Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Carta aberta de uma grávida feminista para seu filho

Estou esperando por você.

Eu, que desaprendi a esperar. Que deixei a urgência do cotidiano me apressar. Que asfaltei os caminhos com vontade de chegar mais rápido ao coração do mundo e acabei transformando em cinza o que antes era terra vermelha e fofa. Que tantas vezes bebi coca-cola quando o meu corpo pedia por água, que passei noites dançando em claro êxtase para sentir algo além da dor de estar viva, que horizontalizei minha ansiedade em tragadas mentoladas para mostrar que esse corpo era meu e eu poderia fazer o que eu quisesse com ele.

Levei anos para descobrir que eu era livre e três meses para compreender que a liberdade que eu havia conhecido ainda não era liberdade. Era apenas um fragmento de libertação em relação à moça comportada que esperavam que eu fosse. Primeiro a família, escancaradamente. Depois todo o resto. Troquei de garras sem saber. Do núcleo familiar aos tentáculos sedutores do mercado. E este último é cruel com tudo o que respira. Transforma vocação para a liberdade em talento para a alienação. Meu sonho era libertar com poesia, mas acabei enganando com publicidade. A mim e aos outros.

Agora estou esperando por você.

Não pense que te amei desde o momento em que soube que você viria. É que a essa altura da vida, com formação acadêmica voltada pra educação, eu já sabia que maternidade era coisa séria, e achava que eu não conseguiria ter tanta responsabilidade em minhas mãos depois de ter vivido de maneira tão leviana. Durante os três primeiros meses, vi a identidade de mulher urbana e livre que havia criado pra sobreviver em São Paulo morrer diante dos meus olhos. Sem cigarros. Sem porres. Sem drogas. Sem baladas. Sem receber amigos em casa. Sem procurar por eles. Sem achar que os tinha. Sem internet. Sem emprego. Sem perspectiva. Sem nada que pudesse me confortar. Sem nem mesmo conseguir escrever.

Chorei de medo no sofá, ao ver os dois risquinhos. Chorei no chuveiro pra ninguém ver. Chorei de tristeza. Quis fugir e quis morrer, e morria um pouquinho a cada vez que alguém falava que toda essa minha confusão poderia te fazer algum mal. Senti raiva de todos que me tratavam, por pura ignorância, como se eu fosse uma embalagem de bebê. Senti raiva por me sentir dependente da boa vontade alheia. Senti raiva por me sentir extremamente sozinha e desamparada quando eu mais precisava de colo. Senti raiva por não ter mais o direito de me anestesiar com qualquer droga dessas de fim de semana, que me transportasse para uma situação mais relaxada, divertida e prazerosa. Senti culpa por me achar mesquinha e superficial.

Senti. Senti. Senti. Até chegar a um imenso vazio.

Depois do vazio, eu vi seus movimentos pela primeira vez. Perninhas pra cima e bracinhos se unindo. Preto e branco colorindo a minha vida! Foi nesse dia que te amei pela primeira vez. Que as minhas raízes rasgaram o asfalto e me mostraram novamente que a estrada que me percorre a alma é feita de terra fértil. Nesse dia me senti mais forte pra enfrentar o que viesse. Passei a compreender que a espera de uma mulher grávida nem sempre é pacífica.

Daqui pra frente tenho um milhão de escolhas pra fazer e sustentar. A escolha do tipo de parto, do obstetra, do local mais humano para que você se sinta confortável na sua chegada. A escolha do local onde vou morar. De quando vou voltar a trabalhar. De que tipo de trabalho vou ter. Das palavras que vou usar para desbaratinar ou enfrentar cada pessoa que der um conselho esdrúxulo em relação à educação que penso em te dar.

Mas a maior escolha que fiz – e sim, foi uma escolha e não uma obrigação, mesmo que eu e seu pai não tenhamos planejado a sua chegada – foi a de ter você, te deixar crescer e se nutrir de mim, de me deixar ser transformada tão intensamente e em tão pouco tempo por você. Que bom que eu escolhi ter você apesar de todo o medo que eu senti.

Nunca me senti tão forte.

Olho pra baixo e vejo o barrigão que de uma semana pra cá, resolveu despontar. Enorme. Redondo. Gordinho. Deito, estico as pernas e sinto uma bolota dura concentrada do lado direito, um pouco abaixo do umbigo. Caramba, é um minivocê. Pela primeira vez depois de adulta, posso dizer que amarei alguém para sempre. Sem me sentir piegas.

