior).

        De toda forma, peço desculpas se em algum momento lhe causei aborrecimento.

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      • milfwtf

        Não me causou aborrecimento algum, pelo contrário. É um prazer dialogar. Eu nunca neguei a opressão das trans. Mas elas não sofrem misoginia. A opressão que elas sofrem vêm da sociedade enxergá-las como homens transgressores da sexualidade. A sociedade mal entende o conceito de gênero. Independente da autoidentificação, o social mantêm comportamentos com as pessoas trans baseados em seu sexo, não em seu gênero. Essa é a opressão que elas sofrem. É diferente da opressão de quem É OBRIGADA aos papéis femininos desde o nascimento. Uma trans adolescente que tem uma irmã dificilmente será obrigada a fazer as tarefas domésticas, mas ela terá direito a privacidade sexual, será incentivada a falar alto e a chamar a atenção pra si e a EXPLORAR MULHERES, economicamente, sexualmente, laborativamente. A misoginia é uma forma de exploração que as trans não experimenta.

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      • milfwtf

        “Mas mulher trans é mulher”
        Não é assim que a sociedade a vê. Não é assim que a sociedade a trata. Ela nunca morrerá por aborto, ela nunca será obrigada a ser mãe de um filho gerado por estupro, e ela ainda assim acha que maternidade é privilégio. A maioria acha.

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  5. (Femin)Agnes: “O feminismo é pelas, das, com, para as mulheres e é nisso que eu foco a minha existência” | Livre Opinião - Ideias em Debate

    […] Vejo a identidade “cisgênera” como mera invenção pós-moderna partida de homens na tentativa de encaixar mulheres em uma posição de conformidade com as opressões que sofrem. Eu não sou cisgênera, assim como não sou transgênera. Sou mulher. Nasci com um orgão genital que não deveria ter qualquer relevância na minha vida, mas ele tem.  Porque a sociedade patriarcal sustentada e beneficiadora de homens assim o quis. Eu não escolhi ganhar bonecas de presente de aniversário durante a infância e meus agressores nunca me perguntaram se eu me identificava como mulher ou não, antes de me agredirem. Eu sou lida assim e é assim que serei tratada. Enquanto feminista radical, rejeito tais classificações de mulheres como opressoras de pessoas do sexo masculino que se identificam, seja por qual motivo for, com a identidade de mulher. Os recortes e análises necessários de classe, raça e idade são fundamentais para entender mulheres em situação de mais ou menos poder opressivo. Mas a identidade cisgênera como oposta à identidade transgênera não me faz qualquer sentido. Assumir a identidade de pessoa cis é dizer que eu me identifico com as características próprias do gênero que designaram no meu nascimento, de acordo com o meu sexo. E isso é meramente culpabilizador para mulheres, é dizer que elas são responsáveis, à medida em que se identificam com isso, pela sua identidade – quando na verdade somos todas vítimas do patriarcado e do que ele determina em nossas vidas. Não me identifico com nada que é, comumente, associado ao meu gênero – gênero este que foi forçado a mim desde o meu nascimento, algo que podemos também chamar de socialização. Não sou feminina, não pintos as unhas, não sou vaidosa, sou peluda e não estou à disposição de homens, mas nada disso me faz ser um homem ou uma pessoa não-binária ou agênera ou qualquer outro nome que a pós-modernidade alucinante queira dar a isso. Sou uma mulher, continuo sendo reconhecida socialmente enquanto mulher, porém sofro as violências de não ser uma mulher que vive dentro das normas e isso não pode ser nomeado com uma palavra tão culpabilizadora como cisgênera. Sobre isso, recomendo o texto “não sou cis (e nem você)” [Link: https://milfwtf.wordpress.com/2014/06/04/eu-nao-sou-cis-nem-voce/%5D […]

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  6. Nathalia

    Irmã, eu não tenho nem palavras pra te agradecer pelo texto, e pra dizer o quanto a tua história me tocou. Força ❤

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