Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Antes de Dormir ou Mais uma noite sem pressa

Deitamos. Ele não quis ficar mamando no meu colo. Agitado, levantou, engatinhou até a beira da cama e sentou de costas para o vazio, como quem testasse meu medo de vê-lo cair e minha serenidade materna. Mas não era teste: era só ele sendo um bebê de quase 9 meses de idade. Sorri em silêncio, confiante porém atenta, olhando fixamente em seus olhinhos que me sorriam brilhosos de volta. Eu sei quando ele me sorri só com os olhos. Seu rostinho ganha um aspecto iluminado e meu coração se aquece.

Correu de volta pra mim, se jogando em cima do meu seio esquerdo, com a boca aberta desde lá do alto, aspirando o ar longamente e vocalizando como se tivesse levado um susto. Mas não era susto, era só experimentação. Virou a cabeça para um lado e para o outro sem tirar o bico do meu seio de sua boca. Mais um teste: com oito dentes, se ele resolve forçar a mandíbula, o machucado pode ser feio. Respiro entre tranquila e alerta. Ele para um pouco e eu o trago para cima de mim. Quando ele nasceu, cabia no meu tórax. Hoje suas pernas tocam as minhas. Ele levanta a bunda até lá em cima, se esticando na ponta dos pés apoiados em cima do meu útero. E lá fica, alongado, repirando e mamando. Seus olhos começam a pesar e a virar de relaxamento. Pisa pra lá, pisa pra cá, se deixa cair por sobre meu braço, com a cabeça apoiada no meu ombro, ainda sem tirar o seio da boca. E sai correndo até a beira da cama novamente, engatinhando como se estivesse bêbado, tropeçando nos próprios braços, caindo de cara no colchão, sentando ereto como um pequeno Buda e olhando para mim com um sorriso serelepe, dessa vez nos lábios.

Se demora, olha para os lados, quer algo que o distraia do sono e não acha nada. Eu o chamo e ele vem. Deita do meu lado e pisca mole e macio diversas vezes seguidas ainda com o sorriso serelepe nos lábios. Ele continua expressando seu contentamento enquanto atravessa aos poucos de uma margem do sono à outra. Quero rir, tento me segurar, pois não quero despertá-lo. Mas minha barriga começa a pular sozinha e o som da minha respiração fica mais acelerado. Théo percebe, tenta olhar para mim mas seus olhos ficam apenas 1/3 abertos enquanto me acompanha na risada. E assim ele cai num sono profundo, manso e alegre. Conectado comigo.

Um dia ele vai preferir se jogar esparramado em sua própria cama, num quarto dele, e adormecer atravessando o próprio silêncio solitário. Mas eu não tenho pressa. O tempo passa rápido, as fases se esgotam impiedosas dando lugar ao novo e maravilhoso movimento de liberdade, autonomia e expansão. Quase nove meses já se foram. Mas se foram inteiros, sem que eu tenha nada de que me arrepender ao olhar para trás.

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