Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Estômago adulto

A realidade é indigesta. O bebê ainda não sabe disso, leva tudo à boca, tem fome de mundo. Sinto ternura pelo bebê. Também sinto meu coração alargado por vê-lo vivendo feliz para além de sua inconsciência. O bebê me ensina a felicidade possível. Meu coração se apequenina ao compreender que a troca é injusta: terei de mediar seu aprendizado enquanto ele descobre que também existe a infelicidade. Que o mundo não cabe na boca. Um dia ele perceberá seu próprio corpo triste por não poder levar um objeto perigoso à boca. Enquanto não toma consciência do nome do que sente, extravasa com gritos, choro, irritação, braços socando o ar, pés chutando o vazio. Um dia terei de dizer a ele o nome do que ele sente. Você sente tristeza, bebê. E ele se reorganizará neurologicamente até que compreenda o próprio sentimento. Até ele se tornar uma criança que saiba dizer: estou triste. Neste dia, ele não sentirá mais tristeza por não poder levar um objeto à boca. Será uma tristeza mais abstrata, como a que eu mesma sinto agora. Não menor do que a tristeza do corpo. Não maior. Apenas somada.Tristeza de quem é obrigado a engolir uma realidade que antecede nossa existência. Tristeza de fome. Fome de mundo. Não fome deste mundo, mas de um outro: um que não contraia o estômago, um que não nos faça sentir náusea, um que não nos faça sentir vontade de vomitar.

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