Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Os monstros em nós

Para entender este post sob a minha ótica auditiva (rs), você vai precisar primeiro assistir a esse clipe do MGMT (a música é uma delícia, vai fundo!)

Assitiu? Fiquei morrendo de pena do bebê, horrorizada por imaginar que ele gravou essas cenas sentindo tudo o que ele tava expressando. 😦

Mas vamos lá. Estou aqui, chorando pela solidão que é ser um bebê no nosso mundo “civilizado”. Dormir em um quarto, sozinho. Chorar e não ser atendido. Sentir medo. Achar que os monstros de dentro (fome, frio, carência) estão fora e podem nos atacar fisicamente (não era assim o nosso medo do escuro, do bicho papão, do homem do saco, do monstro que vivia debaixo da cama ou dentro do armário, da boneca que nos olhava eternamente enquanto tentávamos dormir apavorados?). E os adultos, frios, desconectados, traduzindo choro como birra, manipulação, manha. Como se os bebês fossem seres que nasceram com o intuito de dominar o mundo a começar pelos pais.

Eu nunca me afastei demais da criança que eu fui. São muitos os traumas pra me fingir de morta. Não consigo viver sob a dominação do quarto mandamento, que é “amarás e honrarás seus pais”. Sim, eu os amo, mas não, o amor não é cego. Eu enxergo tudo de ruim que eles fizeram pra mim, sob a desculpa de “estarem me educando”. O excesso de autoridade. A indiferença aos meus sentimentos. A incoerência entre os exemplos dados e as atitudes esperadas de mim. Os tapas, os berros, as cintadas. As exigências infundadas. Os castigos que eu não compreendia. A repressão das alegrias. As comparações com outras crianças. O silenciamento.

Não sejamos hipócritas. Todos nós formulamos, indignados, a pergunta mais honesta de nossas infâncias: “por que estão fazendo isso comigo?”. E, ao longo do tempo, por uma pura questão de sobrevivência, concluímos que “faziam isso com a gente por amor”. Não era amor. Era impaciência. Era poder. Pátrio poder. Era a dominação do mais fraco pelo mais forte. Era amor em outras horas: durante os diálogos, durante os abraços e beijos, durante os carinhos. Mas não era amor na hora da violência psicológica, moral, verbal ou física.

Eu sei disso. Eu lembro do olhar de raiva, dentes entrecortados. Da brutalidade das palavras. Da dor das agressões. Você lembra? Você lembra. Você lembra da sensação de abandono que sentia ao chorar? É a mesma sensação de abandono que você experimenta quando chora hoje e precisa de um abraço. Não é horrível não ter quem abraçar? Não é horrível quando você precisa de um abraço e tudo o que te dão é indiferença, sob a conclusão de que a sua necessidade é uma birra passageira?

Pois eu me recuso a criar o meu filho sob essa Pedagogia Negra*, que acredita que os bebês sejam criaturas que precisam ser dominadas, domadas, moldadas, que as crianças precisam aprender a ser sozinhas ou vão ficar emocionalmente dependente dos pais. O que eu vejo como resultado dessa indiferença às emoções infantis é uma sociedade que não consegue amadurecer, que está sempre presa ao que não recebeu na infância. Que está presa à falta. Ao buraco no peito, que depois é preenchido por dinheiro, por prazeres efêmeros.

Eu quero dar todo o amor que tenho, sem regular carinho nenhum. Os monstros contra os quais eu lutei quando pequena estão bem vivos na minha consciência. Não vou deixá-los tomar o comando da minha vida, não vou passá-los adiante para a próxima geração. Como mãe, essa é uma das minhas maiores responsabilidades. Eu as assumo, não por querer ser uma mãe perfeita. Mas por querer curar as minhas próprias feridas. Por não querer ferir meu filho. Por desejar um mundo mais humano. Porque é o que um pai ou uma mãe são responsáveis por fazer.

(Alguém se arrisca a traduzir e interpretar a letra dessa música comigo nos comentários?)

