Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Se Maria Madalena falasse

Menina, não tema a solidão. Eu sei que desde pequena você vive só aí dentro. Ninguém te ensinou a união, o amor: ele é teu. Como é de qualquer um que escolha viver em paz com a própria consciência, o que por si só já é grande luta. Eu te conheço, menina. Você olhava para o céu, sonhando em um dia poder sentir com suas mãos pequenas a textura de uma pedra do nosso satélite natural. Desde sempre você foi lunar. Depois descobriu o absurdo de olhar para estrelas que já haviam morrido. Como podia? Pequena astronauta. Mais que lunar: universal. O impossível foi o teu caminho. Descobriu-se caracol, com aquele corpinho duro com geometria fractal, que carrega o universo dentro de si. Sendo, portanto, livre, ainda que rastejante, viajou para o centro de sua terra e tomou de volta o que havia sido dominado por brutos conquistadores em tempos antigos. Você guardou a vontade de ser livre de novo. Não tema a solidão, menina, porque é em você que está a fonte da vida. Não do teu útero, da tua vagina, mas da luta por ter sobrevivido apesar do que isso representa pro imaginário masculino desde cinco mil anos atrás, quando o patriarcado dominou o mundo através da religião, do Império, do Capital e do Estado. Tua liberdade é a tua substância mais primitiva, adormecida no mundo de fora pelas mãos do patriarca. Teu sangue é também indígena e sul americano. Tua luta tá no teu DNA. E 90% do DNA humano foi considerado como lixo até pouco tempo atrás: hoje, linguistas russos (entre outros cientistas), se dedicam ao que até o presente momento vinha sendo rejeitado pela academia. 90% de nada pode ser inútil na natureza. Tudo nela é perfeito, caótico, útil e harmônico. A resposta a que se chegou até o momento: a palavra unida a frequência certa é capaz de transformar DNAs, e essa parte rejeitada pelos pesquisadores desinteressados tem uma estrutura comum a todas as linguagens humanas. Teu corpo é tua internet biológica comandada pelo melhor e mais misterioso computador que a humanidade já viu: o cérebro. E o ritmo de sua comunicação é dado pelo teu coração-bumbo, que bombeia o oxigênio que você respira.  Como o de todo ser humano. Respira lentamente para se recolher na tua intimidade com o sangue e silenciar a mente, acesse seus vazios, suas lacunas. Respirar é acessar o som do corpo e entrar em outra frequência, no ritmo de um mundo mais orgânico e justo. Veja o sonho se materializando naturalmente diante de si enquanto você dorme. Este é o sinal do xamã. Sonhe e crie. Desperte dentro do sonho. Desperte, desperte, como você vê seu filho despertando, sabendo que esse processo é muitiplicado ao infinito. Depois do silêncio vem a voz, você sabe. Usa tua voz de mulher e teu corpo-abrigo como abraço pra menina que você foi. Cure-se do mal do mundo apesar do mal do mundo. Ative, menina, o potencial latente do seu DNA, que foi por séculos colozinado pelo homem branco. Há quanto tempo a humanidade está na Terra, menina? A memória de um tempo de paz foi silenciada pelas mãos sangrentas dos militares e religiosos. Mas existe no inconsciente coletivo para ser pescada a cada instante de dificuldade. Palavra como isca: pesque-a. Não para devolvê-la ao mar, pois a morte não é de se brincar, como bem sabemos, eu e você. Palavra sagrada de quem quer se libertar das fisgadas na alma, das dores na carne. De quem quer espalhar justiça pelo mundo. De quem foi proibida de usar a própria língua pra falar de çaiçu (tupi) e de haiho (guarani), amor, na língua portuguesa. De quem sonhava em ir para o pico de uma montanha para gritar o mais alto que pudesse e ouvir a própria voz voltando pra si, mas acabou se contentando em gritar enquanto mergulhava, liberando debaixo da água a carga violenta que recebia do mundo de guerra que te obrigava ao siêncio. Você sempre dá um jeito de se ouvir. Escrever foi outro modo, habilidade como que nova que a indiazinha adora explorar desde bem pequena. E agora que você se tomou de volta pra si, tua voz, física mesmo, é a chave. Porque a tua voz, onda e respiração, ressoa pelo teu corpo que é 70% água. Teu corpo é teu. E teu corpo é a voz da natureza. Como o corpo de todos os seres humanos, homens e mulheres. Acessando as mensagens de raiva, tristeza e amor presentes no seu corpo, você acessa a linha do tempo passado e a enfia na agulha do futuro, suturando a carne viva e fazendo a ferida secar. A solidão é o último chamado pra lutar com dignidade e astúcia. Permacener viva e resistir com voz é a tua missão. Boa noite e bons sonhos, menina. Dorme bem. Você nunca está só quando tem a si.

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