Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Clarice Lispector me ajudando

Clarice, você escreveu que um dos sentimentos mais urgentes que existe é a necessidade primeira logo depois de nascer: o senso de pertencimento. Ah, Clarice, como é bom discordar de você! Quantos anos passei enfeitiçada pela tua escrita mágica, de tão verdadeira, profunda e intensa que é? E caoticamente organizada. Você é impecável, Clarice. Tanto que nutri e nutro uma paixão literária por tudo o que você fez. Você mudou um mundo, mulher: eu. Um mundo, a mulher e eu. Com a sua voz, deu a compreensão de mim mesma, mas não fez com que eu sentisse que te pertencia. E tudo bem eu escrever “mim mesma” porque você, deusa, também escrevia dessa forma. De você eu tive a compreensão que eu precisava mas que foi negada pelo mundo. De você e de outras mulheres, mas você… você chegou onde ninguém havia ido, nem mesmo eu. Nos encontramos no porão. Eu, que sempre amei a vista da laje onde me sentia finalmente isolada do mundo. Escondida. É, mulher, você me deu a mão. Mas não foi minha dona. Só me ofereceu outros pontos de vista. Me compreendeu como uma mãe que ama sua filha. Porque foi assim que você se abraçou: menina, criança, sensorial, cheia de fé, questionadora, política. E ao se abraçar, você me abraçou também. Amo quem me abraça. Com o corpo e com a alma ou com palavras. Com verdade. Amo o amor dentro do abraço do outro. E tinha muito abraço nas suas palavras. Muito amor também. O teu a ti. O teu ao mundo. O teu à mulher. O teu a mim. Ai, Clarice, que bom discordar de você sem me sentir mal por isso. Estou certa de que você me entenderia. É que eu acho que o sentimento mais urgente de todos é sim aquele que experimentamos tão logo somos separados do útero.

Mas não desejamos pertencer a ninguém. Desejamos?

Não, a liberdade é a nossa substância, Clarice, humana. O desejo primeiro é outro. O abraço pelo qual procuramos no seio da mãe. Tua obra, Clarice, é literalmente o meu grande seio. Teu fluxo me fluxa. Eu fluo, líquida, dentro do teu calor, do teu colo quentinho com cheiro de livro. Sua voz me embala e assopra minha ferida. Mas me desculpe, Clarice, eu discordo de você. Você mostrou a mim a liberdade de me ser, não fez de mim a sua propriedade: me deu asas. E eu voei, Clarice, agora não quero voltar para o chão. Eu me compreendi através de você e achava que não poderia questionar a sua autoridade, mas eu podia. Sempre pude. Se tua obra, teu seio, teu abraço me salvaram a vida, e ainda assim sinto que não te pertenço, tenho uma ideia bastante real do que é a necessidade mais urgente de um ser-humano-bebê, Clarice: é a de se sentir uma pessoa amada. Você nem me conhece. Nem vai conhecer. Ou vai. Vai que, né? Nunca se sabe o que pode acontecer no depois-de-aqui. Sou cética até com o ceticismo. Mas você me amou, Clarice. E me salvou. Escrevia para salvar a si. Você se amou em seus livros. Se amar é se salvar. Dissipada pelas suas personagens nada óbvias que eram um modo de se ser sem se sentir posse de ninguém, você dava um jeito de se ouvir e se abraçar e dizer a si mesma: eu existo, eu existo, eu existo. Existo e não pertenço a ninguém. Você se amou na sua obra. Eu me amei em você, viva nas palavras, viva num livro que começou com uma vírgula, viva na próxima página, e na próxima, e rápido, e na próxima, e na solidão do fim do livro. Daí eu me compreendi: é isso o que o amor é. Sentido. E não vem de fora: vem da existência. Por um breve momento, pode ser poeticamente soprado na alma de alguém: duas existências se comunicando com amor. É o leite materno que nutre o corpo do espírito. Espírito que é a mente e que afaga o coração. Coração que é o que me mantém existindo através da minha respiração entecortada por palavras e silêncios. Gratidão, Clarice.

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