*UPDATE

Pedagogia Negra é um termo cunhado pela psicoterapeuta e escritora Alice Miller, que engloba todas as atitudes pedagógicas baseadas na ideia de que um ser humano já nasce mau e precisa ser corrigido por meio de punição e disciplina, com ou sem uso de agressão física, na maioria das vezes usando agressão verbal, psicológica, moral e emocional como base. Fui questionada por uma amiga a respeito da procedência dessa expressão. Pedagogia Negra é um termo bastante racista. Senti vergonha por não ter refletido sobre isso ao escrever este post. É ruim admitir que reproduzimos o sistema opressor por pura distração. Mas a distração só reflete o fato de que, por ser branca, eu não estava atenta. Se eu fosse negra, teria me ligado no fundo racista contido no conceito da Pedagogia Negra. A distração é um privilégio que não podemos deixar tomar conta de nós quando lutamos por um ideal. Peço desculpas a quem se ofendeu e prometo ficar mais atenta ao construir meus textos. Me coloco à inteira disposição de quem quiser me corrigir em qualquer discriminação que eu tenha cometido por causa de minhas posições muitas vezes privilegiada.

Anúncios

8 Respostas para “Os monstros em nós”

  1. jmmkazikazi

    You were a child,
    crawlin’ on your knees toward it.
    Makin’ mama so proud,
    but your voice was too loud.

    We like to watch you laughing.
    You pick the insects off plants.
    No time to think of consequences.
    Control yourself.
    Take only what you need from it.
    A family of trees wanted,
    To be haunted.

    Control yourself.
    Take only what you need from it.
    A family of trees wanted,
    To be haunted.

    The water is warm,
    but it’s sending me shivers.
    A baby is born,
    crying out for attention.
    Memories fade,
    like looking through a fogged mirror
    Decision to decisions are made and not bought
    But I thought,
    this wouldn’t hurt a lot.
    I guess not.

    Control yourself.
    Take only what you need from it.
    A family of trees wanted,
    To be haunted.

    Control yourself.
    Take only what you need from it.
    A family of trees wanted,
    To be haunted.

    Control yourself.
    Take only what you need from it.
    A family of trees wanted,
    To be haunted.

    Control yourself.
    Take only what you need from it.
    A family of trees wanted,
    To be haunted.

    Control yourself.
    Take only what you need from it.
    A family of trees wanted,
    To be haunted.

    Control yourself.
    Take only what you need from it.
    A family of treeeeees…

    ————–

    Você era criança
    Engatinhando em direção ao seu objetivo
    Fazendo a mamãe tão orgulhosa,
    Mas sua voz era muito alta.

    Gostamos de ver você rindo.
    Você pega os insetos das plantas.
    Sem tempo de pensar nas conseqüências.
    Controle-se.
    Pegue apenas o que você precisar disso.
    Uma família de árvores queria
    ser assombrada.

    Controle-se.
    Pegue apenas o que você precisar disso.
    Uma família de árvores queria
    ser assombrada.

    A água é quente,
    Mas me dá arrepios.
    Um bebê nasce,
    Pedindo atenção.
    Memórias embaçam,
    como olhadas por um vidro esfumaçado.
    A decisão sobre decisões é feita e não comprada
    Mas achei
    que isso doeria muito.
    Acho que não.

    Controle-se.
    Pegue apenas o que você precisar disso.
    Uma família de árvores queria
    ser assombrada….

    Curtir

    Responder
  2. Ju

    Eu lembro. E se eu tivesse o mínimo de capacidade de escrever bem assim, poderia expressar essas mesmas coisas, exatamente desse jeito, porque é como eu lembro da minha infância.

    Fui criada nesse molds de dominação e infelizmente não consigo passar por cima desse passado e ter conexão com a minha mãe. Mas foi essa a sequela que esse tipo de criação me causou… não tenho vontade de abraçar minha mãe e geralmente é uma das ultimas pessoas que procuro se preciso de colo, sabe? Já até me culpei por isso.

