Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Um grito do útero

Mulher. Palavra devirada do latim mulgere ou mulcere, ordenhar ou lamber, respectivamente. Em outras palavras: a fêmea do macho. Foi com essa palavra que o patriarca dividiu a sociedade em duas classes: a que tem úteros e tetas e que só serve para reproduzir mão-de-obra para a outra classe acumular mais e mais terras, mais e mais propriedades. Antes que me censurem, preciso deixar bem claro: isso não fui eu quem decidiu tal definição. Está na língua portuguesa, é um dado verificável por qualquer uma que queira perder dez minutos de pesquisa no google. A língua portuguesa é derivada da língua latina. E latim é a língua da Igreja Católica. A língua do senhor. Não fui eu quem criou a palavra mulher. Foi o patriarcado que nos marcou a ferro e fogo com esse desígnio. O patriarcado criou a palavra mulher para dividir e dominar. Nós, mulheres com úteros e tetas, fomos aprisionadas como vacas. Vacas criadas em cativeiros. Cativeiros que chamavam domus. Domus, palavra para casa, o lugar da mulher. O único lugar possível para ela. Vacas domésticas. Vacas domadas. Vacas dominadas. Vacas de parir filhos que seriam donos de outras vacas ou filhas que se tornariam moedas de troca para serem, como nós, vacas reprodutoras e nada mais além disso. O patriarcado foi, pouco a pouco, às custas das vacas produtoras de guerreiros, conquistando mais terras e mais vacas. Assim conquistaram o mundo inteiro, de modo a nos fazer crer que a dominação da mulher pelo homem está relacionada às foças da natureza. A cada terra conquistada, estupros, assassinatos, domesticação de mulheres na base da violência física, sexual. Estupro pra mostrar quem é que manda agora nos úteros das novas terras conquistadas. O medo selou, por muito tempo, nossas bocas assustadas. Silêncio. Mulheres-vacas ruminando quietinhas todo o terror a que fomos submetidas. Não estávamos preparadas para lidar com a perplexidade que sentimos quando violentamente roubaram nosso sistema reprodutor de nós. Vacas-caladas.

Só que nunca deixamos de sermos humanas. Humanas invisíveis. Ainda que presas a funções que eles determinaram que eram nossas, onde eles viam vacas, por dentro sempre guardamos a intuição de que éramos humanas e não desistimos, ainda que caladas. Humanas resistentes e invisíveis. A intuição como o único norte possível, já que éramos proibidas de desenvolver a razão, de escrever, de estudar, de filosofar, de sentar à mesa com marido e convidados lá no passado, na Grécia Antiga, quando o andar de cima da residência chamava-se Gineceu e era o espaço reservado para a mulher. Cabia a nós cuidar de nossas casas, filhas e filhos. Cabia a nós servir nossos maridos com comidas, com nosso calor humano, com nossa compreensão e empatia sofridas e pisadas. Aprendemos a servir. Visivelmente vacas. Invisivelmente aconchegantes, carinhosas, quentinhas, motivadoras. Frágeis, doces e submissas vacas. Femininas vacas. Aprendemos a amar incondicionalmente, sem a consciência de que estávamos sendo tratadas como menos que humanas. Inconscientes de nós mesmas e do valor de nossos trabalhos nós geramos e fizemos o possível para amarmos a humanidade amando nossos filhos e filhas, ainda que nos faltasse amor. Ainda que amássemos sozinhas. Ainda que ninguém nos amasse.

