Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Parto palavra

Escreve – diz a periferia do âmago. Shhhh, diz o núcleo do âmago. Fico inquieta sem saber a quem obedecer. Tenho tudo o que preciso e no entanto algo me falta. Que será? Como uma grávida que tem o filho dentro de seu ventre. Mas não basta. Gravidez é inquietude e puro desejo de dar o seio. A ideia quer ser parida, chuta e soca os neurônios, o coração. Não, não é ideia. Não é imagem. Não é algo que tenha um passado. É coisa, é um sem-rosto. Impressão querendo-se expressão. Um presente vivo dentro do âmago que é periferia e também é núcleo. Vir a ser, se esconder? Escreve – diz a periferia do âmago. E o âmago se contrai como o útero que é, comprimindo o silencioso núcleo. Escreve que escrever é tirar a vida de dentro da vida. Escreve livre, sem finalidade, sem autoridade nenhuma sobre o que está sendo escrito. Escreve como quem respira. Escreve deixando a criatura construir-se a si mesma. Escreve como aquela que com a mão direita agarra o desconhecido, com a mão esquerda agarra o conhecido, e se permite sentir a dor do curto-circuito entre o aqui e o sabe-se-lá-onde. Escreve sem grandiloquências, sem confundir o ato de escrever com a credibilidade social oferecida aos seres escreventes. Escreve puro. Como uma mãe que quer livre seu filho.

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