Eu não sei mais quem eu sou. Não sei mais qual é meu lugar no mundo. Não sei quanto tempo essas indefinições vão durar. Mas não saber é finalmente um grande ufa. Estou livre de mais uma identidade que há tempos já não me deixava caber em mim. Uma identidade que me ensinou muito, mas que não me servia mais. A única coisa que sei é que a guerra entre a mulher e a mãe acabou. Que agora as duas estão juntas por uma mesma missão: fazer a maior revolução da minha história. E entregá-la de presente pra você.

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25 Respostas para “Carta aberta de uma grávida feminista para seu filho”

  1. MS

    Incrivel. Esse texto foi mandado para mim por uma amiga apos um grande desabafo meu, sobre essa primeira gravidez (estou no terceiro mes), chorei , chorei, e como chorei. Acordo todo dia esperando que me sinta diferente….

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  2. Inaê

    Lindo texto. Trouxe-me às lásgrimas, eu que sou mãe de 3 pequenos, dois dos quais gêmeos ainda com menos de 2 anos; eu que tanto penei nessa prisão celestial que é a maternidade. Lindo texto, lindo tudo. Se teu bebê já nasceu, aí sim você já sabe o que é amar assim AMAR! Se não nasceu ainda, chegará logo e o que parecia mudar, creia, mudará. E o chão voltará a ser de terra… obrigada, senhora (moça?) pela experiência desse seu texto. Felicidades pela maternidade.

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    • milfwtf

      Não nasceu ainda, amanhã completo 36 semanas. Mais uma semaninha e estou a termo. Acho que sou moça, 27 anos e solteira! hehehe. Obrigada por compartilhar seu carinho comigo! Beijos!

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  3. A superação do abuso, pode ser um parto! | Mulheres Empoderadas

    […] No segundo mês tivemos uma briga feia e eu resolvi voltar pra São Paulo. A depressão permaneceu até o terceiro mês, eu não sabia onde terminavam os processos fisiológicos de uma mulher grávida e onde começavam os mentais, a depressão. Era tudo uma coisa só, os enjôos que eu sentia na carne, a dor que eu sentia na alma e a raiva de ter virado uma embalagem de bebê. A gravidez me despersonalizou perante os outros e perante a mim mesma. De um lado, pessoas dizendo que eu não podia “me sentir assim”, pois prejudicava o feto. De outro, o pai dele me xingando por e-mail, dizendo que eu “tomei o filho dele” com a minha volta pra casa. Eu não existia. Eu era um útero e nada mais. Pensei em aborto, mas como sempre desejei a maternidade, sabia que isso estava fora de cogitação. Escrevi a respeito disso no blog que eu mantenho, em um post entitulado Carta aberta de uma feminista ao seu filho […]

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  4. Lindo. Lindo. Lindo. Luz pra vocês, muito sol pra iluminar os inúmeros caminhos que vão brotar dessa terra fértil redescoberta!

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  5. Fer

    Se vc pirou até agora espere para a sensação de parir, literalmente, por parto natural! A melhor droga é fica chapada de ocitocina e depois super ligada pela adrenalina, sentir seu bb sair de você. É a sensação mais maluca, prazerosa, emocionante! É viciante

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  6. Lorena

    Olha, estou com 8 meses de gestação e passei exatamente pelas mesmas coisas que você. Me identifiquei totalmente. Até penso em escrever um livro ou algo assim sobre a desmistificação da “grávida camponesa”. Te digo que o amor só aumenta, a cada chute, a cada soluço, a cada ultrassom. Sorte para nós, nessa nova e maior empreitada da vida.

    Também tenho um blog, ficaria honrada com sua visita.

    Beijos,

    Lore e Inácio.

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    • milfwtf

      Eu entendo por que os gritos das gestantes infelizes ficam tão abafados. É tão difícil, né? A gente “tem que” tanta coisa. Mas é isso, temos mais é que esgoelar nosso estado de confusão e de tristeza pra mostrar que nem tudo são flores. E pra mostrar que esses sentimentos ruins são passageiros, que quem escolhe levar adiante a gravidez precisa ter uma fé de que tudo vai acabar bem, e acaba mesmo. A gente aprende a amar. Depois que aprende, esse amor só cresce, e nem parece que a depressão existiu. Pelo menos foi assim pra mim. Eu não sou contra o aborto, mas acho que se falássemos umas com as outras mais abertamente sobre esse processo de tristeza e superação da tristeza, muitos abortos seriam repensados. Todos os dias agradeço a maturidade que a gravidez me deu!

