Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Feminismo também é amor

Ser feminista é maravilhoso e ao mesmo tempo dolorido. Nos torna politicamente mais conscientes das raízes de nossas dores, nos empodera, mas também nos coloca em contato mais íntimo com as angústias que trazemos no peito, no corpo, na mente e na alma. E com as angústias das mulheres ao nosso redor. Mulheres parecidas conosco ou totalmente diferentes, mas, ainda assim, mulheres: negras, brancas, índias, lésbicas, bissexuais, trans* binárias ou não-binárias, hétero, com deficiência, mães, mães solteiras e/ou sexodiversas, casadas, solteiras, não-monogâmicas, pobres e ricas. Participo de um bocado de grupos de discussões feministas e tenho uma crítica a fazer a todas nós, inclusive a mim: tá rolando muita treta. Muita. E o motivo é: reatividade demais, porque estamos incapazes de ouvir, acolher e até mesmo silenciar por um tempo antes de responder. Respondemos no automático. Vejam bem, não estou falando em silenciar para deixar a discussão morrer. É silenciar para refletir: estou oprimindo alguém com vivências diferentes das minhas? Uma mulher que precisa de ajuda e de apoio? Quem é esta mulher com quem estou discutindo? Que tipos de opressão ela tem sofrido diariamente? Ou melhor: quais as opressões ela sofreu hoje? Porque sabemos bem que a luta é todo dia.

Eu compreendo essa reatividade, essa agressividade no automático. Ela é benéfica em diversas situações: quando um engraçadinho mexe com a gente na rua, quando o colega de trabalho nos diminui ou faz piadinha machista, quando um familiar acha que é nosso dono. Mas entre nós, mulheres, ela só atrapalha. Porque aquela moça com quem estamos brigando pode estar se sentindo sozinha e desamparada em diversos níveis. Pode estar no meio do processo de resolver conteúdos traumáticos de violência doméstica (do pai/namorado/marido), violência médica, sexual, de assédio no trabalho. Dores que nos unem. Ou que deveriam nos unir enquanto batemos boca umas com as outras. Somos combativas ao disputarmos poder discursivo e acabamos por pisar em quem pode estar precisando de um abraço. É isso o que desejamos, afinal?

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Precisamos de mais amor na luta. Porque o patriarcado tá aí, firme e forte, contando com homens unidos por um código de conduta baseado em fraternidade machista que protegem seus privilégios, retirando benefícios das dores nossas de cada dia. Não é porque somos mulheres que estamos isentas de oprimirmos outras mulheres. Precisamos nos questionar sempre. Eu tenho meus privilégios como branca e cis, mas sei bem o que é ser oprimida por mulheres pois sou bissexual, mãe solteira que fica em casa o dia todo com o bebê, pobre e não-monogâmica. Então eu aprendi que como branca e cis, eu devo ouvir as negras e trans e aplicar no meu dia a dia o que eu aprendo com elas, não só em discussões, mas na vida cotidiana, em questões práticas. É o que eu espero das mulheres hétero, não-mães, mães-casadas e monogâmicas. Que me ouçam com atenção. Que legitimem as minhas dores e não questionem a minha voz. Que se houver algo errado em meu discurso, me digam com carinho (pois eu sou capaz de aprender) e não com palavras que mais parecem pedras (assim não aprenderei nada, só sentirei raiva e responderei com reatividade). Que não me façam mais chorar quando estou sozinha num mundo cruel, precisando de colo. E suspeito que é desse modo que todas querem ser tratadas, me corrijam se eu estiver errada.

Ganhar discussões não precisa ser o foco da nossa luta. Não estamos numa corrida. Esse clima de competição também é herança do patriarcado, que, unido ao capitalismo, coloca umas contra as outras e naturaliza a agressividade onde deveria haver solidariedade. Especialmente as brancas, classe-média e acadêmicas precisam pensar sobre isso, mulheres que, por saberem muito sobre teoria, acabam internalizando a autoridade professoral e agindo com um certo desprezo com aquela que faz feminismo com o corpo, sem nunca ter sequer folheado um livro feminista. Feminismo não é só teoria. Não é só palavra. Não é só discurso. Feminismo é também uma questão prática. Está em nossas vaginas estupradas, em nossos úteros controlados pelo Estado, em nossos corpos espancados por homens que se acham nossos donos, em nossos corpos fetichizados, em nossos corpos hormonizados ou não, em nossas línguas silenciadas. Levemos em conta as emoções que brotam dos corpos de nossas irmãs de luta. Levemos em conta o feminismo prático, sem hierarquizar teoria e prática feminista. Ambas são igualmente necessárias. Se sabemos que a maioria das mulheres não presta queixa contra seus agressores por falta de apoio, quem esperamos que vá mudar esse quadro? O Estado? Precisamos sim de um sentimento de irmandade entre nós. Quem já recebeu apoio de uma irmã em um momento complicado sabe muito bem o que é ter uma, uma pessoa falando o que precisamos ouvir me meio a tantos ruídos que nos fazem pensar que o que sentimos, desejamos e precisamos fazer é bobagem. Sororidade não é apoio cego a tudo o que uma mulher diz, pensa ou faz. É olhos atentos e ouvidos abertos para compreender o que está sendo dito e também o que não está. É respeito à dor da outra. Sororidade é instrumento de luta que se opõe a fraternidade que oprime a todas nós. Se a violência é a arma do patriarcado, façamos do amor o nosso escudo. Cuidemos mais de nós mesmas e de nossas companheiras de opressão. Não clamo por uma união que apague diferenças. E sim por uma que abrace a diversidade com carinho, respeito, informação.

Que em 2014 possamos aprender mais sobre amor, apoia mútua e sororidade de verdade.

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2 Respostas para “Feminismo também é amor”

  1. C. S. Costa

    Sei que o este post é antigo e que você já não se identifica mais como feminista. Mas confesso que me identifico muito com o que está escrito aqui, então perdoe-me caso eu diga algo que não te representa.

    “(…) tenho uma crítica a fazer a todas nós, inclusive a mim: tá rolando muita treta. Muita. E o motivo é: reatividade demais, porque estamos incapazes de ouvir, acolher e até mesmo silenciar por um tempo antes de responder. ”

    Foi exatamente por causa de brigas desnecessárias que abandonei o grupo interseccional do qual participava. Penso que um grupo como aquele deve ser um espaço de acolhimento, não de brigas. Mas o que percebia era que, muitas vezes, eu precisei me omitir sobre certos assuntos porque sabia que meu ponto de vista seria considerado problemático. Não se podia discordar de ninguém ali que logo começava uma discussão com agressões e disputa de quem era mais oprimida, acusações, etc. Cansei e fui embora.

    “Que se houver algo errado em meu discurso, me digam com carinho (pois eu sou capaz de aprender) e não com palavras que mais parecem pedras (assim não aprenderei nada, só sentirei raiva e responderei com reatividade).”

    Você não está errada, concordo plenamente. Desconstrução é um processo longo e difícil – muito difícil. Se é difícil desconstruir valores sobre nós mesmas enquanto mulheres, é ainda mais difícil quando se trata de outras pessoas. É isso que as pessoas (em geral, não apenas no feminismo) parecem não entender. Faço minhas suas palavras: devemos nos tratar com carinho e não com pedras, pois isso só gera raiva.

    Parabéns pelo texto!

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