Nos obrigaram a sermos vacas parideiras e leiteiras. Ai daquela que ousasse ser humana com toda sua potência. Ai daquela que ousasse ser bicho humano, fêmea humana. Ai daquela que ousasse celebrar seus ciclos naturais de gente possuidora de útero. Ai daquela que ousasse celebrar seu sangue ofertando-o à lua, à terra, às flores, às àrvores, aos pássaros, às estrelas. Ai daquela que ousasse gostar de si, de seu sexo, de gozar. Ai daquela que ousasse desafiar o patriarca. Demônia! Puta! Bruxa! Feiticeira! Ai daquela que ousasse: seria morta, queimada, assassinada e estuprada para aprender que o que lhe cabia era somente o papel de vaca doméstica. Ai daquela que ousasse nascer com vagina quando um pênis era o esperado: feminicídio infantil ou abandono na roda dos enjeitados. Ai das abandonadas. As abandonadas seriam as prostitutas. As abandonadas não eram de ninguém. Eram de todo mundo, menos de si mesmas. Ou morreriam de fome, frio. Por séculos, milênios, tem sido assim. O medo da morte rondando nossos corpos sem nos darmos conta de que são eles mesmos, nossos corpos, que geram a vida e a morte. A humanidade passa por nós sem nos darmos conta do poder que temos, pois o patriarca nos retirou o direito de celebrarmos o que nos é intrínseco. Com a celebração nós criávamos consciência coletiva sobre nossos corpos e nossa sexualidade, anciãs ensinavam as jovens e assim mantínhamos o domínio sobre os potenciais que carregamos no ventre, entre as pernas, nos seios. Mas nos impediram. Primeiro nos dividiram em classes – homem e mulher – e depois nos diviriram entre nós. As que não se conformavam eram bruxas que iam pra fogueira servir de exemplo às demais. Assim as demais passaram a reprimir as bruxas queimadas dentro de si mesmas para viverem com alguma segurança. Vivendo sob um teto violento, sob as leis de um deus violento, a conexão foi se perdendo de forma massiva, até a maioria estar devidamente colonizada, domesticada, envaquecida e igualmente violenta para com suas irmãs e filhas. A desconfiança foi plantada entre nós. Inconscientes de nossos próprios corpos. Enraivecidas com nossa própria natureza de sangue, de vida e de morte. Odiosas de nós mesmas. De nossas formas, cheiros e sentimentos. Paralisadas de medo e dor. Ensinadas a falar somente na língua do p. Servindo ao patriarca, à pátria, ao padrão, ao patrão, ao pai. Porque o pai que tem a força de nos matar também pode ter a bondade de nos salvar de sua própria violência se nos mantivermos boas. Índias brasileiras impedidas de falar a própria língua materna para serem salvas pelos colonos cristãos. Índias catequizadas. Estupradas. Obrigadas à monogamia e ao casamento. As novas vacas das novas terras conquistadas. De vergonhas altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharem, não se envergonhavam, como disse Pero Vaz de Caminhas, analisando as próximas vulvas a serem domesticadas. Vulvas de novas vacas leiteiras. Brasileiras vulvas.Carne nova para os portugueses, espanhóis, alemães, italianos, franceses, europeus. Não há domínio de terra que não passe pelos úteros de suas nativas. Não há colonização sem o nosso sistema reprodutor. E cá estamos nós, tataranetas bugras, impedidas de conhecermos nossas raízes ancestrais. Tataranetas do silêncio. Contemporâneas de tataranetas resistentes que lutam hoje por suas terras, por seus filhos e por seus corpos, roubados há mais de quinhentos anos por Pedro Álvares Cabral e sua corja. Nossas primas longínquas de quem nunca ouvimos falar porque a escola não conta a história das mulheres. Nem de nossas mães, nem de nossas avós, nem de nossas bisavós, nem de nossas tataravós. Separadas umas das outras e de nossas ancestralidades pois a insconsciência impede a revolta que sentiríamos pela vida que nossas tataravós viveram, jovens índias, nas mãos dos velhos fazendeiros, católicos cidadãos do bem, honrados senhores de caráter ilibado, seguidores da moral e dos bons costumes. Um belíssimo discurso para esconder a violência, os assassinatos, a dominação, a injustiça cometida diariamente contra nossas Gabrielas de cravo e canela. Conterrâneas continentais de Micaela, indígena Inca com sangue também africano, que lutou até a morte pela libertação de si, de sua família e de seu povo. Guerreira que não está nos livros e não é a toa. Não está nos livros para não nos identificarmos com aquela que nos representou e nos representa. Para impedir a nossa revolta por sua história, pela nossa, pela de nossas tataravós. Somos todas Micaelas.

Como ela, protagonistas de nossa história de bravura, ainda que silenciadas pela memória masculina que escreve os livros didáticos com os quais nossas filhas e filhos aprendem na escola. A história da humanidade é a história do homem e a história do homem foi construída com o nosso silêncio. Livros e mais livos que não nos dão nem o papel de coadjuvantes, quando a verdade é que enquanto eles colonizavam mais e mais terras, nós não só produzíamos sua futura mão-de-obra, confinadas em nossas casas, como também os apoiávamos em suas decisões, realizando um trabalho emocional pesado e sem troca alguma. Uma história masculina de honras e glórias escrita com nossos sangues, nossos úteros e nosso amor machucado. Uma história de abuso e violência que se repete todos os dias do ano de 2014, em diversos cantos do planeta. Em nome de deus, nossos úteros ainda são controlados pelo Estado, que só é laico em teoria. Em nome de deus, como foi com as índias obrigadas a deixar de falar a língua materna com que reverenciavam seus ciclos para louvar ao senhor fazendeiro. Ao Senhor Deus, o que dá na mesma. Em nome de deus, do senhor, nossa dignidade humana nos foi roubada. Vacas. As ricas para reproduzir herdeiros. As pobres, para reproduzir os miseráveis que trabalharão em regime de escravidão mantendo os herdeiros sempre no topo da pirâmide. Útero engrenagem.