      Beijo!

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      • Lorena

        Diante da minha insônia, agora costumeira, fico refletindo sobre tudo que vivi nos últimos meses. Quem eu fui, quem eu me tornei, o que virei a ser. Não foi fácil. Nada foi fácil. Não foi fácil assumir uma gestação sozinha. Porque por mais apoio que eu tenha tido, que não foi pouco, eu sempre estive sozinha. No início de tudo, eu quis até morrer. Nunca pensei sentir isso na minha vida, mas eu senti. Quis morrer porque sabia que jamais desistiria do meu filho, mesmo que tudo me levasse a isso. Que a minha condição de mãe solteira, sem diploma e morando longe da família apontava numa direção óbvia para muitos, mas impossível para mim. Quis morrer porque morreria por meu filho e junto com ele, se preciso fosse. Decidi viver. E a luta que travou-se após essa decisão jamais terminará, eu sei. Quando olho para trás, não me reconheço. Não sobrou em mim nem 10% do que fui. Meu sorriso é diferente, minha energia é diferente, até meu cabelo é diferente. Meus prazeres são outros. Houveram muitos que não souberam lidar com o novo de mim. E quando eu digo muitos, é preciso que se pense em uma quantidade realmente grande. Encontrei portas fechadas, costas viradas, por todos os lados e onde menos desconfiava encontrar. Esperneei, me debati, maldisse… E me conformei. Quebrei a minha casca de ovo e saí pra fora. Me reinventei. Aprendi que estar sozinha, é estar em dupla. É isso que ele me diz toda vez que chuta a minha barriga: “Mãe, eu estou aqui”. E isso supera tudo, conforta, alegra tudo ao redor. O que ficou para trás, simplesmente ficou. O que veio do meu novo mundo, me orgulha demais. Aqueles que além de não fecharem portas, abriram o coração. Me emprestaram as pernas, quando as minhas ameaçaram fraquejar, o coração, quando o meu parecia querer parar. Me deram suas vidas. Esse texto é realmente para agradecer à todos que estiveram colados comigo por todo esse caminho, cheio de pedras, mas com um arco-iris enorme e com um pote de ouro no final dele que enriquecerá os nossos dias até o fim. Obrigada, primeiramente, isoladamente aquele que foi meu marido quando precisou, meu irmão, meu pai, meu sorriso, meu choro copioso de despedida (e que me faz chorar agora). Que cozinhou para mim, que levantou as 5 da manhã para ir ao médico, que foi o primeiro a ver na ultrassom “o peruzinho dele!”. Ao PAIdrinho Samuel de Assis, que jamais conseguiria agradecer a altura tudo o que fez e faz por nós. À Reinaldo Galvão, minha petinha querida, meu amigo amado, te amo demais. À Prix Sancle, que foi minha maior surpresa. Ela que sou eu e que me dá a alegria de dividir comigo essa experiência única. Não roeu a corda, abriu o peito e me mostrou: “Eu estou aqui”. Te amoS, minha preta. Aos meu amores da vida, que riem quando devem chorar e amam, quando só resta amar, Edu Oliveira e Cléa Maria. Vocês sabem o tamanho de vocês em nossas vidas. A minha família, por ser a melhor do mundo. Por nunca terem me julgado ou questionado nada, simplesmente me amaram ainda mais. A minha mãe Leila Bastos, que ama esse neto desde que soube da sua existência. Nunca vou esquecer aquele abraço. Sem ela, eu não teria conseguido. Obrigada, obrigada, obrigada. A tia Anna Ligia Aragão, que também é minha mãe (eu tenho sorte). A voinha Gra Falcao, que tem sido apoio e união. E principalmente a Ian Moreira Queiroz, que mesmo fora dos planos, me deu a oportunidade de me tornar o que sou hoje: Mãe do Inácio.

        Obrigada à todos que dividem comigo tudo isso. Agora, no finzinho da gravidez, me orgulho muito de quem me tornei, da força e da mulher que conheci em mim. Farei de tudo para que meu filho também se orgulhe muita da mamãe dele.

        Estamos no aguardo para quando você quiser estrear , vem com tudo príncipe!

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      • milfwtf

        Eu tô aqui sem fôlego com o seu texto, um espelho de mim. Queria te dar um abraço, Lorena. Mando em forma de energia, pra você e pro Inácio. ❤

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  7. Teca

    É isso…tão [somente] isso. Por instantes, me vi…ali. Coi’mailinda que li nos últimos tempos. Gratidão por gritar ao mundo com esta tal [necessitada] sinceridade.

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  8. janandr

    Voltei no tempo, já tem oito anos que me senti exatamente assim, estou emocionada. Queria ter tido essa lucidez quanto aos meus sentimentos. Estou torcendo por você e por esse bebê que já é muito sortudo de ter uma mãe como você. beijos Jan

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  9. Nayra Brighi

    Estou grávida de 38 semanas, o parto está marcado para essa segunda e tô morrendo de alegria por terem me indicado seu texto antes da minha filha nascer! Essa sensação de fiz uma escolha que vou ter que continuar escolhendo pra sempre apavora demais… Com certeza é o que mais dói! Saber que não vou mais sair por aí pouco me fodendo se acordarei amanhã na rua ou em um terminal de ônibus, ou presa por dirigir alcoolizada… E de repente, isso fazer sentido e um movimento um pouco mais concentrado na barriga me fazer chorar e ter vontade de comer coisinhas cor de rosa… Enfim… Só quero te agradecer por ter conseguido escrever tão lindamente e finalmente de maneira tão real: o que é estar grávida (para uma mulher “livre”). Sou jornalista e não consegui até agora reportar como me sinto ou o que acho, ou qualquer merda pra poder tirar um pouco do tanto que tenho sentido, porque não faz sentido algum, não existe um parâmetro pra nos ajudar, tipo “tudo bem, já passei por isso e acaba de tal maneira”. Estamos sozinhas… Estamos sozinhas! E com medo… Mas, como você disse no texto, nunca estivemos tão forte!

    Chega logo criançada!

    Parabéns, mamãe! Você vai ser uma mãe foda, isso é certeza.

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  10. A superação do abuso, pode ser um parto! - Mulheres Empoderadas

    […] No segundo mês tivemos uma briga feia e eu resolvi voltar pra São Paulo. A depressão permaneceu até o terceiro mês, eu não sabia onde terminavam os processos fisiológicos de uma mulher grávida e onde começavam os mentais, a depressão. Era tudo uma coisa só, os enjôos que eu sentia na carne, a dor que eu sentia na alma e a raiva de ter virado uma embalagem de bebê. A gravidez me despersonalizou perante os outros e perante a mim mesma. De um lado, pessoas dizendo que eu não podia “me sentir assim”, pois prejudicava o feto. De outro, o pai dele me xingando por e-mail, dizendo que eu “tomei o filho dele” com a minha volta pra casa. Eu não existia. Eu era um útero e nada mais. Pensei em aborto, mas como sempre desejei a maternidade, sabia que isso estava fora de cogitação. Escrevi a respeito disso no blog que eu mantenho, em um post entitulado Carta aberta de uma feminista ao seu filho […]

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  11. Bruna

    Obrigado pelo lindo texto. Leio-o todos os dias na esperança de me sentir em paz na tentiva de explicar a mim mesmo o que estou sentindo…

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  12. nuno g.

    uma tremenda dose de poesia pra iniciar o dia é muito bom pra ficar pensando melhor. valeu por compartilhar esse isso tão intenso com essa linguagem tão delicada. fui, gracias

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  13. Lu

    Não sou mãe, sou filha, ainda adolescente, porém senti muita emoção ao ler esse texto maravilhoso e pensar na minha mãe, no tanto que ela sofreu e enfrentou e da mesma forma continuou comigo, não desistiu de mim mesmo sendo quase tão jovem quanto eu quando descobriu que me teria…
    As vezes sinto até hoje na forma como as pessoas olham e julgam por ela ser uma mãe tão jovem..
    O meu pai, nunca falou comigo direito, nem ao menos me lembro do rosto dele, e nunca foi julgado por ser um pai jovem. Isso dá pano pra manga pra falar sobre como nossa sociedade tem conceitos tão contraditórios machistas e opressores…
    Sempre que estou com ela e vejo o olhar torto dos vizinhos, ou de qualquer pessoa que pouco me importa eu penso..
    Sim, ela é minha mãe, guerreira, forte, mulher e eu nunca terei tanta admiração por outro ser na minha vida!!!
    Sempre penso em tudo que ela passou, e cada vez mais me sinto admirada pela força das mães.

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