Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Maternidade, carreira e feminismo intersecional

A maternidade rondou meu coração por toda a minha vida, desde pequena. Nomeiem como quiserem: chamado biológico numa extremidade, papel socialmente cobrado das mulheres na outra, já não me importo mais com nomenclaturas. Ser mãe é inominável para quem, como eu, sempre desejou ter um filho. No meu caso o desejo era tão forte que cheguei a, adolescente, escrever meus diários imaginando como o rebento leria e dedicando os escritos a ele, o que significa que o formato de educação sem segredos e tabus que eu tenho hoje já vem de lá de trás, daquela menina romântica, sonhadora e, ao mesmo tempo rebelde que queria ser mãe para dar o amor que achava que merecia ela mesma receber dos pais. A mãe que existe em mim, portanto, não é tão nova assim. Ela existia aqui dentro em estado de semente. Eu definitivamente nasci pra ser mãe. Não porque sou mulher, isso não basta e nem tem que bastar. Mas porque eu sou eu. Muitas mulheres não querem ser mães e seria muito bom se todas elas fossem respeitadas em suas vontades. O dia em que os corpos das mulheres pertencerem a elas e não ao Estado, à sociedade, à igreja, à família ou a quem quer que seja que não a elas e só a elas, as crianças provavelmente terão uma família mais conectada com suas necessidades infantis, pois a obrigação dará lugar à escolha e o fardo ao prazer. Pra mim, como ser humano e não como mulher, a coisa mais preciosa que existe no mundo é o despertar e o desenvolvimento de uma pessoa, especialmente na infância. Exercer o papel pedagógico de mãe-cuidadora e facilitadora da aprendizagem é estar mergulhada em um mar de experiências humanas profundas, ricas e transformadoras, sobre o outro e sobre mim. Dessa forma, a educação do meu filho é prioridade zero na minha vida. Eu seria uma pessoa muito infeliz se tivesse que exercer uma função econômica que, neste momento, em seis meses ou em um ano, me afastasse do Théo.

Sempre fui o tipo de pessoa que se entrega de corpo e alma àquilo que faz. Foi assim que eu conquistei tudo o que desejei educacional e profissionalmente: me jogando na vida, cavando oportunidades. Nesse sentido, nada me foi muito difícil, contrariando aquela máxima de que nada cai do céu. Nunca quis ter carro, casa, status, coisas caras, nunca fui do tipo de pessoa que liga para propriedades. Tudo o que quis verdadeiramente, eu conquistei, porque nunca quis nada além daquilo que me faria feliz de verdade. Me bastou desejar profundamente e fazer as escolhas que meu coração me mandavam fazer. Foi assim que aprendi a ler, foi assim que desenvolvi a minha linguagem poética, foi assim que me formei, foi assim que ingressei na profissão que escolhi pra mim, foi assim que troquei de área quando quis, destroquei quando desquis o que queria, troquei de novo quando cansei do que não queria mais. Fui estoquista, vendedora de loja de shopping (pra pagar minha faculdade), redatora freelancer, redatora contratada, analista de marketing, redatora novamente. Sempre sonhando em ser educadora,mas extremamente incomodada com algo que eu não sabia o que era, até engravidar (assunto para outro post). Depois, quando quis me envolver mais com o universo do entretenimento musical noturno, vulgo baladas, me tornei produtora de eventos, gerente de comunicação e community manager em uma empresa só. Dei meu sangue em todos os projetos dos quais participei e sempre fui vista como uma profissional competente e dedicada. Nunca o fui por querer melhorar meu salário ou conquistar uma posição mais alta na escala de hierarquia de uma empresa, pelo contrário: ao mudar de área, meu salário retrocedia, mas e daí? Sempre valeu a pena seguir a minha natureza, que é de aproveitar as experiências pelo que elas têm a me ensinar. Se eu buscava algum tipo de bônus, nunca era o financeiro, mas sim o meu desenvolvimento pessoal. Dinheiro, na minha vida, sempre foi consequência.

