Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Carta de uma ex-sonhadora aos seus pais

Vocês são mais altos. Mais fortes. Mais levados a sério socialmente do que eu. Acham que eu não noto que o que eu tenho a dizer é irrelevante quando, em uma “conversa de adultos”, vocês me mandam calar a boca enquanto os mais velhos têm o direito de falar, rir e trocar ideias livremente. E assim não ouvem o que eu tenho a dizer. O que seria muito importante pra mim que eu dissesse. Mas que sei lá porque eu não posso. Devo esperar a minha vez. Que nunca chega. E quando nas raras vezes em que a minha palavra é permitida, sou obrigada a ouvir que estou exagerando, que um dia vou crescer e entender que tudo o que vocês fazem por mim é pro meu bem. Choro de raiva, de abandono e de impotência, por saber que se continuar me expressando serei corrigida com um tapa, um puxão de cabelo ou de orelha. Me calo para preservar o meu corpo, que já não tenho mais certeza se pertence a mim ou a vocês. Indignados com o meu choro, vocês me mandam engoli-lo. Aos berros: engole esse choro ou você vai ter um motivo verdadeiro pra chorar. Engulo, jurando uma vingança que em algumas horas terei de esquecer porque não tenho escolha. Engulo. Duvidando do que eu sinto, já que vocês me disseram que meus sentimentos não eram um motivo verdadeiro pra que eu me acabasse em lágrimas.

Vou aprendendo a não ser eu mesma diante de vocês até o momento em que já perdi a referência de mim. Quem sou eu? Perdida em minha própria casa. Sonho com a liberdade de me pertencer. Na escola, sou boa aluna. Gosto de aprender coisas novas: elas me salvam do meu mundo sombrio. A maioria dos meus professores me lembram vocês. Não confio em quase nenhum, exceto naquela professora que olha nos meus olhos e alisa meus cabelos. Ela parece gostar de mim. Invejo a liberdade de algumas colegas. Por que não me pareço com elas? Sinto que tenho algum defeito. Sou distraída, vivo perdendo meu material escolar, minhas blusas de frio, esquecendo de fazer os deveres de casa. Vocês me dizem que eu sou relaxada, preguiçosa, inútil. Não sabem que a distração é meu modo de me salvar do que vocês tentam me fazer acreditar que eu sou. Minha distração é a minha resistência. Explico: enquanto eu tiro a blusa da cintura e coloco embaixo da carteira, fico pensando no que tem de errado comigo, no choro que eu tive que engolir, na vingança que eu não cometi e faço planos de ser forte, aguentar firme até eu ter idade pra trabalhar e me sustentar. É, eu penso, vocês não sabiam? E vou embora, mergulhada dentro de mim, sem a minha blusa.

Eu penso nos meus problemas, mas vocês chamam isso de distração. Vocês e os professores da escola. O fato de eu pensar parece um problema pra todos. Sentar pra conversar comigo e me ajudar a resolver essas questões que no fundo nem minhas são seria trabalhoso demais para vocês. Como resolver o problema em que me tornei? Vamos levá-la ao psiquiatra. Essa garota não é normal. Essa garota não é normal. Essa garota. Não é normal. Normal? Eu não sou normal. Eu sou exagerada, meu corpo não me pertence, meus sentimentos não são válidos, sou relaxada, preguiçosa, inútil, distraída. Não sou normal. O psiquiatra confirmou: eu tenho um distúrbio. Déficit de Atenção. Serei medicada, o remédio vai me ajudar a não ser mais uma garota distraída, disse o bondoso doutor a vocês. Como ele é bom. Estudou a vida inteira para ajudar pais incríveis como vocês a lidar com filhas problemáticas como eu.

Começo a tomar a medicação. Em poucos dias, passo a me sentir distante da realidade, da minha realidade. Mas não o bastante para que eu queira largar a minha rotina escolar. É uma distância segura. Não pra mim, mas pro que vocês esperam de mim. Desisti de quem eu era. Desisti. Sou o que vocês querem que eu seja. É bom ouvir elogios. Mesmo que o mérito seja da Ritalina, é bom. Finalmente me sinto amada. Não sinto mais vontade de expor meus pensamentos na sua roda de amigos. Não sinto mais vontade de me vingar, pois não provoco mais a violência e a impaciência de vocês. Não sinto mais. Do jeitinho que vocês queriam. Não preciso mais sonhar.

*Este é um texto fictício escrito por uma mulher que foi diagnosticada TDAH aos 24 anos, tomou o remédio, deixou de sentir e, inconformada, largou a medicação. Preferiu ser distraída a vida inteira a abrir mão de sua personalidade.

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4 Respostas para “Carta de uma ex-sonhadora aos seus pais”

  1. Maíra Castanheiro

    é a escolarização. aprendemos tudo sob ameaças e chantagens, reprimindo nossos corpos, desejos, nos impedindo dos verdadeiros saberes e conhecimentos. A família, a escola, todos nos querem “educados” e obedientes.

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  2. Nayra Brighi

    “Me identifiquei tanto que até assustei.”
    Mas recusei o remédio antes de tomá-lo, e me receitaram com 16 anos.

    Mas que seria bacana que esse sentimento de vingança passasse… Isso seria!

    Nesse momento deixa de ser clichê aquele velho pensamento: “nunca farei isso com a minha filha”! Prefiro qualquer ato de rebeldia dela ao ódio que já senti dos meus pais.

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