Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Maternidade e temporalidade

Em 2012 eu engravidei e mergulhei num tipo de tempo muito diferente do tempo do mundo-máquina. Sou muito grata às experiências que tenho tido desde então, mas compartilhar as dificuldades e problematizá-las faz parte daquilo que eu acredito que eu preciso fazer para me sentir politicamente útil. O mundo patriarcal dividiu o tempo desde a Era Medieval em horas (que em latim significa oração), mas a pressa veio com os mercadantes, que iam cobrar os impostos dos camponeses para que os grandes senhores continuassem ricos e poderosos. Desde então a célebre frase que ouvimos do Seu Madruga, Time is Money (em português: tempo é dinheiro) tem sido a síntese de como vivenciamos o tempo: alimentando a Plutocracia. Ainda vivemos na Idade Média, só que industrializada e tecnológica. A maioria de nós vende seu tempo de trabalho para um dono de empresa, e a lógica é brutal: quanto mais precisamos do dinheiro para alimentarmos nossas famílias e quanto mais braçal e/ou “feminino” é o trabalho desempenhado, menos recebemos pelo tempo trabalhado.

Assim, as tarefas domésticas, a educação e a maternidade têm muito em comum no Brasil: são encaradas como atividades essencialmente femininas e, portanto, mal-remuneradas, realizadas sob um regime patriarcal escravagista. Não é a toa que a terceirização das tarefas domésticas fica sobre as costas da mulher negra e/ou pobre, que os professores precisam lutar por reconhecimento profissional (inclusive financeiramente) e que a maternidade é a mais excluída de todas as tarefas, sem direito a remuneração. A mulher – branca e rica – que quisesse ter uma profissão no início do século XX só poderia ser professora. Até pouco mais de uma década atrás muitos colégios públicos ofereciam, exclusivamente às meninas, o Magistério, curso que durava um ano e que era realizado após a conclusão do que hoje é conhecido como Ensino Médio. A educação de crianças era, portanto, encarada como uma possível distração para as mulheres – brancas e ricas – que queriam exercer uma profissão, e não uma atividade séria, necessária. A Pedagogia deu lugar ao Magistério, o diploma de Ensino Superior passou a ser pré-requisito para se educar crianças, homens passaram a desenvolver esse papel, porém pouco mudou: a profissão professor(a) continua sendo encarada exercício que deve ser realizado “por amor, não por dinheiro”, como bem disse um político tempos atrás.

É na maternidade que o lema “por amor e não por dinheiro” se materializa mais brutalmente desde o início da divisão de trabalho entre os seres humanos. Não à toa: a criança pequena é caótica por natureza, não domina a linguagem, requer atenção e cuidado contínuo o tempo todo. O TEMPO todo. Assim, o serviço pesado de se criar novos seres humanos foi atribuído à mulher. O pensamento patriarcal hierarquizou os seres humanos: o homem é proprietário da mulher e dos filhos, sendo a mulher-mãe a escrava do lar e as crianças seres incapazes que só passarão a ter valor quando passarem a produzir. A menina, nos tempos antigos, era moeda de troca que o patriarca oferecia a outra família para se tornar mãe, o primeiro filho viria a ser o dono das propriedades do pai por direito e os demais filhos seriam guerreiros. Hoje a lógica familiar mudou, mas não para a mãe, que continua sendo, de modo geral, a única pessoa que toma conta dos afazeres domésticos e que cria os filhos. Por amor e não por dinheiro.

Por amor e não por dinheiro, portanto, tem sido a lógica básica que exclui a maternidade da noção de trabalho. O patriarcado limitou o cuidado com as crianças ao campo feminino, com a desculpa de que a mulher é biologicamente construída para esta finalidade, como se o destino fatal de toda mulher fosse: ser mãe. O cruel é que, com a maternidade transformada em uma obrigação para todas, aquelas que desejam ser mães-e-educadoras são encaradas como um perigo social para o desenvolvimento do pensamento feminista. É preciso superar o conceito patriarcal de maternidade para que as mães que escolheram vivenciar experiências de troca íntima e contínua com seus filhos sejam livres. Foi o que eu comecei a fazer quando engravidei. Notei que o tempo que eu começava a experimentar era novo e dolorido, pois não era um tempo socialmente amparado e respeitado. Apesar da dor, do desamparo e de tudo indo contra aquilo que eu decidi experimentar, me entreguei de corpo e alma naquilo que eu sempre havia sonhado viver. E encontrei o tempo do corpo. O tempo que não é dinheiro. Tive de lutar para manter o meu ritmo fluindo. Lutei para parir com dignidade, respeitando o tempo do corpo do meu filho estar pronto para fazer a travessia. Lutei contra médicos, contra o pai dele, contra o medo patriarcal e secular de meu próprio corpo. Lutei e luto contra a necessidade de produzir economicamente, o que me obrigaria a me movimentar no ritmo patriarcal do “tempo é dinheiro” e abrir mão do meu sonho de estar disponível física e emocionalmente para o meu filho em sua primeira infância.

Assumo o privilégio de poder contar com uma pensão para realizar este sonho, mas que se reconheça que esse privilégio não me foi docilmente concedido: ele é fruto de um enfrentamento – individual, estrutural e sistemático -, de muita determinação, de muita dor e lágrimas. Se hoje eu posso amamentar cada vez que meu filho quer, se posso observar seu desenvolvimento com intimidade e sem ter de me dividir com o ritmo do mundo-máquina, isso é uma conquista minha, da qual me orgulho e sobre a qual não deixo que ninguém pise. Sim, eu me empoderei através da maternidade, pois notei que era isso ou meu filho não teria acesso a nada do que eu acredito ser fundamental para toda criança. E me dói saber que o privilégio do meu filho é raridade entre os que têm sua idade. O empoderamento que eu conquistei me pertence, não é algo que tenha de servir de modelo para nenhuma outra mulher a menos que esse desejo parta dela. Esse empoderamento vai muito além da maternidade: ele me torna consciente de tudo o que me escraviza na contemporaneidade. Me faz rejeitar o tempo do calendário. Me faz ter a certeza de que tempo não é dinheiro. Tempo é arte.

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