Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Divagações pessoais sobre o amor materno

Eu estava quase dormindo quando. De repente, respondi mentalmente perguntas que vinha fazendo ao mais íntimo de mim. Tenho muitas epifanias de surpresa. Respostas doloridas e solitárias, das que só a gente pode se dar. A verdade é que preciso de um amor que não receberei. Assim, nunca. Devo aceitar que não, pois ninguém é obrigado a amar ninguém. Nem uma mãe é obrigada a amar sua própria filha. De um amor intermitente, digo. Ou incondicional, como queiram. O mesmo que me esforço para dar ao meu filho. Não por ser mãe dele, não pelo papel social  que querem me ver interpretando ao cuidar dele, não porque é obrigação da mulher, mas por ser eu uma adulta responsável e por ele ser um bebê frágil que não tem por perto outro adulto que se sinta tão responsável quanto eu, um ser que por não ter aprendido a linguagem verbal ainda é aculturado, sem preconceitos, ou em outras palavras, puro. E por ser puro, não há manipulações: há total transparência. Cada mínimo choro representa uma necessidade de receber. Ele é feito da mais pura necessidade de recepção. E o tempo todo recebe. Recebe tudo o que eu tenho a oferecer, sem miséria alguma. Dou a ele todo o amor que sou capaz de dar.

Não há perfeição em minha oferta: eu erro. Sou defectível. Mas nunca me conformo e sigo me superando, sou proativa em aprender a amar. Eu já fui como ele e isso dói. Dói porque em algum momento da vida eu achei que não merecia mais receber. Quem fez isso comigo? Não fui eu. Quem foi a primeira pessoa que me virou as costas quando eu, ainda pura, chorava por algo que se negavam a me dar? Amor, não dinheiro. Tempo, não brinquedos caros. Conexão, não narcisismo parental. Então eu pari. E em franco trabalho de parto, sozinha, no banheiro, tremi e temi. Temi como se eu voltasse a ser a pequena criança que quer pedir socorro mas que já não sabe mais se terá seus sentimentos legitimados ou não. Hesitei. Pedir ou não pedir socorro à minha mãe? Eu, treinada a não pedir, neguei anos de programação mental e ultrapassei minhas próprias barreiras. Foram longos minutos de indecisão até a entrega final ao pedido que estava sufocado e impregnado em cada célula do meu corpo. Pedi, fui socorrida e senti, ao pegar na mão de minha mãe, que nós duas estávamos nascendo novamente. Me esparramei em lágrimas e ela também. Não sei por que ela chorou, mas sei porque eu chorei. Chorei porque foram raros os momentos em que me senti amada e amparada pela minha mãe, pelo passado dolorido, pela esperança de que a partir daquele momento eu sentiria mais vezes o amor da parte dela. Não pensei em nada disso na hora, todas as conclusões têm sido construídas há pouco tempo. Eu me entreguei ao colo que finalmente ela me ofereceu. Foi crucial a presença dela no meu parto. Senti ali que eu tinha uma mãe. Foi um gatilho para que as contrações ritmassem, para que eu me desconectasse da realidade objetiva para mergulhar na partolândia. Sou grata por isso.

Gostaria de sentir mais gratidão. Gratidão por ter sido amada pela minha mãe no dia em que eu estava me tornando mãe. Mas ainda sinto rancor. Feio? Tento não reprimir meus sentimentos. A repressão impede a transmutação. Meu rancor não é do passado, mas do atualíssimo presente: pela expectativa frustrada de que agora ela passaria a me enxergar profundamente. Eu me enganei. Achei que depois de ela ver o quanto lutei por tudo aquilo deixando o cara que me engravidou e me tratou como lixo pra trás, o quanto me informei para conseguir um parto respeitoso, o quanto precisei de apoio emocional – só uma mão dada e o silêncio da presença intensa-, depois de tanta superação em tão pouco tempo, ela iria parar de querer que eu fosse como ela e me respeitasse como eu sou. Que me amasse como eu sou. Mas já no primeiro dia do pós-parto tudo voltou ao que era antes, e agora, quase seis meses depois, me sinto sufocada pela expectativa de ser amada por ela. De nada ela tem culpa. Eu gostaria de saber mais sobre as dificuldades dela, queria entender os motivos de tanta falta de amor, e eu sei: não é fácil amar. É preciso aprender, amando.

