Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

A via-crúcis da consciência

No princípio era o Nada. Útero vazio como o universo antes de ser criado. Até o big-bang dos cromossomos se colidindo e transformando o vazio em vida nova. Depois era a escuridão. E o coração de minha mãe a ditar o ritmo do fluxo de nossa existência. Não havia medo. Não havia fome. Nem frio ou calor. Nem eu. Nem ela. Éramos um, ligados pela placenta. Meu corpo era um pedaço dela em expansão. Até chegar ao extremo limite: o corpo dela era um extensão do meu em ritmada contração. Depois o túnel estreito e apertado: primeiro abraço antes de sair das sombras para chegar à luz. Do universo à terra. Então água, então ar, então frio, então rostos, então choro, então perplexidade, então cordão cortado, então fome, então eu-pedaço nos braços dela extensão, nós dois ainda um. Então agarrar. Vai placenta, vem seio. Então sugar. E sono. E colo. E fome. E seio. E sono. E colo. E fome. Fome de leite e fome de conexão. Um alimento para duas fomes: o seio para a conexão entre os corpos e o leite para o corpo que me traria um eu. Mas não ainda.

Eu e ela ainda um. Tão um que a fome que eu sentia enquanto dormia fazia seus seios jorrarem e ela-extensão já sabia que em instantes eu-pedaço acordaria. Tão um que ficávamos grudados o dia todo. Tão um que eu-pedaço só me sentia seguro adormecendo em seu colo-extensão. Eu-pedaço era apenas corpo em espasmos e reflexos. Então um sorriso. Então pescoço fortalecido. Então sentei. Um importante passo estava dado: eu não era mais um corpo na horizontal. Verticalizado, pude observar, sozinho, o espaço da sala. Pela primeira vez desejei um objeto fora de meu alcance. Um objeto que não era o seio. A partir do desejo do objeto que não veio até a minha mão quando chorei da mesma maneira que o seio vem, um primeiro lampejo de consciência: eu sou eu. Eu não sou o objeto que quero porque se fosse ele estaria em minhas mãos. Então eu não sou o seio. Então eu não sou minha mãe. Não sou pedaço: sou inteiro. Minha mãe não é extensão: ela é ela. E da sensação da separação, veio a angústia. A angústia de ser um eu e o medo da solidão e do abandono. Então seio para aliviar o desamparo. Seio para experimentar a conexão. Seio para acalmar a angústia e saciar a fome.

Eu sou eu. E tenho mais uma fome agora: de mundo. Desafio meu corpo para buscá-lo e logo aprendo a engatinhar. Busco o que desejo. Caio, bato a cabeça, experimento a dor. Não há busca sem dor. Choro intensamente nos primeiros tombos. Choro e quero voltar a ser pedaço. Choro e seio. Choro e colo. Acalmo e chão. Caio novamente e aprendo a me defender da dureza do solo. Me esquivo. Eu sou eu. Agora só choro se dói muito. Já me acostumei ao susto da autonomia. Acostumado, corro disparado em direção de um brinquedo e me afasto de minha mãe. Me afasto até não vê-la. O que eu não vejo não existe. Choro de angústia, medo, abandono. Ela me pega, me abraça e diz que está aqui. Mamãe está aqui e não vai embora. Brinca de “cadê? achou!” para que eu compreenda que o que não vejo continua existindo. Mas a permanência é um conceito difícil que levarei anos pra aprender. Dois, talvez. A dor da separação é urgente. É como se eu fosse morrer. Por isso caio em profundo pranto quando me sinto só. Não é fácil aprender que sou um eu. Ser um eu dói. Mas não o suficiente para me fazer desistir de seguir adiante. Já fico em pé, escalo os móveis e solto as mãos. Ser eu é um desafio que o meu corpo me apresenta a cada nascer de sol. E assim será sempre. Até o dia em que eu descobrir que a separação é uma ilusão. Que a consciência é infinita. Que eu somos nós dentro do útero de um planeta girando em torno de si no meio do Nada.

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