    Faz muito bem pra alma jogar esses ensinamentos horrendos fora.

    Curtir

    Responder
  3. Jana

    Que texto ótimo! E agonia de ver ele chorando de medo sem ninguém para pegá-lo no colo. 😦 Nasci quando minhas irmãs já eram adolescentes e senti a mudança dos meus pais. Quero dizer, quando elas eram menores, eles ainda usavam mais desse artifício: palmadas. Por sorte, eles se conscientizaram enquanto elas cresciam. E hoje eu dou todo o carinho do mundo para meu filho. E NUNCA deixei ele chorando sozinho no quarto.

    Curtir

    Responder
  4. Erika

    Eu sempre fui a criança e adolescente mais carente que você pode imaginar. Aquela menina boazinha, que nunca dava trabalho, levava porrada da irmã caçula, e não podia fazer nada, nem gritar com ela. Não dava trabalho na escola, mas era uma pária social, pois tinha aquele ar de vampiro de atenção. Só fui entender isso recentemente, depois de ser mãe, e aí foi que mamãe me contou o jeito dela me educar. Não fui amamentada porque foi bem na época da fórmula de latinha pegar moda, meus pais eram classe media em ascensão, fórmula era aquele símbolo de status. Só o melhor… e o pediatra orientou minha mãe a me dar a mamadeira às 7:30 da noite, me botar no berço e fechar a porta. Mamãe disse que eu ficava chorando por hora e meia, duas horas sem parar. Aí eu desistia. (Foi meio dificil escutar isso quando meu próprio bebê, que mamava a qualquer hora, por quanto tempo ele quisesse, que passava horas no meu colo, nos braços ou no sling, ele mesmo nunca parava de chorar, algumas noites, me levando quase à loucura, até que a gente decidiu que ele podia dormir conosco na cama, e aí tudo ficou mais fácil).
    Acho que é isso, né, essa mentalidade coxinha que eu tenho um pouco, é esse desistir de chorar, e então tentar de tudo pra conseguir boa atenção, ser a boa menina…. é uma forma de domar, mesmo, de docilizar.

    Curtir

    Responder
    • milfwtf

      Oi Edson!
      Eu não acho que os inteligentes sempre superem. Você duvidaria da inteligência do Hitler? A escritora e psicoterapeuta Alice Miller pesquisou a infância de muitas personalidades inteligentes, Hitler incluso, e constatou que todo o desejo de dominação pode ter vindo de uma infância repleta de abusos. O oprimido que não encara a verdade e não se liberta com ela deseja um dia virar opressor. É preciso muito mais que inteligência. É preciso saber lidar com as emoções. Isso é muito difícil e muitas vezes impossível sem a ajuda de um profissional que trabalhe as questões da infância. O problema é que até mesmo esses profissionais têm medo de cavar tão fundo, pois eles mesmos não cavaram a própria psique até esse ponto. E dói.

      No mais, flores pra você também!

      Curtir

      Responder
  5. Fernanda

    Desculpe meu desabafo. Mas tive uma infância bem parecida com que você escreveu, uma adolescência tenebrosa pois depois de meus pais se separarem, minha mãe se casou com um homem que me causou traumas que carregarei por toda minha vida. E como se não bastasse isso minha mãe ainda trata minhas filhas principalmente de 5 anos, com descaso é doloroso demais ver meu sobrinho receber presentes e contar pra minha filha que foi a deles que deu, e minha filha ficar com um olhar vazio e em silêncio, não fico chateada pelo presente em si mas pelo que ele simboliza, o não ter sido lembrada. Dói demais.

    Curtir

    Responder
    • milfwtf

      Fernanda, você tem facebook? Participo de um grupo muito bonito chamado Feminismo Parental, em que várias mães têm dado relatos de suas infâncias como a que fiz aqui, talvez lá você se sinta à vontade para desabafar entre pessoas que passaram pelo mesmo que nós.

      Curtir

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

HTML básico é permitido. Seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine este feed de comentários via RSS

%d blogueiros gostam disto: