Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Gravidez, limpeza emocional, sonhos e sombras

Essa noite sonhei com ele. Que sentia tanto ciúme e raiva que o mordia e o beliscava para castigá-lo fisicamente pelas coisas negativas que ele despertou em mim. Fiquei remoendo esse sonho a manhã inteira e à tarde passei mal. Muitas contrações, enjôo, sensação de estômago trancado. Fiquei preocupada, pois ainda não tenho uma equipe médica aqui em SP pra me assistir e imaginar que posso ter um parto prematuro por estresse, num hospital qualquer do convênio, com profissionais que provavelmente vão me desrespeitar me causa pânico. Quero tanto meu parto natural, meu filho sendo recebido com carinho, eu sendo tratada com amor.

Me permiti, então, apenas sentir. Deitei um pouco. Fiquei de quatro na cama, fiz uma escadinha com os travesseiros e apoiei minha cabeça nele, deixando minha barriga livre enquanto eu descansava, o que não dá pra fazer deitada de lado. Minha cabeça não parava, minha barriga não amolecia. Então pedi pra sei-lá-o-quê me iluminar. Acredito que sei-lá-o-que pode ser não deus como se conhece por aí, mas uma certa força oculta que nos ultrapassa a lógica e que está sempre ali, pronta para ser chamada a agir. E agiu. Foi quando comecei a chorar. Chorando, senti que gradualmente o estômago trancado começava a se abrir. Entendi. Entendi o sonho, entendi o mal-estar, entendi que eu preciso me permitir sentir raiva, entendi que preciso parar de achar que tenho que sublimar tudo, entendi que querendo sublimar na verdade eu jogo tudo pra debaixo do tapete ao invés de encarar e lidar.

Eu tenho todo o direito de estar com raiva e de associá-la ao ciúme, mesmo sendo essa pessoa libertina que sou. Afinal, oras, parte do que sinto é ciúme sim, ciúme legítimo de uma grávida com histórico de abusos na infância que precisava de atenção, carinho, cuidado, sexo delicado e compreensão, mas que teve o dissabor de além de não contar com nada disso, descobrir que não estava usufruindo da energia sexual do parceiro enquanto outra pessoa tomava esse lugar. Se ao menos tivesse existido honestidade da parte dele quando eu o questionei sobre a válvula de escape eu ficaria feliz, pois onde existe honestidade existe respeito e possibilidade de enfrentamento e solução. Mas não. O caso foi negado, meus sentimentos invalidados, a voz dele foi pra mim levantada, uma porta foi batida e, nesse momento decidi descobrir por conta própria o que eu queria saber. E consegui. Ao meu modo, consegui. Eu estava certa, ele mentia e tudo ficou insustentável. Mentiras são.

Prometi que não derramaria mais nenhuma lágrima por causa dele. Na manhã seguinte, todas as minhas coisas estavam arrumadas pra eu vir embora e eu decidida, me sentindo forte apesar de destruída. Toda a conversa que ele se negou a ter na noite anterior, me tratando como um ser inferior, um bicho cujos sentimentos não importavam, ele quis ter comigo, mas dessa vez, por estar tão certa do que eu queria, quem não quis conversar fui eu. Com uma mala de rodinhas em uma mão, bolsa no ombro, coração de pelúcia na outra mão e uma barriga de sete meses e meio à frente do meu corpo, saí. O sol do verão do Rio de Janeiro torrando a minha cabeça e a lonjura do ponto de ônibus me fizeram hesitar. A cada carro, um motorista olhava pra mim com uma cara de pena ou espanto. Parei no meio do caminho com os olhos marejados, me lembrando da maldita promessa de não deixar uma lágrima sequer cair. Levantei os óculos escuros e deixei a brisa bater nos meus olhos para secar o choro. Repeti esse processo umas três vezes até chegar no ponto. Acho que esse choro de raiva, de ciúme e de humilhação estava represado em mim e tinha que sair de algum modo. Por isso o sonho e o mal-estar. Engolir o choro foi algo terrível que a Natacha criança aprendeu, agora a Natacha adulta precisa abraçar a criança que só chorava suas tristezas em última instância. A Natacha criança não chorou os abusos sexuais que sofreu, não chorou os abusos emocionais que sofreu, aprendeu a chorar só de dor física e com a condição de que fossem muito, muito insuportáveis. A adulta, agora grávida, tem sentido necessidade de expurgar todos esses sentimentos represados do corpo, como numa viagem de Ayahuasca em que a pessoa vomita para realizar uma limpeza. Eu preciso estar limpa para a chegada do meu filho e não posso continuar represando sentimentos. Foi a minha lição de hoje.

Eu posso sentir raiva dele. Eu estou com raiva dele. Meus sentimentos são legítimos. Vão passar, e enquanto estiverem aqui dentro, por mim e pelo meu filho, eles serão manifestados para não nos causar danos maiores. Eu vou chorar. Eu vou escrever. Eu vou publicar. Depois superar e seguir a minha vida. Porque o meu colo agora precisa estar livre para ninar e aconchegar o meu filho. Não pra carregar uma bagagem pesada, dolorida e inútil.

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6 Respostas para “Gravidez, limpeza emocional, sonhos e sombras”

  1. adriana guimaraes

    Isso mesmo, Natasha.
    Deixa o colo livre para quem precisa dele e merece.
    Você vai adorar ser mãe.

    Um abraço,

    Adriana Guimarães

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  2. Ju

    Cheguei por aqui agora, e sei lá por que decidi em começar a ler o blog por esse post. Me dou o direito de dizer que já admiro muito a sua força e a capacidade de autoconhecimento que você tem. Seu filho tem uma grande mãe. Um beijo.

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  3. Djair Guilherme

    Olha, você é quem vai saber o jeito que vai querer que essa criança nasça. Mas os dois aqui de casa nasceram em casa, com uma parteira. Te passo o e-mail dela só porque o trabalho dela ANTES do dia do parto é de um beleza tão incrível, que não posso deixar de partilhar contigo.
    Estou com uma grávida aqui em casa, pela terceira vez. Provavelmente, teremos mais essa criança aqui mesmo, em casa. E o que a Vilma Nishi faz, é uma coisa linda demais para a mulher e para o homem.
    vilmanishi@ig.com.br
    Fé! E obrigado por esse blog lindo.

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    • milfwtf

      Oi Djair! O Théo vai nascer em casa também, não consigo nem imaginar diferente disso. Tô fazendo uma vakinha pra juntar a grana, heheh! Porque eu resolvi ser solteira e não tinha lá todo o apoio necessário da parte do pai. A equipe já tá decidida e a postos. Completei 36 semanas hoje! E na sua casa a grávida tá de quantas semanas? Bjs!

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