Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

A princesa interesseira

Era uma vez um casal feliz. Um casal feito por duas pessoas cheias de objetivos profissionais, metas pessoais. Dois sonhadores: ele e ela. Dois indivíduos que compartilhavam suas angústias decorrentes do dia a dia no trabalho. Que dividiam todas as contas, porque afinal ela era uma mulher independente, que fazia questão de se bancar, por mais que ele fizesse beicinho e quisesse fazer o papel conservador de cavalheiro, de homem provedor. Até mesmo quando ele aparecia com uma proposta irrecusável de viagem, ela recusava se não tivesse dinheiro para dividir os custos de forma justa. Uma viagem que ela mesma sonhava fazer. Mas não desse jeito. Não assim. Ela nunca foi o tipo de pessoa que se sentia à vontade sob o favor financeiro alheio. Depender prendia-lhe os movimentos. Nem mesmo um sorvete era capaz de pedir caso estivesse com vontade e sem grana. E ela seguia sendo assim, sendo ela, ainda que ele dissesse que tudo isso era uma imensa besteira de sua parte, que dinheiro era papel, que ela não deveria se preocupar tanto assim.

Até que um dia a moça engravidou, no meio de uma troca de empregos. Ficou com uma mão na frente e outra atrás, pois não havia ainda assinado o contrato de trabalho e perdeu a vaga por estar grávida. Entrou em uma depressão, uma vez que não produzir em uma sociedade capitalista é quase a mesma coisa que não existir. Mas decidiu ter o filho, sempre sonhou com a maternidade. Aliás, os dois sonhavam juntos. Era um sonho compartilhado. Ela foi viver com ele. Queria uma família. Achava que teria. Mudou de estado, ficou longe dos amigos, dos pais, da vida que levava. Presa, era como ela se sentia. Tolhida. Exatamente do jeito que evitava se sentir quando negava a ele as viagens que ele oferecia. Ir ao supermercado era uma tortura. Era uma tortura não ter seu próprio dinheiro e comprar o que sentisse vontade de comer. Grávida. Nada ela exigia a não ser frutas, legumes e verduras. Queria se alimentar minimamente bem, coisa a que ele não estava nada acostumado. Ele vivia na base dos nuggets e de coca-cola. E seu semblante enquanto ela escolhia seus alimentos de grávida não escondia a reprovação aos novos gastos. Junto ao caixa, ele reclamava do valor da compra. “Temos que economizar”, ele dizia. E ela, se sentindo culpada, pensava no que poderia retirar das listas na próxima vez.

Eles não eram mais um casal feliz. O dinheiro, papel que não tinha nenhuma importância, passou a importar mais do que a alimentação saudável que ela desejava para si e para o filho. O sonho que eles compartilhavam passou a ganhar contornos e peso de um pesadelo. A depressão dela se agravou. Brigaram. Ela foi embora da cidade. Mas ele queria o filho por perto. O filho que estava no útero dela. Então ele pediu desculpas e ela acreditou. No quarto mês de gravidez, voltou a morar com ele, acreditando que formariam uma família. Nada havia mudado. Não. Os primeiros dias foram bons. Mas depois tudo piorou. Até o dia em que ele disse a ela que suas calcinhas eram velhas e que por isso, entre outras coisas, ele não a desejava mais. As únicas calcinhas que serviam nela realmente eram as mais velhas, mas ela não tinha dinheiro para comprar novas, e se ele reclamava até dos gastos com alimentação, como é que ela se sentiria do direito de pedir-lhe calcinhas novas? E como é que ele era capaz de reduzi-la a calcinhas? Sentiu-se o pior dos objetos. Chorou tudo o que tinha que chorar e foi embora. Definitivamente. Ao exigir a pensão, foi chamada de interesseira. E os dois não viveram felizes para sempre.

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