Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Sobreviverei, sobreviveremos

Como se eu fosse culpada por não me amar o bastante. Como se o amor que potencialmente tenho em mim por ter nascido humana não tivesse sido pisoteado por todas as pessoas que, ainda criança, tocaram meu corpo sem meu consentimento, tenha sido com a intenção de me corrigir (nasci errada?) ou de me usar para satisfação de prazeres egoístas. Como se não tivessem me roubado de mim mesma antes que eu pudesse me defender. Corpo, sentimentos e pensamentos. Como se eu não fosse tão sensível a ponto de preferir destruir a mim do que a quem me fazia mal jurando de pés juntos que aquilo era na verdade para o meu bem. Como se eu buscasse, conscientemente, me meter em situações que repetissem as que desencadearam todo o processo de negação da minha pessoa, da minha carne, dos meus desejos, das minhas necessidades, da minha mulheridade. Como se eu tivesse de, num passe de mágica, piscar os olhos e amanhecer me sentindo a mais amada entre as criaturas. Por mim. Como? Como se fosse fácil perceber que permiti que me ultrapassassem os limites. Como se eu soubesse que sim, eu podia ter limites. Como se eu não tivesse tido de forjar a ferro e fogo uma armadura para me manter viva. Como se essa mesma armadura não prendesse meus movimentos. Como se eu não tivesse direito à inocência. Como se a diversão e o prazer não me tivessem sido nunca censurados. Como se a solidão não tivesse sido a única companhia incapaz de me causar mais danos. Como se a solidão de minhas companheiras não pudesse ser abraçada pela minha solidão e a minha solidão pela solidão delas para termos ao menos um motivo para não sentirmos o abismo sem fim de estarmos condenadas a sermos incompreendidas pelas pessoas ao nosso redor. Como se o erro mais fatal fosse termos nascido mulheres. Como se nós é que fôssemos as cruéis por não nos resignarmos. Como se tivéssemos de silenciar eternamente tudo o que quer nos sujeitar. Como se não fôssemos vistas como menos que humanas. Como se nos mantermos dóceis como todos querem não fosse exatamente aquilo que nos manterá na condição de vítimas. Como se o heroísmo nos fosse proibido. Como se alguém sempre tivesse que nos mostrar um caminho. Como se fôssemos incapazes de cuidar de nossos passos. Ainda temos de lidar com o fato de sermos vistas como se fôssemos nós as responsáveis pelos estupros. Pelos espancamentos. Pelos femicídios. Por toda a crueldade que cometem contra nós.

Mas quem espera que todo o lixo que jogaram em cima de mim e de você nos confunda com as mulheres que realmente somos, para continuarmos nos sentindo menores do que a nossa potência, divididas e dominadas feito o que fizeram com Gaia, a nossa Terra, nossa fonte, matéria de que somos feitas, quem espera a nossa derrota, enfim, cairá do cavalo. Mesmo que a luta seja intensa até mesmo entre as irmãs, que é como eles desejam que seja (estarmos umas contra as outras nos enfraquece), nós brilharemos com a luz da verdade que nossas vozes gritarão. O fogo que nos consumiu na Inquisição arde em nossos corações. Nossas línguas são as vozes dos livros queimados. Como se não fôssemos feitas daquilo que nos matou. Como se não estivéssemos revoltadas por termos sido separadas daquilo que nos é natural. Como se a selvagem nunca fosse mostrar os dentes sem sorrir.

Nos amaremos: por isso eles não esperavam. Ainda que com estes corpos e estas mentes e estes corações nunca tenhamos aprendido daqueles que tínhamos como mestres e mestras o que é verdadeiramente o amor. Nos amaremos. Porque é revolucionário que nos amemos. Não sabendo o que é o amor, o amor que começamos a sentir por nós mesmas depois de tanta raiva, tristeza e cansaço. Eles acham que a raiva, a tristeza e o cansaço são a linha do horizonte. Mas nós não somos planas e rasas e o horizonte que eles enxergam é apenas o limite deles. Eles  desconhecem nossos terrenos e estão em desvantagem. O terreno do amor é nosso. O instante-já é instrumento afiado fincado em nossos corações que sangram doloridos, mas continuam batendo. Em nossas veias pulsam o amor que ainda aprenderemos a nos dar. Em homenagem a todas as nossas mortas, a todas as nossas mortes em vida mesmo, nós sobreviveremos. Livres. Que é como nascemos pra ser.

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