Para aprender é preciso querer. Eu ainda não sei. A humanidade ainda não sabe. Eu não sou diferente da minha mãe, exceto pelo desejo genuíno de aprender a amar. Pois eu desejo o amor, um amor que só eu sou capaz de me dar. O amor que eu desejava ter é o de minha mãe. Mas ela tem amor pra se dar? Desconfio entristecida que não, e é assim que não a responsabilizo, pior do que ela não poder me amar é ela não se dar esse amor. Se contentar com migalhas, ter de esconder suas vulnerabilidades na base da força e do desprezo, no controle das pessoas ao redor, acreditar tão pouco em si a ponto de não construir autonomia e cobrar com fúria que os demais se coloquem a serviço de seus desejos, se submeter aos desejos alheios quando se vê em franca desvantagem. Em algum nível isso também faz parte de mim. Como cobrar amor? Por acaso eu o tenho para dar? Ou eu barganho, dou afeto e atenção esperando algo em troca para preencher o buraco que a falta do amor dela me causa? Eu faço isso. Como dói, como dói, me ver tão nua. Atravessar a matéria me olhando o outro, espelho de minha alma. Há cinco anos que matei deus. Foi uma morte lenta. De início senti culpa. Medo. Entoxiquei meu corpo órfão do criador separado, juiz e executor da sentença final. Só agora me sinto em paz com esse assassinato. Também preciso matar simbolicamente a minha mãe. O meu buraco de amor não é mais responsabilidade dela.

Estou matando minha mãe. Culpa e medo novamente, como quando matei deus. Mas há o que me anima: depois de morto, aquilo que tinha um nome – deus – se tornou outra coisa: a energia da criação. Não é mais o pai castrador. É um movimento e está dentro de cada um de nós. Estou com medo da dor de matar a minha mãe. Mas é o que eu preciso para curar o que nos separa, que é o símbolo materno, o que me faz desejar doentiamente um amor de uma pessoa que mal aprendeu a se amar, só por causa de um papel que eu acredito que ela deveria interpretar: o de minha mãe. Ela é apenas uma pessoa. O que nos difere é a percepção que temos do mundo e de nós mesmas, não sou superior por desejar aprender o amor, muito embora, confesso, em alguns momentos me sinto superior, o que é problemático. É nisso que somos iguais: no senso compulsório de superioridade que vem do poder, e poder é nada mais do que falta de amor. Enquanto escrevo me descubro. Horrorizada fico com a vontade de ser amada por ela. Essa necessidade anula a minha potência de me autoamar, e anula também o ser humano que ela é. A verdade é que eu preciso de um amor que nunca receberei a não ser que eu me torne capaz de me dar. De minha mãe não virá. Preciso matar minha mãe. O símbolo. O papel que gostaria que ela interpretasse. Mas como? Sendo minha própria mãe para que eu possa ser mãe do meu filho. Para que ele não herde de mim o buraco que herdei dela e que ela herdou do mundo. O buraco negro da falta de amor cujo sintoma é a vontade de poder e dominação, que é o que separa toda a humanidade do maior potencial do ser humano. O potencial da amar incondicionalmente. Que eu me torne, enfim, capaz de verdadeiramente amar.

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5 Respostas para “Divagações pessoais sobre o amor materno”

  1. Marina Matos

    Fui lendo e fui sendo tomada por um sentimento tão forte. Todo meu apoio e a minha admiração, Natacha, você é uma mulher incrível.
    Acho que posso dizer que sei como é se sentir assim, apesar de cada uma ter sua própria história.
    Mesmo que tenhamos memórias doídas, sempre podemos transmutar e olhar tudo por um ponto de vista diferente. Não muda o que nos aconteceu, nem a dor que já sentimos, mas nos faz mais conscientes de nós mesmas e nos dá a possibilidade de fazer diferente e de colocar tudo isso num lugar que não mais nos machuque.

    Abraço apertado,
    Marina

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  2. Dani

    Ao ler esse texto, pensei que se tratava de minha história, relatada (tão bem) por vc. Me senti igualmente nua. Também sinto esse desejo louco de ser amada por minha mãe, sinto um rancor profundo que me acorrenta e decidi matá-la há alguns anos. Isso me libertou para eu ser mais mãe para os meus filhos, embora perceba que a minha maternagem com a minha filha mais velha tenha sido prejudicada nesse período em que eu tentava desesperadamente ser aceita…hoje me sinto mais livre. Não totalmente.

    Um abraço forte em vc.
    Que bom te conhecer!

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  3. Marianna

    Algumas pessoas são incapazes de amar, de estabelecer vínculos afetivos e outras não enxergam a vida sem amor. E quando a primeira é a mãe e a segunda, a filha? São muitos os casos. Cada uma de nós encontra solução própria para seguir vivendo. Recomendo às leitoras do blog, o livro “Nem todas as mães amam os filhos”, de Rose Ferreira. Uma história real e comovente sobre a busca do amor materno, a violência sofrida e a superação na medida do possível, porque não somos e não queremos ser heroínas.
    Sobre o livro: http://livrosqueemocionam.wix.com/nem-todas-as-maes

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    • milfwtf

      Puxa, Marianna, só o seu comentário já me deu um clique aqui. Algumas pessoas são incapazes de estabelecer vínculos afetivos. É tão, tão óbvio! Como eu nunca pensei nisso antes? Me livra do peso da culpa por não ser suficientemente boa para ser amada. Interessadísima pelo livro indicado, e muito, muito grata pelas suas palavras.

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