Depois de ler esse texto da Anne Rammi, soltei enfim o que estava preso no meu peito, o que eu sabia, mas não conseguia transformar em palavras: EU NÃO SOU CARREIRISTA. Se fosse, teria permanecido redatora publicitária forever end ever, nunca teria saído da área para experimentar outras possibilidades. Sou, essencialmente, uma profissional da linguagem. Sou, antes de tudo, poeta vagal que só lê aquilo pelo que se interessa, que não baba ovo de poetas que não falem alto ao coração, não importa o quanto os críticos e acadêmicos os exaltem. Que sente cheiro de vaidade de longe, que prefere mil vezes o erro ortográfico à arrogância do acerto de peito estufado e dedos apontados para as falhas alheias. Que escreve em primeira pessoa não porque é egocêntrica, mas porque sente que a única verdade que pode expressar é aquela que passa primeiro pelo próprio corpo, que se materializa pelas mãos, pelos olhos, pela pele, pelo eu-corpo-e-alma. A filosofia que está fora do corpo, pra mim, é vã, é vaidade e é vilã, porque é competitiva: uma disputa teórica e chata da qual eu faço questão de não participar. Puro blá-blá-blá. Atraso de vida.

Juntando todas essas minhas características, o sonho de ser mãe, a paixão pela poesia, a promiscuidade profissional, a entrega total às experiências que escolho viver, nada faria mais sentido do que me dedicar integralmente ao meu filho em sua primeira infância. Revirar a minha vida do avesso pra manter a prioridade onde deve ficar. Já passei tantas noites em claro por causa de estudo, por causa de um projeto importante pra entregar. Não consigo compreender por que é que as pessoas se horrorizam tanto quando exponho meu desejo de grudar temporariamente na minha cria. O pequeno é meu novo projeto de vida. A graduação pela qual eu esperei 27 anos para ingressar. Não vou abrir mão disso. Não vou terceirizar a educação e o amor do meu rebento sendo eu uma mãe apaixonada por educação, tendo sonhado com isso a vida inteira. Não me conformo com uma sociedade que aplaude quando você abdica da sua vida para entregar aquele projeto e ser promovida e torce o nariz quando você abdica de certos privilégios para criar o ser humano que colocou no mundo. Não me conformo com uma sociedade que enxerga a maternidade como um simples papel social de gênero, que na cabeça de uns precisa ser seguido à risca, e na cabeça de outros precisa ser evitado pra não pagarmos de submissa. No fim das contas, dentro dessa lógica, mulheres-mães não temos acesso a liberdade: escolhemos entre uma submissão e outra ou as duas pela metade. Lar ou mercado, lar e mercado. E se fugimos disso, os demais se irritam e tentam, desesperadamente, nos encaixar em um dos dois lados, como se a vida fosse um joguinho de cara e coroa. Binarismo chato.

Não me conformo, como feminista que sou, com o feminismo branco-classe-média-neoliberal que acha que mãe livre é mãe que não abdica de sua carreira pra cuidar do filho, tipo o da Badinter. Como se abdicar da carreira fosse abdicar da vida profissional e da autonomia econômica como um todo e para sempre. Como se todas as mulheres tivessem a obrigação de se importar em ter uma carreira – o que é diferente de exercer uma profissão. No meu caso, ter abdicado das profissões que eu exercia me colocou (em até certo ponto) em uma situação de vulnerabilidade e dependência sim, mas também me fez encarar o que há muito tempo me incomodava: a submissão da classe trabalhadora à exploração dos empresários dentro da publicidade. A gravidez me colocou cara a cara com a verdade nua e crua e a verdade nua e crua é cruel: por estar grávida, perdi uma oportunidade de trabalho que já estava certa. É pra esse mercado que quero abaixar a cabeça? É pra esse mercado que quero voltar correndo com o rabinho entre as pernas e coração sangrando assim que meu filho completar seis meses de idade, fingindo que não fui inutilizada, fingindo que tá tudo bem encarar novamente o corre-corre enquanto meu filho se desenvolve numa creche qualquer e eu perco a preciosidade de cada detalhe do seu crescimento? Qual a diferença entre as relações de poder que controlam a vida das mulheres dentro de casa e fora dela? Me recuso a me manter submissa a esse mercado que aliás, não oprime só a mim. A profissão que eu exercia era estruturalmente opressora, não só de mulheres, mas de pessoas negras, acima do peso, de sexualidade diversa, de tudo o que fere as normatividades todas, enfim. Ser mãe, cuidadora e educadora da minha cria é um prazer pra mim, não um fardo que quero passar adiante na primeira oportunidade que tiver. Ao mercado, interessam só as mães que não ficam com o coração na mão em deixar os filhos com a babá ou na creche, ou então aquelas que se importam, porém se submetem, ou por extrema necessidade, ou por não enxergarem outro caminho, o que eu chamaria de uma falta de empoderamento profissional – e que fique claro que não culpo as mulheres por essa falta de empoderamento, mas o sistema, a estrutura, por não oferecer a todas as condições necessárias para a realização desse empoderamento. Não são poucas as mães que estão, nesse momento, em crise porque queriam passar mais tempo com os filhos e não podem porque precisam trabalhar para sustentar o lar. Mas para o sistema exploratório da mão-de-obra alheia, isso pouco importa. Flexibilização de horários, espaço para cuidado de crianças dentro de empresas, medidas simples que poderiam ser tomadas para acolher essas mães e mantê-las produtivas, passam longe de ser pensadas.