A subclasse da classe é a situação econômica. Oferecem-se alguns privilégios para a mulher rica e ela se mantem parcialmente satisfeita: o que mais poderia querer da sociedade? O que mais uma civilização poderia oferecer à mulher rica além da ilusão da segurança que o conforto material lhe proporciona? Conforma-se pois está cercada por um mundo que a distancia da urgência da revolução. Isolada em uma redoma de vidro e de ouro, repetindo o discurso patriarcal como medida de proteção e tentativa de pertencer. Pertencer a uma civilização masculina. Essa mesma mulher rica, porém, sofre de depressão, de crises de ansiedade e de pânico, sofre calada de violência doméstica porque tem vergonha de sujar o nome da família com assuntos sem importância. O nome da família é o nome do homem. O nome que se quer honrado. Crê que sua dignidade não tem importância. Que sua liberdade plena não tem importância. Ao menos ela tem quem trabalhe para ela, quem cuide de seus filhos, quem deixe a casa impecável: a mulher pobre. Que está inserida em um cotidiano frenético, cuidando da própria casa, marido, filhas e filhos, cuidando do marido, da esposa e das filhas e filhos dos outros, sem tempo de pensar em revolucionar sua própria situação. Assim, as duas subclasses são levadas a crer que não há nada de parecido entre elas, quando, na verdade, elas só estão divididas dessa forma exatamente por terem muito em comum: são as reprodutoras dos homens, embora cada classe para um fim específico. Vacas.

Vaca! Palavra que o discurso patriarcal usa para ofender qualquer mulher que ouse usar sua potencialidade sexual de maneira livre e desinibida sem intenção reprodutiva. Não é coincidência. Vaca, cadela, galinha, piranha. Nos desumanizam linguisticamente. A linguagem reflete a materialidade da vida cotidiana e a denuncia, ainda que sem querer. Nos desumanizam na linguagem. A língua portuguesa é uma ferramenta de dominação patriarcal. Mas a língua, apesar de ser capaz de criar mentiras, de inverter os fatos biológicos, fazendo parte da humanidade crer que a mulher veio de uma costela e não o homem do útero, não é capaz de, por si só, criar um ser humano. Só o útero é capaz disso. Só uma mulher com útero é capaz disso. Eu não quero, com esse texto, dizer que só a mulher que tem útero é mulher. Mas não serei hipócrita: é com a mulher que tem útero que eu quero falar. É a mulher que tem útero que compartilha comigo opressões específicas e são elas as protagonistas de uma luta que preciso que elas lutem para que eu, mulher com útero, que já foi tratada como uma mera embalagem de bebê e nada mais, me liberte. Para que todas nós nos libertemos. Não sou mais nem menos mulher por ter um útero, mas o útero faz parte da minha identidade e mais, meu útero e o útero de todas as minhas irmãs é o órgão que o patriarcado aprisionou para se manter em pé. Fechar os olhos para isso é fechar os olhos para a grande solução: mulheres com útero unidas para fazer revolução. Revolução verdadeira, com potencial para libertar verdadeiramente. Se por milênios fomos socializadas para o cuidado, para carregarmos o mundo nas costas, por que não usarmos toda essa bagagem a nosso favor? Cuidaremos umas das outras. Por isso eles não esperavam. Não esperavam que aquilo que nos aprisionou poderia nos libertar. Nos cuidaremos, então. Em nome de todas as mortas, estupradas, mutiladas, agredidas, silenciadas, prostituídas, exploradas: a revolução será feminista ou não será. Será radical, irá às raízes, irá ao útero. Ou será apenas uma reforma, da qual só se beneficiará uma ínfima parcela da população feminina. Libertar o útero é libertar todas as mulheres. Inclusive as que não têm útero.

Anúncios

3 Respostas para “Um grito do útero”

  1. Neila Matias

    Fiquei conhecendo seu blog hoje (q coisa, não?! Mas, antes tarde do que nunca!) e já estou lendo há umas três horas.

    Só conhecia do movimento queer o superficial, a performance. Estou mesmo horrorizada com todas as questões envolvendo a pedofilia. Mas quero falar desse texto. Que texto!!!! Obrigada por me ajudar a concluir algo que já tinha pensado mas não conseguia ligar os pontos: quando decidimos não ter filhos ou fazer um aborto estamos ameaçando a capacidade de perpetuação da dominação patriarcal. A não ser, claro, que consigamos educar nossos filhos para a equidade.

    Mt amor e obrigada!

    Curtir

    Responder
  2. Paola Alano

    Muito esclarecedor. Eu já tinha visto muitos problemas na teoria queer mas pedofilia não tinha passado pela minha cabeça, mas faz muito sentido.

    Curtir

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

HTML básico é permitido. Seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine este feed de comentários via RSS

%d blogueiros gostam disto: