Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Discurso materno também pode ser discurso político

Volta e meia rolam umas tretas em espaços feministas quando o assunto é maternidade. Já escrevi a respeito de forma muito passional, pois eu era sempre o alvo de questionamentos injustos, infundados e preconceituosos acerca do meu discurso materno feminista, que, apesar se ser pró-parto digno, pró amamentação, pró criação com apego e pró desescolarização, não se coloca contra a escolha da mulher-mãe pela cesárea informada ou não, nem contra a escolha da mamadeira, nem contra qualquer outra escolha individual relacionada a maternidade. Antes, eu questiono a estrutura que inviabiliza a escolha informada, o que ocasiona a compulsoriedade da cesárea no sistema privado e do parto normal violento no SUS, da mamadeira, das palmadas e da escolarização, e acredito fielmente que questionar a estrutura e o sistema em espaços de discussões políticas é muito diferente de oprimir mulheres em suas decisões como mães. Existe um abismo entre essas duas coisas: questionar estrutura e dizer que as escolhas individuais das mulheres estão erradas.

Desta vez, não fui eu o alvo das críticas, até mesmo porque me retirei dos ambientes em que eu era hostilizada por uma questão de autocuidado e de saúde emocional. Acabou aparecendo um post do Blogueiras Feministas na minha timeline e ocasionalmente eu li os mesmos argumentos questionáveis sendo repetidos, criticando a elitização do movimento pelo parto humanizado, o empoderamento da mulher através do parto e da amamentação e a escolha da maternidade em tempo integral por um viés extremamente duvidoso. É bom frisar que eu acredito que sim, a luta pelo parto humanizado ainda é em sua maioria elitista. Nesse ponto eu concordo com a autora. Porém, discordo da invisibilização das ativistas pelo parto humanizado que se preocupam sim com o recorte de classe, pois elas sequer foram mencionadas. Discordo de ela ter citado como mal exemplo um blog que coincidentemente eu conheço, de onde retirei informações legislativas para peitar o mau atendimento no hospital que queria me obrigar ao exame desnecessário de toque vaginal. O blog da doula que atendeu o meu parto, da mulher que questionou a dupla jornada e o sistema obstétrico no Brasil e que tomou a decisão de deixar pra trás uma carreira que a fazia infeliz para começar uma outra carreira que a representasse mais em seus ideais e em seu ativismo, realizando projetos junto ao SUS e atendendo voluntariamente diversas mulheres que não tinham condições financeiras de parir dignamente. O nome do blog dessa mulher é Mulheres Empoderadas, e a crítica dela foi basicamente a de que o empoderamento não pode ser discutido fora do feminismo. Se a autora era ou não feminista ou o que a autora fez pelas mulheres ela não se deu o trabalho de pesquisar. Sim, a autora é feminista. E o contrário do que ela deixou transparecer em seu texto irresponsável, a autora do blog que foi por ela criticado também é defensora do aborto e de diversas outras pautas feministas, apesar de ter escolhido escrever em seu blog somente sobre questões sobre parto, amamentação e puerpério, por saber que há uma deficiência informativa sobre essas questões. Trocando em miúdos, a autora criticou o recorte elitista da humanização do parto se baseando em um blog cuja autora é realmente ativista pelo parto pra todas, não apenas no discurso, mas na prática. O ativismo na prática não existe se o discurso não o registra? Complicado. De qualquer maneira, era só clicar na aba Autora para saber um pouco mais sobre as ações da autora do blog Mulheres Empoderadas na prática. Nem isso ela fez.

Acredito muito que a crítica ao recorte elitista da humanização do parto, a amamentação, a criação com apego e a desescolarização seja pertinente e o assunto deve mesmo ser debatido. Porém, não da forma como incansavelmente o é. O que eu vejo é o discurso do Feminismo Burguês problematizando a exclusão das mulheres negras, pobres e índias do alcance do movimento, dizendo que as faxineiras e atendentes de loja não tem acesso ao respeito e à dignidade na hora de parir, bandeiras levantadas pelas ativistas do parto humanizado, mas se esquivando de problematizar tão enfaticamente quanto, a escolha das colegas de militância de terem babás e empregadas domésticas. Quão incoerente é essa preocupação com as mulheres negras, pobres e indígenas no que concerne a maternidade quando se faz vista grossa para a repetição da Casa Grande em pleno século XXI? Coincidentemente (ou não), as ativistas pelo parto humanizado, pela amamentação, pela criação com apego e desescolarização são aquelas que levam a política a ferro e fogo pra casa, optando por limparem a própria privada e dividirem as tarefas com seus maridos, seja na base da parceria ou do enfrentamento.

A autora afirma que é temerário o culto exacerbado à mulher que opta por ficar integralmente em casa. Eu, sendo uma dessas mulheres que escolheram ficar em casa, respondo: não há culto algum. O que há, de fato, é uma sociedade capitalista que insiste em me definir a partir daquilo que produzo economicamente. O que produzimos em casa é invisibilizado desde os primórdios do patriarcado, não é reconhecido como trabalho, não nos dá direito a descanso semanal, não nos remunera, não nos dá prestígio, não nos nada. E quando resolvemos abrir a boca para falarmos que EXISTIMOS, TRABALHAMOS e apesar de não sermos economicamente recompensadas AMAMOS o que fazemos e enfrentamos todo o peso da sociedade que nos cobra a dupla jornada, nos deparamos com feministas confundindo nosso discurso excluído com bandeira política, como se saíssemos às ruas gritando palavras de ordem como MULHERES, PAREM DE TRABALHAR! Não existe essa bandeira política como ela quis transparecer no texto. Não existe sequer organização para tal. Aliás, a organização feminista materna é algo totalmente novo, que está engatinhando e sendo massacrado por feministas que acreditam que a maternidade não pode ser pauta política. O que atrasa o movimento, mas também gera respostas à altura.

Está na hora de parar de massacrar as mães que tentam debater a maternidade e toda a sua bagagem prática por um viés político, está na hora de parar de deixar a maternidade fora do campo político, pois isso interessa a quem? Interessa a quem calar as vozes daquelas que se negam a ter empregada doméstica, que se negam a participar de trabalhos que fazem a roda do capitalismo girar fortemente, que trazem o feminismo para dentro de casa questionando relações de poder entre mulher e homem e entre adultos e crianças, que problematizam a infantilização da mulher que é mãe através do poder médico e da família que se acha dona de suas escolhas, que se apoiam entre si quando o assunto é violência doméstica. Está na hora de refletir: a quem serve esse silenciamento? Às mulheres pobres, negras e indígenas é que não. Disso eu tenho absoluta certeza.

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