Também me irrita quando, em um debate a respeito desse tema dentro de ambientes feministas, exponho meu modo de pensar-sentir-agir e as mulheres que sempre estudaram em colégios particulares caros, do alto de seus privilégios, mestrados, doutorados e teorias mil, vêm pagar de boas samaritanas dizendo que essa escolha – a de não se submeter ao mercado – não está ao alcance de todas as mulheres, desmerecendo assim o meu ponto de vista e a minha experiência particular. Quer dizer, elas sabem da vida das mulheres pobres mais do que as mulheres pobres. Eu posso não ser do sertão, mas me considero uma mulher pobre que não se encaixa no estereótipo de mulheres pobres que elas conhecem. Oras, não é porque escrevo de acordo com a norma culta que tive as mesmas oportunidades que elas tiveram, que sou classe-média. Tudo pra mim foi muito suado e ainda é, pois nunca fui de escolher os caminhos mais óbvios. Sempre fui de obedecer o coração, e o coração sempre foi de escolher os desafios mais interessantes. Tenho sim o privilégio de contar com a pensão do meu filho, mas se não a tivesse ainda assim daria um jeito de fazer valer a minha prioridade, que é acompanhá-lo de pertinho em seus primeiros anos. Não vou deixar, portanto, que me calem com a desculpa de estarem o fazendo para que eu enxergue que o sistema não dá a oportunidade que eu tive a todas as mulheres, que apaguem a minha história, minha origem, que agora não vêm ao caso expor. É por enxergar o apagamento e o silenciamento das vozes destoantes das feministas negras, trans* e pobres dentro do feminismo mainstream que me considero, hoje, uma feminista intersecional. E digo: a interseccionalidade salvou – ainda bem! – o meu feminismo, que estava prestes a se aposentar. Quase joguei tudo pro alto. O que me impediu foi ter conhecido o tumblr Questões Plurais.

Meu parto – natural, sem anestesia, com tudo o que o meu corpo tinha direito de experimentar – pra mim foi prazer, não castigo. Amamentação pra mim é liberdade, não escravidão. A educação do meu filho não será um meio para que ele conquiste o mercado de trabalho no futuro, e sim um jeito de ele se conhecer e interagir com o mundo aqui-agora e construir-se como indivíduo e como cidadão para que ele não perca de vista a própria liberdade sem precisar cercear as liberdades alheias. Não me considero parada no tempo enquanto me envolvo pessoalmente com o desenvolvimento do Théo. Pelo contrário: foi o tempo que parou pra mim, por mais que a ideia pareça maluca. Mas é verdade. O tempo tomou outra dimensão depois que eu engravidei, especialmente no final da gravidez e agora no começo do puerpério. Eu descobri que agora é tempo de colocar os dois pés no chão da realidade dos meus sonhos e aproveitar intensamente cada segundo, porque uma criança cresce rápido e tudo isso, em breve, se dissipará em lembranças, fotos, vídeos, reflexões, posts, aprendizados e, acima de tudo: muita, mas muita saudade.

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Em tempo: declaro que a escolha de não trabalhar pra cuidar da cria é muito pessoal, muito íntima e está LONGE de ser o único caminho para uma maternidade mais consciente. É a MINHA escolha, que tem a ver com a MINHA história e com os MEUS sonhos. Admiro muitas mulheres que trabalham, estudam e são mães incríveis, em diversos aspectos muito mais conscientes do que eu. Isso não é uma disputa entre mães. Ninguém é mais mãe nem menos mãe do que ninguém. Mas meu discurso em defesa das mães não-carreiristas se faz necessário por causa dos preconceitos e julgamentos de nossas escolhas (dentro do feminismo), que tentam nos desempoderar e despolitizar nossas decisões. A essas pessoas, fica só um lembrete: o pessoal sempre será político.

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6 Respostas para “Maternidade, carreira e feminismo intersecional”

  1. Marina Matos

    Simplesmente amei esse texto, Natacha!
    (sou lá do Maternidade Consciente, mas há pouquinho tempo). Mas me lembro de ter visto a imagem da sua vakinha circulando pela rede (via Cientista que Virou Mãe). Desde então torço por você. Agora descobri seu blog e nossa!, super me identifiquei!

    Falando especificamente deste texto, principalmente.
    Tenho 23 anos, estou grávida de 6 semanas e já fiz essa mesma escolha – estar presente integralmente na primeira infância do meu filho. Quer dizer, eu já não estou trabalhando fora de casa no momento, então é só manter, rsrsrs. Não sou nada carreirista, só faço, literalmente, o que sinto que tenho que fazer. Esse papo de “mercado” nunca colou comigo. Mas óbvio que nem todo mundo entende, né… enfim, nunca deixei que isso influenciasse minhas escolhas.
    Estou na minha busca também pelo parto natural – há mais de um ano leio sobre isso, rs.

    Obrigado por dividir a sua experiência.

    Um beijo,
    Marina.

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    • milfwtf

      Marina, que delícia seu comentário. Entrei no seu blog e me identifiquei com muita coisa lá também. Subtítulo do Manoel de Barros já me arrebatou, né. Sou apaixonada por poesia.

      Obrigada pela manifestação aqui. A melhor coisa deste blog criado sem pretensão nenhuma são as pessoas que eu conheço e que me fazem sentir menos só nesse mundão.

      Um beijo!

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      • Marina Matos

        Obrigado, Natacha! Obrigado mesmo! 🙂

        Nossa, nem reparei que estava logada nesse blog. Manoel de Barros é fofo de tudo, né?! Genial!!
        Também tenho um blog “para assuntos maternos” e nem reparei que o outro que ficou no formulário, hahaha
        Enfim, se quiser conhecer meu outro “puxadinho”, é esse aqui:
        http://soateamanhademanha.blogspot.com.br/

        Beijo beijo!

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  2. Ela

    Me identifiquei MUITO com o que você escreveu, ainda que eu esteja longe de ser mãe, aos quase 21 anos esse é meu maior sonho, assim como já era aos 15. Sou feminista, artista, lésbica, também me entrego de corpo e alma às minhas paixões e chorei ao ler o depoimento do seu parto – e espero eu mesma ter um depoimento parecido daqui uns 9 anos.
    Pelo pouco que li a seu respeito, você parece ser uma mulher admirável.
    Um beijo!

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  3. Iasmin

    A cada linha lida dou risada, bestificada pensando como somos parecidas. E este post hoje me caiu como uma luva pois estou prestes à retornar ao trabalho, dou aulas de italiano numa escola de idiomas particular, mas estou receosa, não quero, coração na mão.. Sou apaixonada por artes, fotografia, pinturas, artesanato, ideias. E meu cérebro está a ponto de fundir de tanto que penso dia e noite numa saída pra que eu possa ficar com minha filha, Chantal, 4 meses, que neste exato momento está grudada em meu peito, e conseguir fazer um dinheiro produzindo em casa mesmo.. Me formo este ano mas não pretendo de maneira alguma seguir carreira em cima do curso, aliás, não sei como aguentei esses 4 anos de massacre ouvindo ladainha técnica de como ser uma perfeita imbecil submissa Secretária Executiva Trilíngue. Enfim, vou parando aqui senão começo já a contar todas as minhas piras, dificuldades e sonhos também, rs, te parabenizo pelo blog, ele é maravilhoso, me encontrei em suas palavras.. E não para não porque você está no caminho certo.
    Um beijo e boa sorte, paciência e dedicação nesse período que é muito delicado e trabalhoso.
    Amor e Paz!

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  4. Carla Ibba

    E eu me achanado um pássaro fora do ninho, por optar me dedicar integralmente ao casamento, ao lar e ao me futuro bebê.
    Seu relato de parto me emocionou, agora esse. Desse jeito, num guento,rs.
    Sonho em ser mãe, sempre sonhei. Ainda não sou, mas a decisão existe desde sempre: quando eu parir, serei inteira para minha cria.
    Quando mudei de estado, abri mão de carreira profissional, recém formada, juntei os trapos com o benzão, e cá estou: dona de casa, rezando pra progesterona regular, babando nessa maternagem toda, e doida pra renascer.
    Você disse uma coisa, que sinto há anos e, falo pro meu marido: ” daquela menina romântica, sonhadora e, ao mesmo tempo rebelde que queria ser mãe para dar o amor que achava que merecia ela mesma receber dos pais. A mãe que existe em mim, portanto, não é tão nova assim. Ela existia aqui dentro em estado de semente. Eu definitivamente nasci pra ser mãe.”

    Sinto-me exatamente assim! Sem tirar, nem por.

    Que a vida te agracie com tudo que merece. Você é puro amor.
    E o Théo é de uma fofura infinita.
    Siga feliz. Um beijo, querida

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