Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Sobre romper gentilmente com a geração passada

Não é novidade o embate entre gerações. A lógica das novas nunca é compreendida pelas mais velhas, e a das velhas é sempre obsoleta demais para ser seguida pelas novas. Mas a verdade é que apesar das diferenças tão gritantes entre uma geração e outra, as semelhanças ainda são maioria. Isso acontece tanto na história do mundo quanto dentro da nossa própria casa. É preciso de mais do que uma geração para que mudanças significativas aconteçam.

Hoje o mundo é assim. As mulheres votam, trabalham. Os negros também. Algumas melhorias foram conquistadas, mas entre reconhecer algum avanço e defender que mulheres e negros são livres existe um abismo enorme. Porque não, não são livres.  É só olhar atentamente pra atuação da polícia nas ruas e ver que os mais abordados são os negros. É só olhar atentamente pra dentro da gente mesmo quando andamos em uma rua escura e deserta e um cara visivelmente pobre e negro está por perto. Os negros estão presos a um estereótipo e enquanto esse estereótipo não for combatido – seja no embate social ou dentro de nós mesmos – os negros não serão livres. E a questão do estereótipo é apenas mais uma entre tantas outras que aprisionam essa gente que tem na pele uma cor que eu invejo e na alma uma luta que eu admiro. E as mulheres? Bem, as mulheres conquistaram não só o direito de votar mas também o direito de serem votadas. Mas ainda não têm plenos poderem sobre o próprio corpo. Muitas são violentadas ainda crianças. Na rua, todos os dias as mulheres são abordadas de maneira grosseira, como se estivessem ali para embelezar a calçada e não porque precisam chegar em algum lugar. As mulheres estão presas ao olhar masculino e ai daquelas que resolvem desencanar do olhar do outro e viver como querem.

O que me levou a escrever esse post foi uma constatação dolorosa. Estou grávida de sete meses e me sinto a intersecção exata entre o passado e o futuro da minha família. É dentro do meu útero que a família Orestes e a família Murray se encontraram para garantir a preservação da raça humana ao lado de tantas outras famílias no mundo. Como eu não acredito em coincidências e sim na lei natural da atração, tenho certeza de que tenho, com essa família e com o pai do meu filho, muita coisa a aprender. Pois eles nunca deixarão de ser a família do meu filho. Meu filho é, portanto, um elo entre aquilo que fui (a filha dos meus pais), aquilo que sou (a menina sendo forçada a crescer) e aquilo que serei (mãe). Obviamente eu não me resumo a filha, menina e mãe, mas não posso negar a importância desses papéis em minha vida, pois é a maneira como a filha foi criada que produziu a menina, e é o que a menina aprendeu com o mundo que influencia no desenvolvimento de sua identidade de mãe.

Dizer que tenho algo a aprender com eles é, antes de mais nada, confiar na minha capacidade de aprender com tudo o que é ser humano ou fato que cruza a minha vida. Não é porque tenho o que aprender com eles que devo me submeter à vontade de alguém, porque aprendizado não tem nada a ver com a autoridade do professor, e sim com a troca entre professor e aluno. É na troca que o aprendizado acontece. Pois é nessa troca que está toda a minha ansiedade atual. Por estar grávida, por estar sentindo vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, o que é gerar uma vida a partir do meu próprio corpo, o presente, o passado e o futuro perderam seus limites e orbitam bagunçados por todo o meu ser. Me sinto exausta. Meu passado é sinônimo de agressões e medos misturados a alegrias e esperança, meu futuro é a expectativa de oferecer ao meu filho uma infância mais saudável do que a que eu tive, e meu presente divide-se entre a troca emocional e fisiológica que faço com meu filho e a troca que eu faço com o pai dele. E a ansiedade vem do fato de eu enxergar que enquanto eu tento romper com os meus medos infantis revivendo conteúdos inconscientes de fragilidade e tristeza, o pai do meu filho não só não sabe lidar com a minha momentânea confusão como também não tem se esforçado para não passar para a sua família futura o que ele aprendeu com a família passada.

Eu poderia ajudá-lo, abraçá-lo como uma mãe abraça seu filho, suportando as birras (os gritos que ele dá quando quer demonstrar autoridade), ensinando a empatia pelo exemplo já que ele não é muito bom nisso, entre tantas outras coisas que eu acho que ele tem que aprender que não cabem aqui pois são muito particulares, minhas e dele. Eu poderia, sim. Mas eu não quero. Somos dois adultos, não posso tomar o lugar da mãe dele, pois isso requereria de mim uma disponibilidade emocional que simplesmente não tenho para dar e que preciso canalizar para o meu filho. O meu filho sim é responsabilidade minha. Do meu filho sim eu suportarei os choros, as birras e ensinarei empatia. Pro meu filho sim ensinarei que homens e mulheres são iguais – humanos – guardadas as diferenças fisiológicas. Pro meu filho sim, ensinarei que não se deve oprimir ninguém por características físicas, psicológicas, sexuais, sociais, culturais, assim como farei o que estiver ao meu alcance para ensinar a não se deixar oprimir por instituição nenhuma, por pessoa nenhuma, por religião nenhuma .  A menos que ele queira, pois a ignorância é uma opção sempre à mão, mas no que depender de mim, ela será uma carta fora do baralho. Pro meu filho vale a pena o esforço. Pra um homem barbado de 31 anos, não.

Com a gravidez, estou prestando muito mais atenção em mim, nos motivos de cada uma das maneiras que eu tenho reajo às situações diversas, e vejo que o meu modo de reagir a em muitas vezes é um modo “feminino”, que há séculos aprisiona as mulheres a uma vida de abnegação. Meu modo de reagir a quem me machuca é cuidando, sacrificando a mim. Mulheres são vistas como cuidadoras e foi esse o papel social que eu aprendi que me cabia. Mas não é responsabilidade da mulher cuidar do mundo. É responsabilidade da mulher cuidar de si e de seu filho (isso quando e se ela resolve ter um filho). É nesse sentido que rompo com a geração passada. A geração da minha mãe e da mãe do pai do meu filho. Que levaram adiante um relacionamento infeliz porque achavam que precisavam do casamento para cuidar dos filhos, adotando os pais de seus filhos como seus filhos. Esse erro eu não quero repetir, pois o final dessa história eu já sei onde dá. Dá em filhos confusos, angustiados, reprimidos e tão viciados no comportamento agressivo e competitivo de macho ou compassivo e cuidador de fêmea quanto os pai. Me recuso a perpetuar a infelicidade das mulheres interpretando o papel que me querem ver interpretando. É de gente que contesta a si mesmo que o mundo precisa. Gente que contesta a si mesma acaba contestando o mundo e sofrendo. Mas pelo menos a tristeza gerada pelo rompimento é produtiva. Bem diferente da gerada pelo conformismo.

E aí, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais?

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

HTML básico é permitido. Seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine este feed de comentários via RSS

%d blogueiros gostam disto: