Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Primeiras impressões sobre o puerpério

De repente, no meio da madrugada, depois de um dia muito cansativo de bebê ao peito o dia todo, com sonequinhas que duraram muito pouco, meu corpo mole e meus olhos pesados, ela aparece: a sombra. O corpo da hoje mãe lembra que já foi filho pequeno, pequenino e lembra de todo o abandono que um dia sentiu. A consciência, porém, falha. Só o corpo sabe da verdade que em palavras eu nunca saberei. Sinto aquele nervoso subindo pelas minhas veias, estou cansada, com sono, você não vai dormir não?

Luto. Por alguns minutos luto psicologicamente contra uma necessidade de um ser que está sob minha responsabilidade (embora fisicamente ele esteja no peito e minha voz esteja calma conversando com ele, tentando acalmá-lo), um ser que precisa do meu amor e de minha dedicação, um ser que não me dá tempo para elaborar a sombra e contorná-la pois o tempo da necessidade de um bebê é um eterno presente e é por isso que ele está agora mesmo sugando meu seio e ouvindo suavidades. Só se contorna a sombra do puerpério agindo racionalmente, ainda que se esteja no meio do turbilhão de emoções. Há que se proteger os inocentes daquilo que não nos protegeram.

A impaciência ficará só no campo das sensações, não se transformará em ação. Mas o que faço com ela? Meu filho me mostra as partes difíceis de mim, as que não são bonitas, as que me deixam envergonhada. Respiro. Tremo por dentro. Músculos tensos. Um grito de chega parado na garganta. Não, a repressão não é o caminho. A verdade precisa libertar a mim e assim libertar o meu filho.

Ele, hoje, é água cristalina refletindo quem eu sou sem que eu possa escolher meu melhor ângulo. Pelo contrário: o puerpério é a vidinha que está em minhas mãos me mostrando o ângulo que sempre escondi nos retratos que tirei ao longo de minha história. Mas que pretendo aprender a olhar com lucidez mesmo que doa.

E dói.

Mas dói como parir. É uma dor boa de se sentir, porque ela traz pra cada vez mais perto de mim a mãe que eu quero ser para o Théo. Do mesmo jeito que as contrações traziam cada vez mais o Théo para mim.

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